Fragmentos do mundo por Rafael Carneiro

O que ainda é possível pintar? Fragmentos de um mundo em caos ou de um novo mundo, em gestação – a diferença que só depende dos olhos de quem vê. Testando os limites da realidade, o artista plástico Rafael Carneiro, de 34 anos, pinta a óleo, ao mesmo tempo que estilhaça as dimensões deste antigo mundo e o conecta a outras dimensões/realidades.

Paulistano, Rafael Carneiro teve duas exposições, em 2019, na convulsiva América do Sul, uma em Miraflores, no Peru, e outra em Montevidéu, no Uruguai. Em ambas e em sua trajetória, as obras de Carneiro consistem em uma série de pinturas e desenhos que vêm, por sua vez, de imagens já produzidas.

Na sua trajetória, Carneiro já se aproveitou de registros que vão desde a reprodução de espaços como armazéns industriais, recriados a partir de frames de filmagens feitos com câmeras de vigilância, até mesmo colagens compostas de recortes de revistas vintage e ilustrações de enciclopédias.

Representado pela Luciana Brito Galeria, o artista pinta a partir da recriação, da repetição ou mesmo do boicote do significado original dessas imagens, sempre com uma pitada de rebeldia. É um novo significado para os fragmentos da realidade, muito diferente, do que a escritora Susan Sontag definia como “arte” decorativa, construída a partir de falsos fragmentos e sem conexão com o presente, em entrevista para a revista Rolling Stones, em 1979, por Jonathan Cott.

Há fragmentos criados pelas mutilações da história, e temos que assumir que as palavras não foram escritas como fragmentos – elas se tornaram fragmentos porque o material se perdeu. Sinto que a Vênus de Milo nunca teria se tornado tão famosa se tivesse braços. Começou no século XVIII, quando as pessoas viram a beleza das ruínas.

Suponho que o amor pelos fragmentos tem primeiro a ver com certo sentido de páthos da história e com as devastações do tempo, porque o que aparecia para as pessoas na forma de fragmentos eram obras, cujas partes despencaram, foram perdidas ou destruídas. E agora, é claro, é possível e muito convincente que as pessoas criem obras na forma de fragmentos. Os fragmentos no mundo do pensamento ou da arte até parecem ruínas, como aquelas artificiais que os ricos colocavam em suas propriedades no século XVIII.

Prenúncio dos anos 20

Tirar um print com a tela do celular de uma foto que gostamos e não precisar da nossa memória para guardá-la, mas do armazenamento em nuvem, deveria parecer a mais antiga magia para os pagãos ou um milagre para os cristãos de qualquer era. Hoje, a humanidade tem acesso a mais informações, principalmente imagens, do que qualquer outro humano em épocas passadas do planeta, sejam elas artísticas, jornalísticas, comerciais, pornográficas ou memorialísticas.

Trabalhar com esse infinito acervo é que o pintor Rafael Carneiro se propõe a fazer em suas grandes telas, com dois metros ou mais cada. Mas é também ressignificando esses registros pelas pinturas e construindo novas camadas de leituras, como se aumentasse a polifonia do mundo. Como as enormes criações de Carneiro, enriquecidas com suas coleções de carimbos, tatuagens e enciclopédias.

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Em sua obra, Rafael Carneiro abre portais para a mesma realidade // Acervo Luciana Brito Galeria

Não há mais o que criar quando o assunto são formas e imagens. É como se Rafael e nossos contemporâneos, hoje, tivessem que explorar e testar os limites da representação, incluindo portais para diferentes pontos da realidade, num cubismo às avessas. Esticar tanto a realidade ao ponto dela própria se romper, vide também os exemplos não-artísticos das deepfakes [vídeos em que simulam pessoas falando ou agindo de forma muito real, com inteligência artificial].

Confira a seguir nossa conversa, por e-mail, com o artista Rafael Carneiro sobre seu processo criativo e suas inspirações, em maio deste ano.

A sua pintura tem por base imagens que já foram produzidas. De onde vem o desejo de reproduzir, a partir de tina óleo, imagens que já existiam, inclusive registros fotográficos? 

Ao transformar imagens que já existiam em pinturas, procuro uma espécie de limbo. Deslocadas de sua função original, elas operam sob outras regras, estão em outro reino linguístico, são feitas de outras substâncias. Me interessa as possibilidades que essa transformação me oferece, essa espécie de tradução. Em linguagem, os abismos, às vezes, se oferecem em operações mínimas, algo simples pode abrir uma fenda.

Uma mesma imagem impressa, de forma distinta, pode funcionar de maneira absolutamente diferente. Da mesma forma, se bem sucedida sua transformação em pintura pode obter resultados que não existiam na imagem original. Um frame de uma câmera de segurança de uma instituição nesse deslocamento ganha autonomia e possivelmente uma potência que sua função original, de certa forma, restringia. Isso é comum na história da arte, essa é em parte a lógica do ready-made duchampiano, mas também guarda parentesco com os mendigos fantasiados de deuses, de Velásquez.

Uma dificuldade curiosa é que uma vez fotografadas as pinturas se tornam ainda outro bicho. Podem ou não fazer sentido como pinturas, o fato é que não há garantia do que será transmitido. Na sua presença, procuro com que a tinta, o tecido e a forma como são pintadas forneçam uma sensação temporal, que por possuir essa presença, no tempo dilatado, elas se realizem nas diferentes distâncias em que serão observadas. Por isso também a sua escala grande.  Me interessa esse percurso escalar, entre o arquitetônico e o pequeno detalhe, o mínimo, os limites entre a áreas são fundamentais para que elas sejam muito diferentes de perto e de uma grande distância. A escala grande permite uma maior amplitude entre o muito grande e o muito pequeno.

Em suas pinturas mais recentes, de 2019, você traz para a tela uma sobreposição de imagens, na maioria das vezes dissonantes, que não integra um mesmo universo. De onde vem a ideia de pintar esses “rasgos” na realidade? Como se dá seu processo criativo?

Meus últimos trabalhos são sobreposições de imagens de diversas linguagens distintas, uma espécie de colagem, que procura articular diferentes campos produtores de imagem, onde as relações entres esses “rasgos” podem ser tanto de complemento como de pura obliteração ou sobreposição. Fazendo um paralelo é uma espécie de poesia visual formada por samplers. Eu tenho uma produção de desenhos e pinturas e coleciono diferentes tipos de imagens (carimbos, tatuagens, enciclopédias).

Inicialmente, eu procurava apenas deslocar uma imagem pré-existente para o campo da pintura, esse deslocamento, em si, satisfazia meus interesses e era “solucionado” na prática de pintar. Mas já, nesse primeiro momento, me via tentado em fazer alterações nas imagens originais, sobretudo apagando informações.

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Carneiro trabalha com uma polifonia de vozes e referências // Acervo Luciana Brito Galeria

Recentemente, comecei a juntar diferentes trechos de imagens numa só e numa série ainda mais recente trabalhando com impressão passei a também desenhar sobre as imagens para depois escanear a imagem resultante desses processos, tratá-la no computador, e depois pintá-la.

É possível traçar um paralelo entre suas últimas obras, com sobreposições de imagens dissonantes à realidade em que vivemos?

Certamente, esses trabalhos são uma tentativa de organização da imensa variedade e quantidade de imagens e narrativas que somos submetidos num contexto cada vez mais global. Mas são também por isso uma forma de sabotagem, de reorientação desse conteúdo que acaba muitas das vezes intencionalmente nos saturando, impondo hábitos, criando necessidades, controlando nossa capacidade de articulação e independência.

Como vê a realidade do país e as disputas pelas narrativas e pela nossa história?

É terrivelmente opressora a pobreza das narrativas que nos são impostas no plano nacional, mas é preciso perceber que isso também ocorre como uma agenda global. A complexidade das narrativas precisam, de maneira consistentemente violenta, ser reduzidas para que cada vez mais grupos, maiores de pessoas, possam consumi-las.

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Os quadros trazem referências que vão desde carimbos até imagens industriais // Acervo Luciana Brito Galeria

Se a propaganda, numa escala, procura uma precisão cada vez mais radical com relação ao indivíduo, em outra escala ela opera inteligentemente para reduzir a variação, e dessa forma possibilitar que esse esforço de onisciência se transforme numa coisa mais possível e eficiente.

As mercadorias dão a impressão de serem cada vez mais variadas, especializadas, mas a questão dessa riqueza de variações é como ela responde à necessidade cada vez maior da nossa consistência como consumidores e, para isso, a absorção de narrativas alternativas é sempre urgente. Seja a causa das minorias, a agricultura orgânica ou a cultura da maconha. 

Do ponto vista da narrativa política nacional, ela tem suas particularidades, nosso sistema capitalista convive ao mesmo tempo com processos de capitalismo avançado, além de ecos e estruturas de outras fases até mesmo pré-capitalistas. Apesar disso, esse empobrecimento narrativo segue o padrão de outras de partes do mundo.

Objetivamente, é apenas a consequência da propaganda algorítmica numa escala cada vez mais ampla. Não adianta termos uma posição num campo ideológico e imaginar que isso garanta soluções, se essa posição é empurrada para um lugar cada vez mais mediocrizado pela radicalização, não conceitual ou ideológica e, sim, linguística da prática da política. Essa é uma consequência da internet. Isso precisa ser compreendido urgentemente se pretendemos intervir nesse processo

 

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