Amor com olhos de adeus por Zé Carlos

Resumo: Em 1995, a primeira antologia do conto gay brasileiro, O amor com olhos de adeus, foi editada pelo psicanalista José Carlos Honório e publicada pela editora Transviatta. Sem representatividade e ainda assombrados pelo vírus da Aids, a época representava grandes desafios para a comunidade gay. Para entender esse momento, a publicação veio dois anos antes da primeira Parada do orgulho LGBT de São Paulo (1997) e um anos antes da chegada do coquetel — conjunto de antirretrovirais mais eficaz para o controle do HIV — no SUS (1996), por exemplo.

“Naquela manhã de agosto, era tarde demais. Foi a primeira coisa que Ele pensou ao cruzar os portões do hospital apoiado náufrago nos ombros dos dois amigos. Anjos da guarda, um de cada lado. Enumerou: tarde demais para a alegria, tarde demais para o amor, para a saúde, para a própria vida, repetia e repetia para dentro sem dizer nada, tentando não olhar os reflexos do sol cinza nos túmulos do outro lado da Avenida Dr. Arnaldo. Tentando não ver os túmulos, mas sim a vida louca dos túneis e viadutos desaguando na Paulista, experimentava um riso novo.  Pé ante pé, um pouco para não assustar os amigos, um pouco para não deixar de ser engraçado estar de volta à vertigem metálica daquela cidade à qual, há mais de mês, deixara de pertencer”.

Caio Fernando Abreu, em Depois de Agosto |Conto da antologia O amor com olhos de adeus

Escritor, contista, jornalista e ganhador de dois prêmios Jabuti, Caio Fernando de Abreu teve um texto publicado na primeira antologia do conto gay brasileiro, O amor com olhos de adeus. Em Depois de Agosto (Ao som de Contigo em la Distancia), Caio narra a história de um paciente que sobrevive ao HIV e retoma a vida, já que “era cedo demais e nunca tarde”. No trecho, há ainda uma referência ao Instituto de Infectologia Emílio Ribas, na cidade de São Paulo, conhecido por ser referência no tratamento da doença e próximo ao Cemitério do Araçá. 

Na metade dos anos 90, a agitada vida urbana gay, centrada nas grandes capitais, enfrentava o vírus da Aids, isso desde o primeiro relato da infecção no Brasil, em 1982. Aposto que era um momento de dualidades, a vontade de viver intensamente versus o medo da morte. Era um sofrimento rebatido pela vontade do gozo, em situações até antagônicas. Além da brevidade da vida, esses indivíduos lidavam com o preconceito da sociedade tanto pelo homossexualismo quanto pelas associações com o HIV.

Caio F. Abreu escreveu personagem com HIV que recebia alta do Emílio Ribas (Imagem: Reprodução/ Facebook do Instituto)

Diante desse cenário, o livreiro José Carlos Honório, de 30 anos, mais tarde poeta e psicanalista, fundou uma editora, a Transviatta, em uma sala no Parque São Lucas, e publicou a primeira antologia do conto gay brasileiro, em 1995. Na época, Zé Carlos já acumulava alguns anos de experiência como vendedor na Livraria Cultura, localizada na Avenida Paulista, e tinha, entre amigos, conhecidos escritores, como o Caio Fernando Abreu.  

Para montar a antologia com autores vivos, escritores de todo o Brasil puderam enviar seus manuscritos com a única obrigatoriedade de trazerem histórias que permeassem o universo homossexual. Com uma linha editorial bastante abrangente, a antologia reuniu contos nacionais, mas também textos que poderiam ser entendidos como relatos, diários e, até mesmo, desabafos daquele período. 

Em comum, a maior parte dos textos foi construída usando a primeira pessoa, o eu, e está repleta de descrições homoeróticas. Além disso, as questões do estar no armário e todo o medo de se revelar, ser descoberto, estão presentes, de forma expressiva. Inclusive, o editor lembra que muito do material que recebia era, literalmente, pedidos de socorro, com o diferencial de serem escritos por gays.  

Fato curioso é que, em 1994, Honório participou da fundação de uma outra editora, a Verbo H, onde começou o projeto da antologia O amor com olhos de adeus, segundo notas publicadas nos jornais Estadão e Folha de S. Paulo. Com um “investidor que não revelava sua identidade” e com sede no bairro Cerqueira César, essa editora não seguiu adiante e nem chegou a publicar dois livros anunciados. Era uma coletânea de poemas do português Antonio Botto e um romance do norte-americano Edmund White

Passados alguns anos, hoje, Honório escreve poesias, trabalha como psicanalista e dirige a editora Humana Letra, que fundou em 2018 na Vila Prudente. Entre os novos títulos, estão a autobiografia do dramaturgo e jornalista, Antônio Bivar, Perseverança, e o livro de contos do pesquisador e também jornalista, João Carlos Rodrigues, Criaturas que o mundo esqueceu.

Confira a seguir nossa conversa, feita antes da pandemia da COVID-19, com o editor da primeira antologia de contos gays do Brasil e o psicanalista, José Carlos Honório, também conhecido como Zé Carlos. 

A linha editorial da HumanaLetra engloba o abrangente e universal nicho do humano. Já a editora anterior, a Transviatta, tinha um foco mais específico. Por que se abrir para mais experiências?

A Transviatta foi uma experiência boa que aconteceu comigo. Naquela época, eu conhecia muita gente, o João Silvério Trevisan, o Adenilson Lopes, … Era muito amigo do Caio Fernando Abreu, inclusive o Caio fez o prefácio do meu segundo livro e escreveu também um conto para a primeira antologia gay do país. 

Tinha retornado de uma viagem para os Estados Unidos e, lá, vi muita literatura gay, que no Brasil não tinha. Como já trabalhava na [livraria] Cultura, pensei em montar uma editora gay, aqui [na cidade de São Paulo], em 1994. Aí, anunciamos a antologia e começou a chegar muito original [manuscritos de livros para serem publicados], num tempo em que eu trabalhava em período integral — não tinha o horário flexível que tenho agora. Trabalhava das 9h às 19h e, com esse tanto de texto chegando, eu não conseguia nem ler. 

Era muita coisa. Cheguei a devolver mais de 200 originais. Nisso, tive que por no correio um por um e eram postagens para o Brasil inteiro. Não sei se me arrependo, de ter devolvido ou não. Hoje, com a HumanaLetra, poderia publicar todo esse material. Agora, nem lembro para quem devolvi essas coisas. Também não sei, se hoje, focaria em nichos, eu não gosto mais de nichos. 

O nicho é o humano. Agora, se é escrito por um gay ou um hétero; um branco, um negro, um asiático ou um judeu, não faz muita diferença. Hoje, me faz diferença o que é bem escrito, o que vai causar alguma inquietação. Agora, se alguém bate a minha porta e fala que está com um original, não vou perguntar a preferência sexual dele ou a cor. Ponha o livro por debaixo da porta, eu leio e, só depois, abro a porta.    

A mesma Livraria Cultura, na Avenida Paulista, em 2019, homenageando o movimento LGBTQ+ (Imagem: Reprodução/ F1del Forato)

Hoje, ainda parece muito inédita o conceito da editora e poucos empreendimentos se arriscam a falar, especificamente, com o público LGBTQ+. Como foi o processo de montagem da Transviatta?

Na Zona Leste, no Parque São Lucas, montei uma sala, contratei uma pessoa para receber os originais e atender os telefonemas [em 1995]. Sempre fui muito amigo de escritores, então, ouvindo de todo mundo o que poderia fazer, cheguei a conclusão de que deveria montar uma antologia para contemplar todos os autores que nos escreviam do país inteiro. 

Aí, é que surgiu o livro O amor com olhos de adeus. E essa foi também a primeira experiência que eu tive em falar ‘não’ para algumas coisas, porque vinha aquele original escrito à mão. Não sei se, na época, tinha computador, mas pelo menos máquina de datilografia tinha. Uma coisa curiosa é que me enviavam muitos diários e eram diários sofridos. Eram gays passando por necessidades tanto físicas e econômicas quanto psicológicas. A pessoa apanhava do pai por ser gay e isso era relatado em forma de conto, só que não era conto. Era apenas um desabafo. 

Na literatura, a gente precisa ter um pouco de discernimento em relação a isso. Era como um De Profundis, do Oscar Wilde, quando ele foi preso. No entanto, Wilde tinha um enorme estilo, era maravilhoso. Você lê aquela carta e, até hoje, chora. O que eu via, no tempo da Transviatta, eram pedidos de socorro e esse não era o meu intuito, como hoje é, analisar e ouvir as pessoas [como psicanalista]. Nas cartas, nos diários, nos manuscritos, via que as pessoas sofriam muito e que elas precisavam de ajuda. Hoje, também precisam, mas vejo que não é só o gay que precisa de ajuda, o gay está inserido no humano que, como um todo, precisa de ajuda.

Consigo imaginar que eram histórias muito tristes, mas sobre o que exatamente essas pessoas escreviam? Quais eram as angústias desses autores?

Do que recordo, eram histórias como: eu apanhei do meu pai; eu tive que me esconder embaixo da cama; eu transei com um cara que não me quer mais; minha irmã descobriu que eu sou gay. Às vezes, ainda me perguntavam: o que o senhor pensa que eu devo fazer? E essa coisa da autoridade me deixa em um estado tenso, ainda hoje. Quando alguém te chama de senhor, é uma responsabilidade, porque te põe em um lugar que, se você fala eu não sei, o senhor vai por terra. E se você fala alguma coisa, a pessoa pode, realmente, aplicar aquilo que você disse. 

Então, a primeira coisa é você ter que se igualar e falar eu não sou senhor, eu sou igual. O papel de editor te coloca, de alguma forma, como senhor. Você é um juiz para falar se a obra é boa ou não, tanto é que você pode acabar com a carreira de pessoas por falar um não. Na psicanálise, há a questão do suposto saber, as pessoas pensam que sabemos mais do que a própria pessoa que nos procura, mas a verdade não é essa. Na verdade, é uma relação em que os dois descobrem juntos essa suposta verdade. 

Lendo matérias e reportagens da época, especula-se sobre uma segunda antologia. Ela chegou a ser publicada?

Não, eu devolvi tudo antes. O que penso em fazer, às vezes, pela HumanaLetra, é uma reedição da antologia, mas nem sei por onde começar. Teria que contatar os 19 autores e alguns, infelizmente, morreram. Por exemplo, o Caio Fernando Abreu está lá, com um conto lindo, mas faleceu. Foi meu amigo, mas para quem devo pedir autorização hoje? Agora, imagina isso potencializado por 19. Talvez, o caminho seja tirar os contos de quem eu não conseguir contatar ou ainda montar uma nova antologia… São ideias.

Publicado na metade dos anos 90, como sentiu a percepção e como foi o feedback do público com a antologia?

A Antologia vendeu tudo, esgotou [os mil exemplares], mas depois que a editora fechou. Na época, não vendia tão bem, não. Eu leio e sou gay, mas não é porque eu sou gay que leio e nem porque leio que sou gay. Uma coisa não leva a outra e quem lê gosta de literatura. Óbvio, que uma Literatura gay aproxima mais a comunidade, mas não adianta aproximar mais a comunidade, se essas pessoas não gostarem de ler. 

Meu sentimento era de que tínhamos mais escritores do que leitores, pela quantidade de depoimentos e pedidos de socorro que recebia, de gente buscando ser escutado. De novo, não acho que fosse literatura. Era uma editora, não um consultório. Ainda hoje, me parece assim. 

Não entra alguém na livraria —  olha que eu trabalheira na Livraria Cultura por 35 anos —, perguntando se você tem um novo autor gay. Nunca entrou alguém me pedindo isso. Mesmo porque ninguém sai por aí falando eu sou gay. As pessoas são e pronto. Agora, as pessoas perguntavam o que tinha de poesia novo, aí é outra cosa. O que tem de romance policial novo, é outra coisa também.

Pelo o que você me fala, vejo esses textos direcionados para a editora quase como documentos históricos de uma época. Independente disso, a escrita gay é uma experiência diferente, um ponto novo, do que um gênero literário propriamente dito, concorda?

É a coisa do modus vivendi [modo de viver, em latim]. Penso que o gay tem uma visão diferente, inclusive, do mundo dele e do hétero. Isso para filme, para teatro, para a Arte.  Por exemplo, a gente se enxerga mais numa literatura gay, mas o que eu, José Carlos Honório, penso é que conseguimos transpor o nosso universo gay para qualquer literatura, através da nossa humanidade. Para mim, não tem essa divisão. Quando eu leio o livro de uma lésbica e tem duas mulheres preparando um jantar, eu não consigo olhar apenas duas mulheres, eu consigo olhar dois humanos. Casualmente, são duas mulheres. 

As histórias humanas se aproximam e nos aproximam muito. A sociedade não foi ainda adaptada para os gays. Às vezes, incomoda estarmos o tempo inteiro pedindo licença para entrar, o tempo inteiro. Isso me incomoda, mas, ao mesmo tempo, eu consigo ver uma humanidade em tudo isso. Já vivemos uma coisa de divisão, de ódio, por conta da política. Sou muito contra essas cisões, eu gosto de agregar, eu gosto tanto de humanizar quanto de fazer parte. Agora, quando alguém dá uma paulada [ou lampadada, como já aconteceu na Avenida Paulista] em um gay, eu acho que essa pessoa está doente e precisa ser tratada.

Pensando na comunidade, o que tinha nos anos 90 para as pessoas se identificarem? Falo em produtos culturais, livros e referências positivas.

Veja, tive que viajar para fora — e olha que eu tinha uma situação economicamente viável para isso —, fui buscar essa referência que você fala fora, porque não tinha aqui. Eu não sei te responder essa pergunta, o que serviria de referência, como uma bússola, para essas pessoas. Por isso, pode ser que a Transviatta tenha dado certo. 

Os gays com grana viajavam, consumiam. Lá fora, tínhamos mais publicações específicas, lojas com bandeirinhas, camisetas, um movimento maior. Aqui, não tinha nada, mesmo hoje ainda não tem nada. É um trabalho muito de descoberta, o tempo inteiro. É como falar de toda estrutura do bairro Castro, em São Francisco. Por aqui, temos a Frei Caneca e tivemos a Marquês de Itu, em 1994. Era maravilhoso andar por ali nos anos 90, você era aceito. Agora, em outros estados, eu realmente não sei. Penso que essas cartas, esses depoimentos, esses relatos, esses pedidos de socorro endereçados à editora, eram uma forma de pedir para que suas histórias fossem escutadas, porque eles eram iguais a nós.

Pensando em uma imaginária continuidade da Transviatta, que livro você gostaria de ter publicado, mas não editou?

Um livro do Caio, a gente era muito próximo. Conversávamos muito e me emociono quando falo do Caio. Porque o Caio para mim, além da proximidade com a Clarice [Lispector] e com a Hilda [Hilst] — ele que me apresentou a Hilda Hilst, que eu amei —, tínhamos uma conversa, não só franca, mas muito íntima, literariamente, falando. Queria ter editado um livro dele, … Mas não deu tempo [o escritor faleceu no dia 25 de fevereiro de 1996, aos 47 anos, em Porto Alegre, por complicações decorrentes do HIV.]. 

Para o Caio, nada era de graça. Os encontros não eram de graça, as histórias não eram de graça, tudo tinha um porquê. Para mim, tudo também tem o seu porquê. Nada é por acaso. Queria ter continuado a conversar com ele. Até converso, às vezes, mas é diferente. É uma conversa silenciosa, penso que ouço o que ele está falando, mas nem sempre foi assim. Quando quero revisitar, leio alguma coisa dele. Daí, consigo ver o Caio falando comigo. 

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A seguir, confira todos os nomes (além de pseudônimos ou heterônimos) de quem escreveu para a antologia O amor com olhos de adeus: João Silvério Trevisan; Marco Aurélio Fernandéz; Gil Lima; Adnu Banos; Ivo de Oliveira; Esdras Silva Luz; Ricardo Rosas; Anita Costa Prado; Albert Roggenbuck; Amador Ribeiro Neto; Caio Fernando Abreu; Denilson Lopes Silva; Atalá Marques Porto; Orlando Jerônymo; Luís Canabrava; Nelson Ricardo C. Dos Santos; Adriano Puntel Gosuen; G. Martan; e Théo.

P.S.: Na cronologia de antologias gays, a professora e pesquisadora em teoria literária, Amara Moira, resgata o livro Histórias do amor maldito, de 1967 e organizada por Gasparino Damata. Entretanto, a publicação não se trata de uma coletânea de contos com autores gays e, sim, sobre textos de diferentes gêneros com a temática homossexual.

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