Bruxas e fake news: como mulheres foram e saíram da fogueira?

Bruxas, milhares delas, foram queimadas na fogueira, literalmente, em praça pública e com amplo apoio popular. Nas execuções, os camponeses – conhecidos por cidadãos, hoje em dia – se organizavam, em torno das chamas, para o cumprimento de mais uma dassas penas capitais por bruxaria. Direcionadas, na maioria das vezes, para as mulheres.

Em números totais, segundo a pesquisidora norte-americana Anne L. Barstow, ao menos 100 mil mulheres tiveram esse fim trágico. Já em números mais regionais, 4.500 bruxas foram queimadas entre os anos de 1590 e 1650, somente na Escócia, de acordo com a historiadora britânica Christian Larner. Entretanto, esses crimes podem ser ainda maiores, isso porque muitos arquivos de processos foram destruídos ao longo das gerações e alguns julgamentos nem mesmo foram registrados.

Obra ‘As duas bruxas’, do pintor renascentista Baldung Grien (Imagem: Wikipédia)

A fogueira foi, por décadas, um entretenimento para as massas que envolvia amplas camadas sociais e chegavam a grande parte das comunidades europeias e até americanas. Por isso mesmo, é necessário lembrar quem foram essas mulheres. Tão importante quanto é entender como essas sociedades concordaram com esses crimes e, o mais interessante, de que forma as mulheres se reinventaram a partir da perseguição.

São perguntas como essas que a historiadora brasileira Isabelle Anchieta, doutora em sociologia pela USP e mestre em Comunicação Social pela UFMG, revela no livro Bruxas e Tupinambás Canibais, no volume I de sua trilogia Imagens da Mulher no Ocidente Moderno, publicada pela Edusp.

Biólogas e farmacêuticas

Mais do que o puro ódio, essas mulheres, as bruxas, eram consideradas as “médicas dos pobres” e também as biólogas e as farmacêuticas, em uma época onde a Ciência das academias estava restrita aos homens. Eram também as mulheres que não se submetiam ao masculino e nem aos sistemas impostos, criando suas próprias fórmulas. Por esses conhecimentos considerados sobrenaturais, eram temidas, mas, em proporção muito semelhante, despertavam o fascínio entre seus algozes. 

Obra ‘Bruxas’, do pintor renascentista Baldung Grien (Imagem: Wikipédia)

As labaredas contra as bruxas foram alimentadas em uma tentativa de controle daquilo que era desconhecido, dos saberes desviantes e de todo o medo que o novo (o diferente, o proibido, o excitante, …) despertava. Afinal, ainda hoje, o desconhecido desperta sentimentos passionais e pode causar revoltas.

É exatamente por isso que, se esses tribunais fossem reaquecidos na atualidade, aposto que milhares de mulheres continuariam a ser condenadas por sua insubmissão ao caos vigente, junto das populações afrodescendentes e indígenas, além de integrantes da comunidade LGBTQ+.

Novas fogueiras

Se a vontade humana por reacender fogueiras contra o desconhecido não surpreende em tempos de gabinete do Ódio e da indústria das fake news, a forma inovadora em como a perseguição às bruxas foi construída e disseminada na época que a sociedade ocidental vivia o Renascimento, sim.

Para impulsionar mentiras hoje, os criadores de fake news trabalham de forma profissional e agem através de robôs e perfis falsos, coordenados nas redes sociais. Esses bots impulsionam notícias falsas, histórias mirabolantes que despertam medo e até simples hashtags, seja pelo Twitter ou pelas correntes do WhatsApp.

 

Na época das bruxas, era um tanto diferente. Papéis com imagens e textos absurdos, chamados de panfletos ou volantes noticiosos, impressos como estereótipos, associavam a figura da mulher com a do diabo, aquele que era o mais temido. Por sua vez, essas “informações” concordavam com a forma em que as pessoas viam o mundo, um mundo em aparente colapso de valores. Por isso, eram capazes de despertar os piores sentimentos.

Por volantes noticiosos, no livro Bruxas e Tupinambás Canibais, a pesquisadora Anchieta os define como: “uma única página, com uma imagem impactante, ocupando mais da metade dela, e uma manchete forte, geralmente com adjetivos superlativos, seguido de um pequeno texto relatando a suposta notícia. Mais baratos e fáceis de ver/ler e de trocar do que livros, os volantes noticiosos tornam-se rapidamente um fenômeno de comunicação de massa, mesmo para os analfabetos”.

De olho nos esterótipos

A partir desse modelos, notícias como “o nascimento de crianças deformadas, as mudanças climáticas (tempestades, incêndios, inundações etc.), os animais alados e assassinatos encontram uma causa. Uma culpada: a mulher/bruxa e sua sexualidade desenfreada”. Eram invenções, mas que davam formas a crenças de uma suposta maioria dos cidadãos.

Esses relatos difamatórios eram, então, compartilhados por parte da sociedade, incluindo religiosos, tanto católicos quanto protestantes, que se utilizavam das estruturas de suas igrejas e das relações incestuosas com o poder – na época, não se existia a tripartição dos poderes – para queimar e condenar as bruxas.

Obra ‘As quatro bruxas’, do pintor renascentista Albrecht Dürer

 

A partir dessas narrativas, as mulheres, consideradas bruxas, enfrentaram uma das maiores campanhas de difamação da história. Isso porque as fake news da época corriam também de forma fácil e sem checagem. Era como um ambiente dominado pelas redes sociais, onde boatos repetidos milhares de vezes, apoiados e ampliados por robôs, construíram e ainda constroem mentiras como verdades.

Para entender todo esse universo de perseguição às bruxas e ao medo que o feminino despertava na época, conversamos com a historiadora Anchieta sobre seu trilogia.

Extático: Para começar, é possível afirmar que essas mulheres, consideradas bruxas, de fato existiram como foram retratadas?

Isabelle Anchieta: Tal como entendemos as bruxas, como uma mulher sobrenatural, acredito que não. O que chamamos de sobrenatural numa época, se torna natural em outra. Por exemplo, não se sabia que o uso de venenos em pequenas quantidades era um antídoto. Hoje, chamamos isso de remédio. Antes, era conhecido como o veneno das bruxas.

Eram, simplesmente, mulheres médicas, biólogas, testando ervas. Aí, entramos em todo um mito, depois, de como elas interferiam na natureza, inclusive nos humores humanos. Passam a associar a melancolia, que hoje é a depressão, de distúrbio das bruxas, principalmente, um distúrbio sexual.

Há uma associação muito arbitrária entre o comportamento sexual das mulheres e o que acontecia. É como se os males do mundo acontecessem por causa de um desvio de comportamento. Em uma sociedade que tinha o pensamento mágico e religioso, em que o sobrenatural era aceito como algo que existia [o caso do diabo] é, evidente, que vamos encontrar esse tipo de explicação para o inexplicável.

Obra ‘Bruxas’, do pintor renascentista Baldung Grien (Imagem: Wikipédia)

Então, a resposta é não. Eram mulheres muito comuns e há uma construção da sobrenaturalidade em torno delas. Há também todo um movimento que mostrarei nos livros das mulheres se humanizando ao longo do tempo, porque ora foram diabolizadas, como as bruxas e as tupinambás canibais, e depois idealizadas em uma mulher virgem, que gera uma criança e vai servir como modelo moral pesado para um conjunto de mulheres daquela época. Até hoje, ainda há resquícios dessa moral no comportamento feminino.

E: Uma das principais fontes de informação sobre as bruxas eram os volantes noticiosos, com os estereótipos, de fácil assimilação. É possível traçar um paralelo com as fake news enviadas por WhatsApp de hoje e essa forma de comunicação? 

IA: Penso que, em ambos os casos, temos uma nova forma de reprodução de narrativas. A primeira impulsionada pela imprensa de Gutenberg com as reproduções e, hoje, os celulares com suas mensagens enviadas, em massa. Esse paralelo é absolutamente possível e até o termo é muito interessante para vermos as origens da construção dos estereótipos.

Na verdade, o estereótipo é uma técnica tipográfica que foi inventada por um francês, o Firmind Didot, em 1795. Diferente dos tipos de Gutemberg, com a prensa, o esteriótipo era a cópia de um bloco inteiro, que consistia em derramar um metal fundido em uma página de tipo móvel já montada. Ela forma um bloco único de texto, de baixa qualidade.

É na verdade mais tarde, em 1922, que o Walter Lippmann, no livro Opinião Pública, vai definir o esteriótipo tal como entendemos. Como imagens mentais dos outros que são econômicas, ou seja, são resultados de uma síntese. Você olha rapidamente e já associa aquilo a alguma coisa. Antes que você conheça a pessoa, vem uma imagem mental pronta sobre ela.

É a ideia da pré-concepção, ela é burra, ela é loira, ela é bonita, ela feia, ela é inteligente. Você constrói dentro de uma gramática muito universal e simples alguma referência para localizar aquele conhecimento. Isso gera uma economia de raciocínio, mas também empobrece a pessoa e a situação, porque reduz todas as qualidades a uma única.

Essa é uma das características do esteriótipo, que tem uma grande capacidade de comunicação, mas reduz a complexidade do mundo. Em uma sociedade cada vez mais informada, às vezes, essa redução é necessária para darmos conta da quantidade de informações recebidas, mas também pode ser perigosa. De tanto se repetir uma mentira, ela pode se tornar uma verdade, como foi o caso das bruxas.        

E: Quando lemos o livro, estamos analisando, na maioria das vezes, imagens e ideias reproduzidas pelos outros (quase sempre homens) sobre essas mulheres, consideradas bruxas. Existem registros e imagens produzidas por elas sobre si próprias? 

IA: As mulheres, evidentemente, produziram imagens, só que a diferença é que essas imagens não tiveram uma legitimidade pública. Elas [as mulheres] não se tornaram xilogravuristas, não se tornaram pintoras, porque não eram ofícios socialmente aceitos. Só vai acontecer isso, praticamente, no século XVII , quando as mulheres conseguem, de fato, entrar nesses campos profissionais. Aí, é que está a diferença.

Então, para você formar um esteriótipo, ou seja, para a imagem, de fato, ser uma arma, política e cultural, você tem que torná-la pública. Imprimi-las e publicá-las em livros. Isso as mulheres não conseguiam. No entanto, por mais que não tivessem legitimidade para exercer um ofício, elas não ficaram submetidas as imagens que foram produzidas sobre elas. Uma das surpresas da pesquisa é revelar é que as mulheres, inclusive, subvertem  essas imagens a favor delas.

Obra ‘As três idades e a Morte’, do pintor renascentista Baldung Grien (Imagem: Wikipédia)

As próprias bruxas são mulheres que passam a se firmar como bruxas, ao invés de se negarem. De falarem que não sou bruxa, que não sou diabólica. Elas se afirmam, porque aquilo também confere a elas, principalmente nas comunidades rurais, que é a origem da ideia da bruxa, um status. Elas são nada mais do que as parteiras, benzedeiras, as que chamo de médicas dos pobres. Elas passam a ter o poder de salvar a vida, de serem donas da vida e da morte.

Elas descobrem os antídotos, os remédios, os usos de ervas, inclusive, são muito procuradas pela aristocracia, de forma indireta, não oficial. Porque até então os médicos só eram homens. É muito interessante essa história e como as mulheres são astutas em usar essas imagens a favor delas, mesmo que, aparentemente, as imagens joguem contra.         

E: É possível traçar paralelos entre as mulheres consideradas bruxas e a emancipação feminina que a sociedade vive nas últimas décadas?

IA: Uma das coisas que sempre percebi é que as mulheres, constantemente, lutaram para se emancipar, ou seja, lutaram para viverem os seus desejos e suas ambições, dentro dos limites e das possibilidades que tinham. A história da diabolização da mulher é uma história, de uma certa incompatibilidade delas com os modelos e as possibilidades que lhes eram dadas pela sociedade. A transgressão feminina, o que levou as mulheres para a fogueira, nada mais foi do que uma tentativa de liberdade, de autodeterminação.

Digo, que analiso as mulheres como protagonistas da modernidade. O que me interessou sobretudo não foi a reconstrução da vitimização da mulher, ainda que ela tenha passado por um conjunto de constrangimentos, que eu não os negue. No entanto, o que me interessou foi entender, exatamente, o contrário, como as mulheres alteraram a sociedade, como elas foram a força ativa e o motora para transformar todas as relações sociais.

As mulheres quebram com a ideia da família tradicional, a partir do divórcio, a partir de novas possibilidades da carreira, de não serem mães, ou seja, elas reordenam toda a sociedade. Porque mudar o papel da mulher é mudar, automaticamente, o lugar e as funções do homem. Não é uma mudança só para as mulheres, elas mudam um conjunto de instituições e relações que são, absolutamente, modernizantes.         

E: Voltando para a história de perseguição dessas mulheres por bruxaria, houve diferença entre os tipos de perseguição dessa mulheres baseado nas religiões católicas e protestantes? E em outros contextos?

IA: Tanto os protestantes quanto os católicos perseguiram as bruxas. Só que, se os protestantes não tinham obsessão pelos santos, eles tinham pelo diabo, ou seja, não foi menos dramática essa perseguição. Era um momento em que as pessoas tinham essa suspeita o tempo todo e buscavam externalizar todos os males do mundo através de alguns responsáveis.

Obra ‘As três graças’, do pintor renascentista Baldung Grien (Imagem: Wikipédia)

Nesse caso, foi a secularização [a transformação de fatos e instituições, que estavam sob o domínio religioso, para um estado laico] que libertou a mulher e não a religião. Porque, se teve o lado do diabo, teve também o lado da idealização pela imagem da santa, da virgem Maria, que também aprisionou a mulher. A idealização foi tão ruim quanto a diabolização e é isso o que tento mostrar.

Há uma frase de Simone de Beauvoir que diz: “Estar fora do mundo não é uma boa posição para quem quer mudar o mundo”. Então, foi necessária uma encarnação feminina. Eu falo que a imagem-ponte para a modernidade é a imagem de Maria Madalena, que é um misto de santa e já é uma mulher pecadora, real.

É isso o que vai acontecer depois, a completa humanização e secularização da mulher para, então, entrarmos em um processo de individualização que vivemos, hoje, ao extremo. O contemporâneo é uma hiperindividualização, é o excesso desse processo que depois, acredito, chegará em uma síntese, o indivíduo-humanismo.      

E: No final do livro, é citado o conceito de marginal atrativo. Como definiria esse termo para as bruxas e como podemos o relacionar com a perseguição às minorias, inclusive das mulheres, nos tempos de hoje?

IA: O termo foi uma forma de tentar resolver a complexidade da representação feminina, porque, geralmente, as pessoas usam o termo misoginia, que é uma questão do ódio em relação às mulheres. Como se [esse ódio] tivesse sido o motor da representação feminina.

Vou dizer que não, esse não é um sentimento que vibra em uma nota só, então a marginal atrativa é aquela que vai conciliar um temor, mas simultaneamente um fascínio. As mulheres produzem esses sentimentos contraditórios e é importante não os perdê-los de vista. Usar apenas o ódio é uma simplificação para uma relação muito complexa.

Não que os homens apenas subestimassem as mulheres, às vezes, era muito pelo contrário, é uma tentativa de controle exatamente para não terem seus próprios sentimentos descontrolados. Para eles não ficarem a mercê das mulheres, do controle feminino. Nesse sentido, que a mulher é uma marginal atrativa.

Há uma frase do Oscar Wilde, citada na conclusão do livro, que é: “Nós sempre matamos aquilo nos amamos”. Tudo aquilo que nos tira do controle, temos uma necessidade, muito grande, de exterminar, de alguma forma. O holocausto das bruxas – isso mesmo, o holocausto, dessa palavra que vem do grego e significa colocar na fogueira, queimar – não foi movido por um ódio puro e simples. Ele também foi movido por um fascínio.

***

Sobre Imagens da Mulher no Ocidente Moderno, da editora Edusp: Composta por três volumes, a obra fundamenta e até se confunde com o início da cultura ocidental moderna e, não ao acaso, seu recorte temporal e geográfico é o Ocidente moderno. Entre as diversas imagens femininas, a socióloga priorizou aquelas que se popularizaram no Ocidente através de estereótipos, como a bruxa, a índia tupinambá canibal, Maria, Maria Madalena e as estrelas hollywoodianas.

Já os números de execução de mulheres que se referem ao período de caça às bruxas foram retirados do livro Calibã e a Bruxa, da professora Silvia Federici, com tradução do Coletivo Sycorax e ecom dição feita pela Editora Elefante.

 

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