Susan Sontag por Benjamin Moser

Começa um novo ano e ainda ao som de brindes e comemorações na sala de jantar – seja na voz de Rita Lee ou não -, a jornalista Eliane Brum lembra, logo, que “toda omissão é ação.” No seu último artigo do El País, intitulado “Os Cúmplices”, a articulista espeta mais fundo e afirma que “cada um de nós precisa se responsabilizar pelo horror do nosso tempo.”

Sua escrita é lembrete para os atos heroicos, sejam eles grandiosos ou pequenos, como aqueles do dia a dia. E foi assim, mesclando esses dois tipos de heroísmo, que agiu a intelectual Susan Sontag, em meio a Guerra da Bósnia [conflito armado que aconteceu entre 1992 e 1995] e em suas várias visitas ao país.

Mas como uma mulher, voltada para as letras e a academia, poderia se envolver em uma guerra? Justo Susan que “foi um símbolo da mulher intelectual”, como seu próprio biógrafo Benjamin Moser pontua. A norte-americana, que nasceu antes da Segunda Guerra Mundial e morreu depois do ataque às Torres Gêmeas, esteve sempre escrevendo e refletindo sobre seu tempo, a sua maneira, muito particular.

BOSNIA HERCEGOVINA

Susan Sontag e equipe na produção de peça na Bósnia (Foto: NY Books/ Paul Lowe/ Panos Pictures)

Afinal quem foi Susan Sontag? 

Sontag foi uma escritora, crítica de arte e ativista dos Estados Unidos, que viveu entre 1993 e 2004. Graduada em Harvard, a intelectual se destacou pela defesa dos direitos humanos e pelos seus inúmeros ensaios e livros. Entre eles, “Doença como metáfora/ Aids e suas metáforas” ou ainda “Sobre fotografia”.

É também “interessante entender a Susan a partir das mudanças [em escala global] que ela vivenciou”, inclusive da sua vida pessoal, onde “seu ex-marido ameaçou tirar a guarda de seu filho pelo fato de ser lésbica”, comenta Moser.

Por sorte, Sonatg também presenciou grandes mudanças – na maioria positivas – no mundo, conquistadas por determinados grupos em algumas partes do mundo. “Se debruçando sobre a vida dela, nós temos um alívio” que é até imediato em algumas questões, como explica seu biógrafo.

“A cultura” sempre foi aquilo, para Susan, “o que dá dignidade ao humano”, isso desde o começo da sua formação, quando a norte-americana se viu horrorizada diante de imagens de judeus – no limite da existência humana – um campo de concentração nazista.

É essa história que Moser, também biógrafo da escritora Clarice Lispector e historiador, traz em seu livro “Sontag”, editado pela Companhia das Letras, e comenta em debate que aconteceu na livraria Martins Fontes, em dezembro de 2019, com mediação da jornalista Francesca Angiolillo.

Nessa situação, “‘ela foi a primeira personalidade internacional a dizer publicamente que o que estava acontecendo na Bósnia, em 1993, era um genocídio’, disse Haris Pašović, um jovem diretor de teatro para.” É assim que Mosser registra a importância da passagem da intelectual pelo conflito em matéria pelo The New York Review of Books.

BOSNIA HERCEGOVINA

Susan Sontag com a companhia de peça na Bósnia (Foto: NY Books/ Paul Lowe/ Panos Pictures)

A inusitada ação na Guerra da Bósnia

Susan Sontag fez o impensável e, em meio a guerra, montou uma peça de teatro, em Sarajevo, capital da Bósnia. Mais especificamente, “Esperando Godot”, de Samuel Beckett, onde dois personagens somente esperam, esperam uma pessoa, que se chama Godot, em baixo de uma árvore. No entanto, a chegada deste terceiro, que parece imediata, é por algum motivo sempre adiada, o que não deixa de ser uma ótima metáfora para a própria vida e as angústias daquelas pessoas.

Já sobre a guerra, “todo o mundo, a televisão, estava contando o que acontecia, mas você que estava em Perdizes [bairro de São Paulo], o que poderia fazer? Você que estava em Paris? Em Tóquio?”, questiona Moser sobre a forma de ação de Sontag.

Isso porque a distância e o sentimento de impotência poderiam causar o efeito contrário, o de anestesia generalizada, o perigo de não fazer nada. Entretanto, Susan foi lá e montou uma peça de teatro. “Para uma cidade que era uma cebola, [aquilo] era um presente muito generoso”, comenta Moser.

“Não é uma coisa de salvar a pátria, foi só um gesto para dizer que essas pessoas não eram bárbaros, eram pessoas… Que gostavam de ir ao teatro,  que não eram essas caricaturas que a gente assistia na televisão. Ela achava que a cultura era algo pela qual valia a pena morrer, porque é a cultura que deu dignidade a vida humana.”

É preciso lembrar também que essas pessoas vinham sendo discriminadas, mortas, assassinadas, por questões raciais. Questões essas “que a gente julgava ter deixado para trás na Segunda Guerra, que achávamos ter progredido.” No entanto, esse grupo étnico estava, literalmente, “caindo de fome nas ruas”. Inclusive, “os pássaros [da cidade] tinham fugido. Não tinham mais pássaros, porque os pássaros podiam ir embora.”

Nessa realidade, “quando tudo é tirado de você, a coisa mais importante não é a cebola, o que você vai comer, é a ideia de que você é uma pessoa digna”. História sobre o qual Moser se estende por três capítulos, detalhando a viagem de Susan para Bósnia, ao lado da fotógrafa e companheira Annie Leibovitz e de seu filho.

Hoje, mais de vinte anos depois, uma importante praça da cidade leva o nome de Susan Sontag por este significativo (e até pequeno) ato heroico.

O intenso final dos anos 10

Como Moser já comentou, nós não iremos resolver todos os problemas, “mas podemos fazer algumas coisas para algumas pessoas.” E mesmo que estejamos em uma “situação em que as pessoas estão desesperados, achando que nada presta, você também têm a possibilidade de não desistir e ficar procurando o que você, sim, pode fazer.”

O entendimento dessas pequenas lutas é lembrado já na primeira página do livro, um trecho retirado de um diálogo do diário pessoal de Susan, que se passou no dia primeiro de novembro de 1964:

P: Você sempre tem êxito?

R: Sim, tenho êxito trinta por cento do tempo.

P: Então você não tem êxito sempre.

R: Sim. Ter êxito trinta por cento do tempo é sempre.

Isso vale para todos os que resistem, lista essa que não para de crescer diante dos últimos meses brasileiros. Como os bombeiros e pesquisadores que tentaram conter as chamas que consumiam a história do Brasil no incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em 2018.

Ou os brasileiros que se juntaram para tirar o petróleo das praias do país, depois do vazamento afetou toda a costa e do descaso, em 2019. Ou ainda dos povos da floresta, na Amazônia, que têm se juntado e resistido à séculos,  diante do desmatamento, do abandona e das queimadas.

 

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