África é Logo Aqui – Cleyton Mendes

O que significa não conhecer suas raízes? E não saber o nome de seus antepassados? Determinados brasileiros nunca pensaram a fundo sobre essa questão, como os descendentes dos colonos europeus que com um pouco de dedicação traçam sua linhagem até o antigo continente. O mesmo acontece com os asiáticos que valorizam e honram sistematicamente seus antepassados. Inclua nessa lista também os árabes e os judeus que para cá migraram, fruto dos incontáveis conflitos de suas regiões. De alguma forma,  suas histórias e linhagens estão preservadas.

Mas para, pelo menos, 54,9% da população brasileira conhecer seus antepassados pode ser um problema sem solução. Essa porcentagem equivale aos 112,7 milhões de brasileiros autodeclarados pardos e pretos, segundo a PNAD Contínua de 2016 do IBGE. Sistematicamente, ao longo da história, os governos brasileiros e portugueses apagaram as origens dos povos negros, escravizados. Separados de seus familiares e misturados entre eles, sem se quer falarem uma língua em comum, a história dessas pessoas, muito baseadas na oralidade, acabaram se perdendo.

Para além das violências físicas, como a chibata e o tronco, as violências simbólicas culminaram num apagamento proposital e institucionalizado. Incluindo fogueiras que “foram acesas pelo menos no Rio de Janeiro e na Bahia para queimar e destruir milhares de papéis sobre importação de escravos”. Fatos que dificultam ainda mais o rastreamento de suas raízes.

 

Quer dizer, não totalmente, porque o povo brasileiro e, em questão, os descendentes de africanos buscam formas de re-existirem suas histórias. É o caso do poeta e comunicador social Cleyton Mendes, de 27 anos, morador da Zona Leste de São Paulo. Funcionário dos correios em horário comercial, Cleyton acredita no poder da Arte e distribui poesias junto às correspondências para, como ele mesmo diz, “adoçar um pouco a rotina”.

Em processo de captação de recursos via Catarse, o escritor Mendes publicará seu quarto livro África é Logo Aqui. Nele, o autor explora justamente a questão das origens e, se não é possível chegar ao lugar exato, ele viaja para Moçambique, no sudoeste africano. Lá, o poeta paulistano se aproxima de seus ancestrais que “estão vivos dentro de nós, e se manifestam através de uma poesia, através da dança, através da musica, entre outras formas de se expressar, eles não foram, eles são e serão parte de nós”.

Confira a seguir nossa conversa, por e-mail, com o poeta Cleyton Mendes sobre sua viagem para Moçambique e seu novo livro “África é Logo Aqui”.

De onde veio a ideia de ir para Moçambique e descobrir toda essa vivência cultural que originou o livro?

A ideia de ir pra Moçambique surgiu antes mesmo de eu tirar o passaporte, antes de eu comprar as passagens; Era uma ideia que já gritava alto dentro de mim desde bem cedo.

Pouco se fala sobre África, pouco se fala sobre o continente que é a base do mundo, e essa falta informação sobre África alimentou dentro de mim a vontade de conhecer o outro lado do atlântico. Moçambique foi o país escolhido nessa primeira travessia, pois tem a proximidade do idioma, eles também falam português e, na época, não tinha o inglês nem o francês fluente.

Um outro fator, foi o cenário literário. Sou fã de inúmeros escritores e escritoras moçambicanos. E o principal, as pessoas que entrei em contato pela internet, em busca de hospedagem, foram super acolhedoras mesmo sem nem me conhecerem.

Mas qual é a imagem que você acredita terem as pessoas sobre África? O que é preciso desmistificar?

A primeira coisa que quero desmitificar é essa ideia de que África é pobre, África não é pobre, África foi roubada, são coisas diferentes. Associar África somente às savanas também é algo bem comum por aqui, no livro também desmistifico isso.

Dentre todos os aprendizados no país, qual deles você ressaltaria?

Khanimambo, Khanimambo é uma palavra em Changana (um dos idiomas falados em Moçambique) e significa obrigado, gratidão;  Em Moçambique essas palavras foram ressignificadas pra mim, “mesmo que não tenhas muito, agradeça pelo o que tem”.

Quando você escreve sobre a viagem no Catarse, fala que foi uma imersão ancestral. Isso se refere aos seus antepassados? Quem é seu antepassado mais distante que se tem notícia?

Se você é brasileiro e conhece seu bisavô, seu tataravô com certeza você é uma pessoa branca, de antepassados europeus. A população preta nesse país teve a história incendiada literalmente. O antepassado mais antigo que tenho conhecimento é meu avô, antes dele eu não sei nada.

Qual é sua relação com essas memórias? Ou essa não é uma questão dentro da sua poesia?

É necessário conhecer os antepassados, pra saber quem si é hoje, e mesmo não tendo conhecimento através de documentos, esses ancestrais estão vivos dentro de nós, e se manifestam através de uma poesia, através da dança, através da musica, entre outras formas de se expressar, eles não foram, eles são e serão parte de nós.

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Poeta Cleyton na final do Slam Sujeira 2018 // Crédito: Facebook Slam Sujeira

Além de “África é Logo Aqui”, quais outros três livros você indicaria para quem busca conhecer e entender Moçambique?

Escritora e Poeta Paulina é a primeira mulher romancista moçambicana, nesse livro em especifico ela narra o conflito e os traumas que a ideia de supremacia branca causou/causa na mente dos moçambicanos. Vale ressaltar que Paulina Nasceu em 1955, período em que Moçambique ainda era colônia de Portugal, então ela tem muita propriedade pra falar dessa transição e desses conflitos.

Craveirinha é um romancista e um poeta com vários livros consagrados, muito importante na luta pró independência de Moçambique. Além do livro, Xigubo é o nome de uma dança que os guerreiros faziam para se preparar para a guerra, a partir daí dá pra se ter uma ideia da potencia dos poemas reunidos nesse livro.

Nesse livro, Manuel conta a história de um jovem morador de um vilarejo que se muda pra capital em busca de trabalho e realizar os sonhos. O jovem com muitas pessoas do interior não falam português, então ele enfrenta uma barreira linguística e social dentro do próprio país, e não bastasse tudo isso, quando ele esta começando a se adaptar com  o novo mundo, o presidente aprova a lei do “renascimento moçambicano”. Uma lei que muda do dia pra noite o idioma oficial do país do português para o inglês. Pensa na bagunça que virou a vida desse personagem.

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