Imaginando Sacys com Rudá K. Andrade

Ainda em tempo, agosto é o Mês do Folclore, época de se comemorar as lendas e mitos do imaginário popular. Tempo de resgatar a memória oral de nossa sociedade e nossas origens latino-americanas por meio de icônicos personagens, como o Curupira, a Mãe-D’água, o Pedro Malazartes, o Boitatá e o Saci-Pererê. À frente de uma dessas iniciativas, está Rudá K. Andrade, estudioso do tema e curador da exposição #OcupaSacy, em cartaz no Sesc Palladium (Belo Horizonte), até 08 de setembro.

Comumente conhecido por Saci-Pererê, os primeiros sacys eram escritos com “y”, como constam as mais antigas traduções da língua guarani para a portuguesa escrita. Foram também assim descritos muitas vezes por Monteiro Lobato, o escritor que, primeiro, publicou “Mitologia Brasílica – Inquérito sobre o Saci-Pererê” (1917), a partir de relatos feitos por leitores d’O Estado de S. Paulo. E depois retomou esse mito na obra infantil “O Saci” (1921) , como parte do Sítio do Picapau Amarelo.

Mas esses protetores da floresta e especialistas em traquinagens já foram representados de tantas maneiras, que suas verdadeiras origens se perderam em meio a fragilidade dos relatos orais. Contemporâneos ao Lobato, a artista plástica Tarsila do Amaral e o escultor Victor Brecheret, importantes símbolos do Movimento Modernista, também os retrataram, como mais tarde fizerem os quadrinistas Ziraldo, Angeli e muitos outros …  Foram inclusive cantados por Jorge Ben Jor, em “Sasaci Pererê” (1986).

No presente, Rudá K. Andrade, descendente direto do Movimento Modernista, neto dos célebres escritores Oswald de Andrade e Patrícia Galvão, a Pagú, propõe um reflorestamento de sacys no imaginário infantil com a exposição #OcupaSacy, em cartaz no Sesc Palladium, de Belo Horizonte.

A partir do livro “Inventário das 77 Espécies de Sacys”, a mostra inclui sacys indígenas, sacyas, quilombolas, velhos, crianças, antigos e contemporâneos, descobertas Brasil adentro, em uma ampla pesquisa oral, fugindo da sua tradicional personagem associada à escravidão.

Confira a seguir nossa conversa, por e-mail, com o curador Rudá K. Andrade sobre sua pesquisa do folclore brasileiro, mais especificamente, sobre os sacys.

A exposição apresenta uma figura folclórica, alternativa ao sacy de Monteiro Lobato, por sua vez muito associado à escravidão. Qual é a verdadeira origem dos sacys?

Diria que a procura pela origem de um mito é uma tarefa impossível. Digo, por ele ser cultivado dentro das tradições orais, o que nos impede de localizar sua fonte original. Assim, não existem registros de quem contou a primeira história. No entanto, é possível identificar algumas pistas sobre sua procedência. O nome sacy vem da língua guarani, ele tem ascendência indígena.

Segundo Câmara Cascudo, os primeiros registros escritos do mito provem do século XIX na região Sul do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Nestes países de colonização hispânica, encontram-se registros do Iaci-Iatere, como uma possível variação do nome Sacy-perere. Outros registros apontam o sacy como a ave Tapera naevia, que, com nomes diversos, habita da Argentina ao México e alimenta histórias e superstições marcadas pelo canto melancólico: sa-cy.

Sacys-Ocupacao-expo (3)

Ilustração do livro “Inventário das 77 Espécies de Sacys”

São inúmeras versões de histórias, em cada região um jeito particular. Não há uma forma única. O mito se nutre dessa diversidade e se transforma em novas possibilidades. Versátil, caminha pelo mundo, às vezes sob a dinâmica de quem conta um conto, aumenta um ponto, outras como um telefone-sem-fio. Com esta liberdade de imaginação se tece a rede oral que molda o sacy.

Já no universo caipira, o sacy encarna a personagem de um menino negro que lembra um menino de senzala. Suas histórias foram contadas de diversos tempos e lugares de fala, cada qual transparecendo uma visão de mundo. Dependendo do lugar, o discurso assume uma perspectiva de resistência, e em outros, cede espaço para o preconceito e se faz como um instrumento de opressão.

Lobato foi um homem do seu tempo. A sacyologia moderna precisa acompanhar as questões do presente. O mito, tecido pela oralidade, oferece a liberdade para a seleção dos valores e narrativas que queremos lembrar e contar para as próximas gerações. Isto é, aquilo que o sacy pode nos ensinar ainda nos dias atuais. Com a benção da imaginação, toda vez que se conta uma história de sacy, nasce um novo sacy. Assim se cria sacy. Por isso são muitos, cada pessoa imagina um sacyzinho que será diferente do que a outra vislumbrou.

A exposição no Sesc aborda a existência de 77 espécies de sacys, mas como chegaram até esse número? Qual bibliografia e fontes guiaram esse processo de resgate? 

Atrás do arco-íris de sete cores tem um sacy comendo pipoca. Deus criou o mundo em sete dias, quando criou o sacy, fez logo sete de uma vez. O sete é um número mágico. Representa a totalidade, o fim de um ciclo que anuncia o início de um novo período. Oferece significados simbólicos para diversas religiões e mitologias. São história que o povo conta ainda hoje. Por diversas vezes, ouvi os caipiras relacionarem os sacys com este número encantado.

As fontes que tecem as histórias do inventário provem da oralidade, dos causos e saberes populares. São narrativas que foram ouvidas e vivenciadas em diversas regiões e momentos da história revelando particularidades específicas em cada sacy.

O trabalho surge a partir de um documentário pela Estado de São Paulo e depois como uma exposição voltadas para crianças, mas o que ou quais valores a história dos sacys pode trazer para a sociedade?

Como diz Dona Rutn Guimarães no documentário Somos Todos Sacys, “o sacy é um mito explicativo do mundo. Ele explica determinadas coisas”. Os sacys podem nos ensinar muita coisa importante para os dias de hoje. O respeito pelo meio ambiente, a importância do brincar e da manutenção dos vínculos geracionais, por exemplo.

Traz ainda a valorização da imaginação, da solidariedade e da diversidade. Por meio da observação dos sacys podemos aprender história, literatura, geografia, cultura. Mas para chegarmos nesse conjunto de valores, é preciso olhar para o mito com olhos do presente. Ressignificar os sacys, trazendo para o hoje as potencialidades vivas ou adormecidas do mito. Contudo, um dos pontos centrais da figura dos sacys é sua luta por liberdade e resistência contra qualquer tipo de opressão.

Sacys-Ocupacao-expo (1)

Ilustração do livro “Inventário das 77 Espécies de Sacys”

Você se apresenta como um sacyólogo, certo? De onde o desejo de estudar os sacys?

Sacyologia é um termo que se refere àqueles que desenvolvem estudos sobre o universo dos sacys. Mas o que me levou ao mundo da sacyologia foram acontecimentos que vivi quando era pequeno. O desejo nasce na infância. Tinha uns cinco anos de idade quando vi os primeiros sacys.

Na época, ia caçar sapos com minha irmã mais velha que estudava biologia e me levava junto para o mato perto da casa de uma fazenda no interior de São Paulo para capturar pererecas. Lá no meio do mato escuro, foi que ouvi as primeiras risadas de sacys. Bastava a gente atolar o pé na lama que os sacys zombavam da nossa cara. Além disso, a curiosidade com o encantado sempre foi estimulada pelas histórias que ouvia dos mais velhos.

Anos mais tarde, em 2003, junto de outros amigos, nos aproximamos da Sosaci. Com sede em São Luiz do Paraitinga – SP, a Sociedade de Observadores de Sacis reúne um grupo de intelectuais, artistas e jornalistas preocupados com questões culturais e ambientais em nosso país. A partir desta vivência, descobrimos que podíamos pensar questões culturais e históricas de nosso país por meio do estudo sobre os sacys.

Esse foi o mote inicial que nos lançou à realização do Somos Todos Sacys, documentário que percorreu o interior do Estado de São Paulo, colhendo relatos sobre os sacys naquela época. Com o filme pronto começamos uma série de exibições por diversas cidades do Brasil. Destas ações nasceu o projeto de reflorestamento de sacys no imaginário brasileiro, onde exibíamos o documentário seguido de conversas com o público. Com este conjunto de ações, pudemos então contribuir com o aumento e dispersão de peraltas pelo mundo.

Como vê a mudança dos costumes e da cultura Brasileira nos últimos anos? Os sacys mudaram também nesses tempos?

Nunca antes cheguei a sentir o peso da história como sinto hoje. Digo, percebo as mudanças da cultura brasileira como parte de sua própria história, violenta e opressora, que construiu uma sociedade desigual e segregada. Uma história que tem a escravidão como traço fundante e motriz de nossa cultura. Sem nem termos conseguido como sociedade encarar de fato o peso dessa herança, essa história nos marca ainda hoje.

Contudo, os sacys também se movimentam por essa história. Na boca de uns, assumem discursos de resistência, de outros, falas de opressão. Apesar da maioria dos autores trazer esse espírito inquieto da criança, existem diferenças entre os sacys elaborados por Monteiro Lobato e os concebidos pelos autores atuais.

Por isso, a #OcupaSacy e o livro do inventário dos 77 sacys procuram trabalhar com questões sensíveis ao nosso presente. A importância da educação, a preocupação ecológica, a resistência à opressão, a diversidade cultural, o debate sobre gêneros, a ampliação das discussões sobre racismo, assim como a valorização dos povos que formaram o pais.

Sacys-Ocupacao-expo (2)

Ilustração do livro “Inventário das 77 Espécies de Sacys”

Além dos sacys, quais outras figuras merecem ser “redescobertas” na cultura brasileira?

Um mito se constitui a partir da articulação da memória coletiva em resposta às questões culturais e sociais enfrentadas em cada momento. Por meio de um processo seletivo do passado e da memória, o mito articula-se mediante os interesses dos grupos que as contam. Por isso, os mitos e lendas de um lugar, muitas vezes, contam simplesmente aquilo pelo qual determinado povo gosta de ser lembrado.

As boas histórias sempre nos ensinam algo novo, nos dão conselhos, fortalecem as pessoas para os desafios da vida. Desta forma, o Pedro Malazartes, figura tradicional que se traduz num andarilho que prega peças a quem encontra em seu caminho, pode nos indicar caminhos de enfrentamento contra a opressão do campo, a Iara nos faz lembrar da importância ecológica dos rios e nascentes, assim como o lobisomem caipira pode alertar sobre a questão opressora do machismo.

De qualquer forma, são tantas figuras e histórias que acho que todas podem ser redescobertas. Tudo de fato é uma questão de releitura desses mitos e histórias.

Há quase 100 anos da Semana de 22, como enxerga as mudanças pelas quais passaram a sociedade brasileira desde então? Os problemas e as questões apontados pelo movimento ainda são os mesmos dos nossos tempos?

Estamos em constante mudança sempre. No entanto, poucas vezes conseguimos ser sinceros com os fatos que formaram nossa sociedade. Isto é, a dificuldade de aceitar que a história brasileira tem a escravidão como legado maior e que, ainda hoje, modela nossa cultura, é uma amarra para que haja um desenvolvimento mais justo e igualitário da sociedade desse país.

A semana de 22 nasceu como uma contraposição ao passado. O modernismo, dentre outras preocupações, construiu um balanço crítico da história do pais que, cem anos antes da semana, havia sido declarado independente. Muitas das questões debatidas pelo modernismo ainda não foram resolvidas, outras avançaram. Certos pontos até foram esquecidos. Penso que devemos olhar o passado com o mesmo senso crítico que o modernismo procurava ter. Contudo, o avanço de forças conservadoras e a polarização da sociedade chegam a nos lembrar aquele tempo cheio de embates culturais que fora a década de 20.

A exposição #OcupaSacy conta também com ilustrações de Marcelo Bicalho, cenografia de Jefferson Duarte, coordenação educativa de Tatiana Fraga e produção de Larissa Alves (Fishead Produções) •

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s