Como é ser gay em São Paulo?

RESUMO: O post reflete sobre os preparativos da cidade de São Paulo para a Parada do Orgulho LGBT+ 2019 e o envolvimento de empresas com as causas do respeito e da diversidade. Além de traçar um paralelo com a Parada de Vancouver, no Canadá, e discutir um pouco sobre a questão da segurança pública. 

Em 2016, escrevi um texto sobre como eu via, ou melhor, julgava ser a vida gay em Vancouver, no Canadá, a partir de minhas experiências no país. Estive por lá em junho, o mês do orgulho LGBTQI+, momento em que o centro da cidade se entregava a uma grande festa!

Lojas e estabelecimentos comerciais estavam especialmente decoradas para o mês com coleções específicas de produtos nas vitrines e prateleiras. Eram camisetas, calças, bonés, broches, bandanas, cadarços… Sempre estampadas com a bandeira do arco-íris.

A rua tradicionalmente gay da cidade, a Davie Street, fora especialmente decorada com placas e anúncios, além de ser o palco perfeito para muitas festas, encontros e conversas. Numa versão hardcore da Frei Caneca, as tradicionais faixas de pedestre da rua estão sempre pintadas com as cores do arco-íris.

Ali, o que sentia era a mais pura alegria e orgulho de ser quem se é num ambiente acolhedor, onde até o primeiro-ministro Justin Trudeau, com a família, participava da Pride Parade. Admito que tudo aquilo me deixou deslumbrado, muito deslumbrado, mas minha experiência se limitou à ferveção e aos símbolos de consumo que Vancouver exibia para a data.

Lógico, conheci também canadenses e imigrantes muito simpáticos a causa ou que eram, ao menos, a favor dela, por entenderem que enquanto respeitassem os direitos dos outros, os seus também seriam respeitados. E andando pelas ruas me perguntava: Será que um dia São Paulo seria assim?

Eu sei, temos a maior Parada do Orgulho LGBT+ do mundo com 3 milhões de participantes presentes em 2019, segundo estimativas da prefeitura! Desde junho de 1997, essa enorme festa acontece todo ano em plena Avenida Paulista, importante símbolo do país e palco de grandes manifestações nacionais. Essa marcha de corpos e sexualidades divergentes atravessa a Rua do Consolação até a Praça Roosevelt, no centro da cidade, exaltando a liberdade.

Mas e as marcas e empresas, onde estiveram esse tempo todo? Os símbolos da comunidade LGBTQI+ eram [e são] muito pouco apropriados. Sim, não acredito que o interesse das empresas no pink money [dinheiro da comunidade] seja algo absolutamente negativo, ainda mais se acompanhado de doações para projetos sociais específicos, como a Casa1.

Para um jovem em busca de identificação, um pacote de Doritos que apoia a diversidade é um símbolo tão importante quanto estudos acadêmicos sobre sexualidade ou teoria queer. Mas que fique bem claro: os dois são elementos fundamentais para a comunidade. Afinal toda ação deve proceder uma ideia.

Eis que em pleno 2019, o ano que aparentava ser o de retrocessos no campo dos direitos, o poder da diversidade ousou despontar. Como bem escreve o estudioso e jornalista João Silvério Trevisan, no livro Devassos no Paraíso:

“Se existe a escuridão opressiva ao nosso redor, nossa função é brilhar. Exatamente como os vaga-lumes, que só brilham se houver escuridão e são tanto mais vaga-lumes quanto mais escuro estiver o entorno. Talvez pareça estranho que sua luz precise das trevas para ser luz, como se “feita da matéria sobrevivente […] dos fantasmas”, no dizer do filósofo francês Georges Didi-Huberman. Mas aí exatamente se encontra aquela capacidade de renascer das cinzas, como fantasmas iluminados, que emitem sinais de liberdade na noite.”

E pelos vaga-lumes, entenda a comunidade LGBTQI+ que não para de construir, resistir e se reinventar. Ou não foi em 2019 que o STF considerou a LGBTIfobia como crime de racismo numa disputa judicial que começou em 2012 com importante participação do Doutor Paulo Iotti.

Questão que a ex-senadora Marta Suplicy já levantara na década de 90, quando apresentou o primeiro projeto de lei do país pelo casamento homoafetivo e uma PEC para proibir a discriminação motivada pela orientação sexual.

Diante desse contraditório cenário, marcas entenderam a importância de valorizar as sexualidades divergentes. Na última semana, a Avenida Paulista viveu uma festa – mesmo que tímida – de cores com  alguns prédios comerciais iluminados por imensos arcos-íris.

O CitiBank, o Hotel Meliã Paulista, o Conjunto Nacional celebraram a diversidade com suas luzes, junto com o Hotel Belas Artes nos arredores. Além de outros estabelecimentos que apostarem em bandeiras do arco-íris, como as lojas do Starbucks, as unidades do McDonald’s, o Urbe Café, a padaria Pão de Ló, a Livraria Cultura e inúmeros estabelecimentos da Rua Augusta e Frei Caneca.

Sem contar a Pablo Vittar estampando a campanha proud da Adidas e coleções especiais das marcas Levi’s, Natura, Diesel, C&A, Bob’s, Calvin Klein, Riachuelo (?), Absolut, Ben & Jerry’s, Renner, Nike, Itaú e a hashtag #pride no Instagram. Só lembrando que a maioria dessas marcas ainda são estrangeiras.

Além dessas empresas, haviam também os patrocinadores oficiais da Parada do Orgulho LGBT+ de 2019: Burger King, Amstel, Uber, Avon, Mercado Livre, Microsoft, Mac, Max Milhas, Philip Morris Brasil, Accor, Zendesk. Lembrando também que em 2018, foram apenas 8. Fora a divertida ação da Prefeitura de São Paulo, sob o comando do prefeito Bruno Covas [presente no evento], em alterar as imagens dos semáforos de pedestres para imagens de casais.

Pode ser que esse despertar tenha sido exclusivamente dos meus olhos, porque algumas dessas ações já aconteceram em anos anteriores, mas, nesse momento, se tornam mais significativas. E diante disso tudo milhões de pessoas foram às ruas da capital de São Paulo, dia 23 de junho de 2019, ocupar seu espaço com muitas cores, inclusive nas roupas.

Para além dos recortes de raça, gênero e econômico, esse sentimento de comunidade em larga escala é muito novo para o movimento LGBTQI+. Há 10 anos, era impensável a existência de um grupo tão amplo, de alcance nacional, como o das Mães pela Diversidade, presente na Parada. Formando redes de apoio desde 2014, a ONG busca compartilhar informações e prestar apoio para pais e familiares de jovens da comunidade, seja de maneira presencial ou online.

Hoje, são milhares de mães e pais apoiando publicamente seus filhos, antes era uma a grande referência nesse universo [em uma rápida reflexão], Lucinha Araújo, a eterna mãe do cantor Cazuza. Criadora da Sociedade Viva Cazuza, depois da morte do filho em 1990, Lucinha vem ajudando crianças e adolescentes soropositivos através de assistência à saúde, educação e lazer.

É impossível se esquecer também das indignações coletivas com casos extremos de homofobia, como o assassinato por homofobia de Plinio Henrique de Almeida Lima, em dezembro de 2018, na Avenida Brigadeiro Luis Antônio. Ou ainda o grupo que atacou Luís Alberto Betonio e seus amigos com bastões de lâmpada fluorescente, em novembro de 2010, na Avenida Paulista, nº 777. Só que essa violência foi ressignificada, em 2014, com a criação da Revolta da Lâmpada, coletivo que se manifesta pela liberdade dos corpos.

Como se vê, as existências LGBTQI+ ainda não são totalmente respeitadas, principalmente, quando o assunto é segurança pública, um problema generalizado para o país como um todo, mas ainda sim avançamos. Devagar… Avançamos muito ao registrar essa história. Como a Parada do Orgulho LGBT+ de 2019 que comemorou os 50 anos da Revolta de Stonewall,em Nova Iorque (EUA), importante marco para a comunidade.

Tudo começou quando um grupo de marginalizados, frequentadores do bar Stonewall Inn, no dia 28 de junho de 1969, fora severamente reprimido em uma operação policial. Treze indivíduos são detidos, mas se recusam a obedecer as ordens dos policias, o que tornou a repressão ainda mais violenta. Diante dessa cena, a multidão do bar se rebelou, desencadeando um grande movimento na comunidade gay de Nova Iorque, que até então se escondia, e foi às ruas protestar por seis dias consecutivos.

Essa revolta, a Revolta de Stonewall, mudou para sempre os rumos do movimento LGBTQI+, fato que até hoje esse ato de coragem é LEMBRADO e comemorado, inclusive em outro hemisfério.

Sei que é confortável ver São Paulo por esse recorte mais otimista e de possibilidades de mudança, mas tenho consciência de onde escrevo e do meu lugar de fala, que é de um homem branco, com nível universitário, classe média, empregado e morador da região central. E é a partir dessa vivência não universalizante que escrevo por esperança na nossa sociedade.

Para conhecer sobre outras vivências e resistências do universo LGBTQI+, recomendo o videoclipe Absolutas, da Linn da Quebrada com As Bahias e A Cozinha Mineira, patrocinado pela Absolut. E ainda a videorreportagem da Vice sobre o Helipa LGBT, o maior fluxo queer das periferias brasileiras. Ambos carregam uma visão bem mais prática da realidade. Let’s celebrate!

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Um comentário sobre “Como é ser gay em São Paulo?

  1. Gostei muito do vídeo do Põe na roda! Neste dia estive na Avenida Paulista, qta gente. Muita gente, empurra, empurra, música, alegria. Salete Campari,Kauara Lafitty,Karol della Lastra…Parabéns pelo trabalho! Sucesso.🙏👏👏👏

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