A sátira e a ameaça à vida

Há limites para o humor? Em movimento planejado no dia 4 de março de 2020, o presidente Jair Bolsonaro trouxe o humorista Márvio Lúcio, conhecido também como o Carioca, para ser entrevistado por jornalistas (não sabendo dessa ação) que aguardavam a tradicional coletiva de imprensa no cercadinho do Palácio do Planalto.

Na ocasião, o humorista estava caracterizado com a faixa presidencial, usava bordões do presidente, tocava uma trombeta e distribuía bananas para os jornalistas presentes, depois de sair de um carro oficial. Só em seguida é que Bolsonaro chegou em um outro carro oficial para cumprimentar seus apoiadores. No vídeo, depois de algumas risadas de deboche, fez uma selfie com uma mulher maquiada com a bandeira do Brasil no rosto.

Sem julgamentos, essa situação legítima o riso como estratégia política no combate à críticas ao governo. Como esperado, a cena inusitada viralizou nas redes sociais e foi, com certeza, feita para o público mais fiel do político. Se espera, que eles gostariam de ver jornalistas (#globolixo) sendo colocados no lugar de patetas, como se o que fizessem não fosse uma profissão digna e, por isso, não merecessem respeito. 

MILICIAS VIRTUAIS

Vale ressaltar que a presença nas redes sociais foi e é um dos grandes pilares de sustentação do seu governo, junto a esse tipo de humor. É através dessas redes que o presidente se comunica diretamente com o seu público, evitando questionamentos e perguntas difíceis. Isso fez que, na sua posse, muitos de seus apoiadores gritassem: WHATSAPP, FACEBOOK!, nomes de redes sociais privadas e norte-americanas, inúmeras vezes, aos berros, em comemoração a nova liderança do Brasil.

Há quem tenha acusado o presidente desse vez [em que levou um palhaço para a Alvorada] e em algumas outras circunstâncias de quebra de decoro parlamentar. O fato é que Bolsonaro lida com o deboche (entre outras práticas) para contestar a imprensa e qualquer outra pessoa que questione suas ideias, sua visão de mundo e seus pensamentos.

DEBOCHE VIRTUAL

Em resposta a essa rigidez e falta de diálogo, o presidente também encontra um movimento nas redes sociais cada vez mais resistente, calcado no deboche e também na sátira política – que aparenta ser umas das técnicas mais usadas na história da humanidade para contestar o poder. É a força do riso, usada até pelo próprio para contestar a imprensa. 

Desde sua eleição, há grupos que buscam desconstruir sua figura a partir do humor, como o perfil dos @bolsominionsarrependidos que aglomera postagens de possíveis eleitores do presidente que se dizem arrependidos de sua escolha política e contam suas tragédias. Além do perfil da @barbiefascista_ que ridiculariza uma suposta classe média alta, eleitora do político que há mais de 30 anos “representa” o povo brasileiro.

Outra importante figura nesse meio, é o deep faker e editor de vídeos, Bruno Sartori. Jornalista e estudante de direito, Sartori desenvolve elaboradas (por serem altamente técnicas) sátiras políticas, que tem como grande alvo o atual presidente da república. Para essas construções, ele usa uma técnica conhecida por deepfakes. A partir da Inteligência Artificial (IA), ele modifica o rosto de pessoas em vídeos, com sincronização de movimentos labiais e expressões da face, com resultados bastante realísticos para situações irreais.

Nas suas paródias, a gargalhada e o deboche se voltam contra o próprio político. É o caso do Capitão Corona, onde o presidente é satirizado a partir de uma sobreposição da sua imagem com a do novo coronavírus e avisa: “Nos orgulharemos caso se contaminem”. A situação em que discursa como em um pronunciamento nacional, transmitido pelas TVs de todo o Brasil, questiona as suas falas públicas no combate e na minimização da pandemia.

Há também o pronunciamento do presidente que tenta falar com a boca amordaçada, outro em que está caracterizada como personagem Chapolin Colorado ou ainda como sendo a Bruxa do 71, do seriado Chaves, entre uma infinidade de outras situações. Recentemente, Sartori refez a abertura do seriado American Horror Story com os membros do governo.

É importante avisar que em nenhum momento a ideia desses vídeos é enganar seus seguidores ou construir uma nova verdade. Isso porque os vídeos são sempre veiculados com a hashtag #DEEPFAKE, além de trazerem a marca d’água do Instagram de Sartori, ou seja, tudo está, ali, sendo identificado.

Independente de serem polêmicas, essas sátiras são protegidas pela lei e enquadradas como uma forma de liberdade de expressão, o que não impediria um eventual direito de resposta e responsabilidade penal e civil pelos abusos e excessos do autor.

AMEAÇAS DE MORTE

Mesmo assim, Sartori desperta grande ódio entre as milícias digitais e é constantemente vítima de ameaças, como em uma mensagem recebida pelo Instagram, de um usuário de Campina Grande, que mora atualmente em Orlando. Na ocasião, o user ameça a vida do criador de sátiras e revela uma forte fixação anal.

[ATENÇÃO: TEXTO COM LINGUAGEM IMPRÓPRIA] Em resposta a um post, o hater escreve: “SÓ QUERIA 10 minutos com você / Pra vc aprender a ser homem / Estrume / Militante de bosta / Mariquinha”. Ainda, não contente com todos os xingamentos já enviados, o usuário grava uma série de áudios, que estão reunidos a seguir: 

“… Vagabundo, chupão de ovo! Você é um bosta, é o que você é, um bosta. Mexer com Bolsonaro, você vai mexer com a nação, seu bosta. Vou comer seu cu, seu merda… Seu trepada mal dada, seu lixo humano. Todo dia vou te encher, nem que eu faça um Instagram todo dia para lhe perturbar, seu bosta, seu vagabundo, seu merda, seu esgoto, seu lixo, … Pau no cu, safado, chupão de ovo. Vai chupar o ovo de Haddad, seu pica… Resto de gala, você é resto de gala… Acho que você é assim, sabe por quê? Porque você não vale nada, seu pai lhe rejeita, sua mãe lhe rejeita, porque você no mínimo é viado, é um chupão de rola. Vive dando o rabo, aí, e um monte de cara comendo o seu cu, seu bosto, seu lixo, seu verme. Me processa, seu bosta. Eu moro em Orlando, na Flórida. Vem aqui, pra mim come seu cu aqui, aqui eu boto uma metralhadora na sua cara, seu merda, seu bosta. Sou cidadão americano, seu lixo…. No final vai acabar se drogando e eu acaba comendo seu cu, e você morrendo drogado, seu merda, seu drogado, seu fumador de crack, … Todo dia se prepare, viu? Se prepare que eu vou montar uma equipe pra fazer Instagram pra lhe defamar, seu bosta… Bosta, resto de gala, inseto, vagabundo, seu merda! Por trás de mim tem gente grande, você não pode não, seu merda. Você é um bostinha, um bostinha é o que você é… Você é um daqueles viadinhos que passa do dia todinho, postando coisa de Bolsonaro, fumando maconha, … Um vagabundo desse fica de quatro prum cabra come a bunda dele, você é um ridículo… Eu vou morrer agora? Vai, seu bosta, seu merda, …”

No diálogo postado por Sartori em suas redes sociais, o usuário é respondido com imagens de gado, animal tipicamente associado aos amantes mais ferrenhos do político. Muito provavelmente, as criações do deep faker não promovem o diálogo nas redes, mas muito menos deveriam promover ameaças a sua integridade física, como morte e estupro, ambos crimes previstos no código penal, sem falar na homofobia.

Ainda nos desdobramentos dessa ameaça, Sartori denuncia que seus dados pessoais (data de nascimento, endereço e até o telefone pessoal de sua mãe) foram compartilhados nas redes pelo mesmo grupo que o ameaçou anteriormente. Na ocasião, foi novamente agredido: “Aproveite bem essa quarentena, pois vou levar ele para o pau de arara // Se não respeitou o presidente, vai respeitar o Bico do meu coturno”. 

Diante desse desespero no linguajar e das atitudes cada vez mais alucinantes, é muito provável que o combate entre as narrativas se torne cada vez mais acirrado, para então, se revelar quem, de fato, é o palhaço nacional.

P.S.: Bolsonaro já divulgou em suas redes sociais, no dia 26 de fevereiro, um vídeo em que o palhaço Bozo (o ex-comediante Wanderley Tribeck) o elogia. Na gravação, Tribeck fala: “Bolsonaro, tenha orgulho quando te chamam de Bozo, porque estão te chamando de uma pessoa boa”.

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