El Hombre Latino por Radriguez

Resumo: Carlos Rodriguez, artista plástico mais conhecido como Radriguez (@radrigue5), propõe um novo imaginário para o homem latino, muito mais divertido, fora dos padrões e erótico. Com seu olhar burlesco, o  ilustrador e ceramista mexicano, de 38 anos, retrata corpos livres em busca do gozo da vida, longe do típico estereótipo sexy e dos músculos definidos.

Retratando o desejo e o nu masculino, seria possível um artista da Cidade do México ter na em São Paulo sua maior concentração de seguidores no Instagram, fora do seu país de origem? Para Radriguez e seus mais de 20 mil seguidores, sim. O pintor que vinha se aproximando do Brasil, por uma série de intercâmbios não oficiais, desbravou esse “jardim exuberante, tropical e sensual”, como ele mesmo pensava, ao desembarcar em São Paulo para a Parada do Orgulho LGBT de 2019.

E para quem estranha ou vê como no mínimo inusitada essa combinação entre México e Brasil, é preciso lembrar um pouco da nossa história, ….

…HISTÓRIAS

LATINO-AMERICANAS

“São Paulo, esta cidade onde já se falou tanto em castelhano, como em guarani, como em português durante séculos, sempre representou uma ponta de lança em direção ao encontro hispano-americano. Essa é a nossa origem regional brasileira”, discursava o doutor e poeta Horácio Costa, enquanto relembrava a história da capital paulista no IV Congresso da ABEH, em setembro de 2008.

No mesmo discurso, o professor Costa comenta o bilinguismo como uma prática comum durante anos na cidade de São Paulo, fruto do fator hispânico na sua formação cultural e étnica. Afinal tanto a colônia portuguesa quanto às colônias espanholas nas Américas foram ‘fundadas’ pela dupla de países católicos, Espanha e Portugal, que ainda hoje falam suas línguas irmãs.

E toda essa troca cultural só perdeu força com a independência das colônias, há menos de 250 anos. Mas essa menor troca cultural se deu muito mais no aspecto oficial dos países, o que nunca impediu intercâmbios extraoficiais.

UM ARTISTA,

MÚLTIPLAS PLATAFORMAS

Filho de professores de uma escola primária, Carlos Rodriguez viveu a infância entre materiais escolares [nessa época, ainda não artísticos], como pedaços de papelão e giz. E, ali, na pequena cidade de La Soledad, em San Luis Potosí, surgiram seus primeiro desenhos, casas e animais selvagens.

Pelos anos, os desenhos continuaram em sua vida, o que levaram Rodriguez a estudar design gráfico. Formado, como a maioria dos jovens gays, mudou-se para um grande centro urbano, a Cidade do México, em busca de um emprego, amores e aventuras, como contou ao jornalista Luis Baylón, do HuffPost México.

Já a carreira de artista só começou no verão de 2016, quando o publicitário Rodriguez foi demitido de seu emprego e passou a postar seus desenhos no Instagram @radrigue5. Os posts logo se tornaram populares e parte da comunidade gay, a  bear [conhecidos como ursos, por terem uma aparência mais bruta e pelos no corpo], passou a compartilhá-los como memes. 

Nas redes sociais, Radriguez teve que a aprender também a lidar com a censura pela qual passa representações do corpo masculino, como as covardes folhas de parreira tampando o sexo de estátuas gregas. O Instagram já fechou cinco contar do artista por considerar seus desenhos ofensivos, segundo os termos de uso.

A sorte do mexicano é ser versátil e não depender de nenhuma plataforma. Sim, Radriguez publica seus desenhos pelas redes sociais, mas também vende impressões para o mundo todo, tridimensionaliza suas imagens em cerâmica, produz pins [broches] e estampa camisetas e cuecas, repostadas infinitas vezes, inclusive em seu Tumblr pessoal.

REPOST: BRASIL

Entre suas viralizações na rede, Radriguez chega ao Brasil via newsletter NUsleDEr, do publicitário Rodrigo Turra (@hiphipturra), baseado em Amsterdã, e aqui viraliza ainda mais. A partir do e-mail recebido e muita pesquisa, Bebel Abreu (@bebelabreu), fundadora da Bebel Books, trouxe, em 2018, as primeiras impressões e uma zine do artista mexicano para comercializar no país.

Era o que faltava para estreitar de vez as relações entre artista e público. Em julho de 2019, no mês do Orgulho LGBTQIA+, Radriguez veio pela primeira vez ao país. Quando a loja multimarcas Cartel 011, em Pinheiros, expôs sua série inédita “O Jardim”, com curadoria de Bebel Abreu e 10 pinturas a óleo inspiradas no quadro “O Jardim das Delícias Terrenas(1503-1515), pintado por Hieronymus Bosch. Enquanto a loja de camisetas El Cabriton, na Rua Augusta, lançou uma coleção especial com o artista que teve seus icônicos desenhos estampados na fachada.

Confira a seguir nossa conversa, por e-mail, com o artista Radriguez sobre sua viagem ao Brasil e sua série de pinturas ‘O Jardim’.

De onde surgiu a ideia da série ‘O jardim’, inspirada na obra ‘O Jardim das Delícias Terrenas’, de Hieronymus Bosch? E por que trazê-las para o Brasil?

O trabalho de Bosco sempre me foi muito intrigante, em um sentido quase místico. Por outro lado, Bosco tem a habilidade de incluir quase infinitos personagens entregues a situações que são estranhas. Quando você olha de novo uma de suas cenas, sempre se pode encontrar algo novo. Para “O Jardim”, brinquei com a ideia de ampliar esses personagens e adaptá-los ao meu estilo. O Brasil é muito semelhante a esse lugar quase místico, é um jardim exuberante, tropical e sensual.

Foi sua primeira vez no país? Quais referências culturais você tinha?

Foi a minha primeira viagem para cá, mas conhecia músicas contemporâneas, como Noporn e Thiago Pethit, e alguns filmes, como Madame Satã. Além de artistas, como Tarsila do Amaral e Cândido Portinari, … Cartões postais do Rio e doce de banana. E,  por alguma razão, São Paulo é a segunda cidade do mundo com maior número de seguidores no meu Instagram [a primeira é Cidade do México].

Você também participou da Parada do Orgulho LGBT+, em São Paulo. Como foi sua experiência?

Foi muito emocionante, eu tinha ouvido sobre o quão grande era e sobre sua fama de ser uma festa insana. Nós [Carlos estava com seu companheiro, Gustavo] nos divertimos muito, mas esperava ver pessoas mostrando mais seus corpos, como no Carnaval. Para minha surpresa, todos estavam muito vestidos e meus amigos explicaram que devo ir ao Carnaval do Rio para ver essas cenas. Com muita diversidade e gente bonita de todas as cores, acabamos numa pequena festa de rua, fazendo amigos locais.

Aproveitando a sua experiência de vida, como você vê a questão de ser gay no México e agora no Brasil?

Muito é dito sobre situações de ordem política que podem ameaçar o que alcançamos em termos de visibilidade e direitos na última década. Mas, além disso, honestamente, dentro da comunidade há muitos sentimentos negativos uns contra os outros. Eu sinto que essa é uma questão global que precisa ser transformada, todos os dias enfrentamos machismo internalizado, racismo, classismo, fobias contra gordos, transfobias, etc., dentro de nosso próprio ambiente. A vida gay parece estar cheia de todas essas batalhas em qualquer lugar do mundo, o que faz a questão do VIVER O ORGULHO parecer algo falso.

As redes sociais são uma faca de dois gumes, por um lado, são um ótimo canal para compartilhar ideias e inspirar, mas elas também são o principal gatilho para que a pressão por padrões apareça e se destaque. A prioridade deve ser ajudar-nos realmente a nos curar e a deixar de lado as superficialidades. Temos que ter mais empatia, afinal estamos todos lutando por um mundo melhor.

Sobre o seu trabalho, por que retratar corpos considerados fora do “padrão”? E por que trazer nudez e erotismo para esses corpos?

Voltando ao que eu disse, usar o corpo nu em todas as suas possibilidades é uma escolha, que traz aceitação para nós e para todos os outros. Apreciar essas diferenças nos faz valorizar, entender e trabalhar nossa própria autenticidade. Também nos lembra o direito de nos expressarmos, todos os corpos têm esse direito de brincar e sentir prazer. Essa ideia para mim contém uma energia muito poderosa: sentir-se sexy e ser correspondido.

Eu não gosto de escrever o que eu faço como arte erótica, a arte em geral é repleta de nus desde o início da história. O impulso erótico é uma das muitas inspirações que se pode ter para criar uma obra de arte, como muitos artistas trabalham a partir de estados de melancolia e reflexão para se inspirarem. Para criar, eu gosto mais da ideia de algo vivo e cintilante como o desejo, o corpo e a nudez como eixos de criação.

Qual é a função do humor para a arte e para a vida? Você está procurando por isso no seu trabalho?

O humor sempre me ajudou a me conectar com as pessoas de uma maneira muito íntima, como se elas se tornassem meus cúmplices no que faço. Eu tento fazer o meu trabalho divertido para os outros, tanto quanto é para mim. Quando alguém vê um desenho ou uma peça de cerâmica, na verdade há algo meu exposto, da minha personalidade, seja a parte engraçada ou a parte sexy.

Para concluir, quais são suas grandes referências no universo das artes?

Eu cresci com os livros de pintura, onde sempre se vê Michelangelo, Picasso, Matisse, Rubens, etc., que eu obviamente gosto muito. Mas ao longo do caminho descobri outras vozes mais simples, outras maneiras de enriquecer o que eu faço, antigas ou contemporâneas vozes, fotografias, textos, músicas, … Eu, simplesmente, tento buscar inspirações em tudo o que vejo, leio, ouço e, acima de tudo, acredito. Tudo que tem a capacidade de tocar e transformar você merece ser chamado de ARTE

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