DA GUERRA ÀS CHAMADAS

Entre chamadas do IFood, do Rapi e do Uber, todos aplicativos de serviços, vive Talal Al-Tinawi, um refugiado sírio, de 45 anos, e engenheiro mecânico.

Com uma língua carregada de memórias, Talal está na correria, entre avenidas e ruas de São Paulo, para chegar a tempo com suas entregas. Se já houve um momento de tranquilidade, esse ficava em Damasco, capital da Síria, pela vida em que lá viveu até 2013, antes da guerra. Por aqui, seu último recanto é o sobrado em que mora com a esposa, Ghazal, e seus três filhos no bairro Campo Limpo.

Do lado de fora de seu sobrado, ainda da rua, é possível observar pelo portão vazado, o saldo de sua última empreitada, o restaurante Talal Culinária Síria, inaugurado em 2016 no Jardim das Acácias e fechado em abril de 2018. A garagem está ocupada por utensílios para a cozinha. São panelas, caixas de plásticos, um freezer e algumas estantes de metal, que por sua vez abrigam uma infinidade de copos, pratos e caixas menores. Buscando uma distância impossível desse passado recente, Talal repete como mantra: “Estou estudando para reconhecer meu diploma, não quero mais trabalhar com comida”.

UM PRESO POLÍTICO

Inspirada pela Primavera Árabe, em março de 2011, na Síria, manifestações pacíficas foram realizadas contra o governo de Bashar al-Assad, eram reivindicações pró-democracia e pelo Estado de Direito. Mas a resposta oficial foi o uso da violência e do exército para reprimir os manifestantes. A partir de então, a população, em massa, aderiu a causa e uma série de conflitos se iniciaram.

A oposição começara a se armar contra as forças de segurança nacional e esses rebeldes conseguiram tomar cidades e vilas. Aproveitando-se da fragilidade do momento, o estado islâmico inicia campanha pela conquista de importantes regiões no território sírio, aumentando ainda mais a instabilidade política. Segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos, em pesquisa de março de 2018, 353.900 mortes foram contabilizadas pelo conflito, incluindo a de 106 mil civis.

Envolvidos ou não no conflito, muitos sírios foram vítimas do governo. “Eu fiquei na prisão três meses e meio por causa do meu nome”, conta Talal de súbito. Em meio a uma viagem para Beirute, capital do Líbano, ele foi preso pela polícia da alfândega, que confundira seu nome com o de um outro Talal, esse um foragido. E nesse tempo de cárcere, um funcionário da prisão lhe avisou: “Se você sair, é melhor deixar a Síria. O Governo vai fazer o mesmo erro e você vai entrar de novo na prisão, mas a próxima vez vai ser pior”.

Foi nesse momento em que ele entendeu que seu país já não era mais seu. Morador de Damasco, região central, ali a vida “ainda era mais ou menos tranquila, era barata, fácil, simples”. Lá, a família Al-tinawi tinha um escritório de engenharia, uma loja de roupas para crianças, dois apartamentos e um carro. Na época, a esposa também não precisava trabalhar. “Todo dia eu trabalhava na parte da manhã no escritório e na parte da tarde na loja com os funcionários. Na sexta-feira, que aqui é o domingo de vocês, não trabalhava. Eu ia com minha família para um clube de engenheiros perto da minha casa”.

Tudo corria tranquilamente até a viagem à Beirute, quando a vida cosmopolita se esfarelou e Talal precisou encarar as questões internas de seus país. A instabilidade política se impôs, junto à prisão. “Pela situação complicada da guerra, o governo faz mesmo errado com você, então é melhor deixar a Síria”.

Na cela em que ficou “ninguém sabia sobre a pessoa lá dentro. Ninguém sabia de mim. Se a pessoa está viva, se morreu… Ninguém sabe nada”. E sem saber de nada sobre o marido, a esposa Ghazal não ficou sozinha em casa, e voltou com os filhos a morar com seus pais, durante os três meses e quinze dias em que o marido desapareceu e enquanto procurava entender o que acontecera. Mas o esposo só reconquistou mesmo a liberdade quando o mal-entendido dos nomes fora resolvido e ele libertado.

E assim que saiu da prisão, permaneceu em Damasco, por mais duas semanas, o tempo necessário para arrumar suas coisas e viajar para Beirute, em dezembro de 2013. Mais dez meses de espera até conseguir um visto de refúgio para o Brasil, uma viagem de 27 horas em um avião e cerca de cinco mil dólares no bolso. Foram Líbano, Catar, São Paulo e, por fim, Brás.

LINHA VERMELHA DO METRÔ

Quando chegaram a família só tinha um conhecido, de uma ligação e algumas referências, o sheik Rodrigo Rodrigues, da Mesquita do Pari, líder espiritual de religião muçulmana cujo o templo foi fundado em 2002, na rua Barão Ladário, do Brás. Foi ele quem aguardou a família Al-tinawi no Aeroporto de Guarulhos e os recebeu em sua casa por três meses. Além do conforto espiritual, foi por meio da mesquita e da ONG Adus que eles conseguiram alugar um apartamento, encontrar um trabalho e cadastrar os filhos na escola, num país completamente desconhecido, a não ser pelos estereótipos.

Talal tenta lembrar o que conhecia do país antes de chegar. Mas não soube falar mais do que os tradicionais símbolos do país, como futebol, café, Amazônia, Rio de Janeiro e São Paulo. Tudo porque o motivo de ter escolhido essa pátria fora muito mais simples, “só o Brasil abre as portas para os sírios viajar sem documentos. Nos outros países está fechado. Para mim, é muito difícil viajar para outro país, mas só aqui consegui visto com toda minha família”. Para fugir, as portas da Europa e dos Estados Unidos estavam fechados, se não fosse aqui, teria que ser a Turquia, o Líbano ou a Jordânia, países mais próximos e com questões políticas similares.

Com os hábitos e a cultura muito diferentes do Brasil, Talal precisou antes de mais nada aprender português, matéria a qual se dedicou por cerca de sete meses e parou quando precisou se dedicar integralmente ao trabalho. Primeiro, foi comprar e vender roupas na Feira da Madrugada, no Brás, construída em 2005. Depois, mesmo sem ter o diploma de engenheiro reconhecido, conseguiu um emprego na área numa empresa familiar do bairro Santa Cecília. “Eu trabalhei lá dez meses, mas quando a economia do Brasil ficou ruim, a empresa fechou”. Só então, com a sugestão de um conhecido, percebeu que poderia viver de sua cultura por meio da culinária.

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Restaurante Talal Culinária Síria // Crédito: Facebook Talal Al-Tinawi

FOLHAS DE UVA

Em linhas gerais, “eu comecei a trabalhar com comida, em janeiro de 2015, em casa, depois, consegui abrir um restaurante. Depois, eu fechei o restaurante e voltei a trabalhar em casa e com os aplicativos”. Mas antes de concluir uma história ainda em aberta, a história de sua vida, muita coisa aconteceu com Talal que aprendeu menino a cozinhar, aos dez anos com a ajuda de sua mãe Zubaida. “Eram pratos simples, como arroz sírio, chacrie – um pedaço de carne com coalhada – , arroz com berinjela, carne assada, charuto. Mas charuto com folha de uva que é mais fácil do que com repolho”, recorda.

Mesmo conhecendo as delícias da comida árabe, era sua Ghazal que cozinhava para a família e que atualmente o ajuda nas encomendas. Lá, “em restaurante, a maioria são homens. Em lojas, a maioria são homens. A mulher é só em casa. Em casa, são poucos homens que cozinham para a família”, exceção que Talal costumava praticar com gosto. Mas, aqui, seria algo estritamente comercial.

Quando começou era tudo muito simples, refeições sírias feitas por encomenda em sua casa. Com relativo sucesso, a imprensa também começou a se interessar pelos seus negócios e vieram um sem número de entrevistas para TV, rádio e internet, coisa que ainda faz. E todos lhe incentivavam a abrir um restaurante. Sem capital para iniciar o empreendimento, empreendimento esse de um refugiado, fez uma campanha de financiamento coletivo no Kickante, onde conseguiu 837 apoiadores e 71.405,67 reais, depois de dois anos de Brasil e uma legião de fãs no Facebook.

O valor era mais que a meta inicial e foi alcançado por um conjunto de fatores. A qualidade de seus pratos e por sua popularidade nas redes sociais, 13 mil likes em sua página e cerca de cinco mil amigos no Facebook, além de presença marcada em eventos de nicho, como a Festa do Imigrante, o Bazar da Adus e alguns cursos de culinária síria. Assim, em 2016, o restaurante Talal Cozinha Síria ganhou formas e fama no bairro Jardim das Acácias.

No novo negócio algumas coisas precisaram ser feitas, como a pintura das paredes de um amarelo forte, e outros repensadas, como algumas adaptações dos pratos à moda brasileira. “Eu mudei algumas coisas no sabor da minha comida para atender melhor os brasileiros. O brasileiro não gosta de comida como coalhada, porque ele acha que é um doce, por exemplo”. Além de alguns problemas, como questões legais com o Governo. Como microempreendedor, Talal encontrou inúmeras dificuldades para legalizar seu negócio. Ele comenta que sempre faltava um documento para oficializar tudo, mas que só percebiam isso quando estavam em frente dele e dos outros documentos solicitados anteriormente.

“Quando eu abri o restaurante, eu fiz muitas coisas erradas, porque eu não sei como funciona as leis aqui do Brasil. Por isso eu perdi dinheiro, tempo e cliente”, lamenta Talal sobre o ramo culinário que resolveu investir. E conclui que: “Ganhei muito, mas gastei mais. Por isso o melhor era fechar, então eu fechei”. E fechado está, mas não legalmente. “Estou tentando resolver isso. Esse problema do governo, ele precisa ajudar. Não precisa só receber o refugiado e depois deixar. É um país novo para nós. Não podemos só trabalhar com ONGs, elas não podem ajudar sempre, eles não sabem”.

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Talal em momento de descontração  // Crédito: Facebook Talal Al-Tinawi

UM MAR DE INCERTEZAS

A cultura brasileira nunca incomodou Talal, “para mim conhecer outra cultura não tem choque, porque eu viajei antes. Eu vi os Estados Unidos, Espanha, França, Turquia” e sabia como era o ocidente, mas sua grande dificuldade é lidar com as incertezas do Brasil, enquanto país, com suas crises políticas e econômicas. Em seu país, a libra síria se desvalorizou muito frente ao dólar, mas o real se desvalorizou muito mais, sendo que aqui nem guerra houve, o que o espanta e muito.

Questionado sobre ir para outro país, como muita sinceridade e preocupação Talal responde: “Outro país não quero. Brasil ou Síria. Quando eu vim para cá, eu comecei do zero. Se eu for para outro país, eu vou começar do zero outra vez e eu não quero voltar para o zero. Para a Síria não seria de zero, porque, lá, eu tenho apartamento, escritório de engenharia, loja. Tenho mais ou menos cinquenta por cento de meu trabalho. Então, lá, eu não preciso começar do zero. Brasil ou Síria”.

Mesmo que seja possível esse retorno a Síria, agora com a guerra reduzida e a retomada do controle por parte do governo, ele não pode voltar por causa de seus filhos. Hoje, eles estudam e aprendem português, “podem ler e escrever em árabe, mas para falar é difícil”. Talal diz ter que esperar pelo menos a formatura de seu filho no terceiro ano do ensino médio.

Até porque se retornarem depois de concluído a educação básica, é mais fácil acompanhar a universidade em outra língua do que a escola, como Talal fez ao estudar engenharia em inglês, invés do árabe. “Se em dois anos as coisas estiverem ruins como agora, precisamos voltar. Se estiverem melhor, eu vou ficar. Mas ninguém sabe como as coisas vão ficar. Não sei como funciona e não quero pensar sobre isso”, ri Talal.

Mas enquanto conversávamos, a entrevista é interrompida pela campainha. Era o carteiro com um pacote. “Agora, eu recebi o RG da minha filha. Agora, ela é brasileira. Já tenho uma menina que nasceu aqui, outra menina que, hoje, fica brasileira e meu filho que em 2020 vai ficar brasileiro”, sorri mais uma vez Talal, a espera de sua naturalização, mas com uma outra expressão.

Sugestão para escutar e conhecer: a música “Ya Baie”, de Najwa Karam.

* Matéria originalmente publicado em dezembro de 2018, no livro “Sabores da minha Terra”.

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