VOLTA DAS SOMBRAS: LORD BYRON REEDITADO

São tempos estranhos em vivemos com notícias falsas ganhando status de verdade, deterioração das condições de trabalho, minorias sendo atacadas, crescimento dos fundamentalismos religiosos, … Tempos também em que a grande aposta da Netflix é a série teen O Mundo Sombrio de Sabrina, seriado sobre uma jovem metade bruxa, metade humana, que se vê envolta numa trama emancipatória, repleta de ocultismo e satanismo. E tempos em que a obra Caim, de Lord Byron, é reeditada e voltará para as livrarias 130 anos depois de sua primeira e única edição no país.

Publicada em 1821 na Inglaterra, o drama épico Caim é uma releitura livre da relação bíblica entre Caim e Abel, os filhos de Eva e Adão. Nascidos após os pais serem expulsos do Paraíso, eles sempre disputaram e brigaram entre si, até o dia em que Caim soube da preferência de Deus por seu irmão mais novo.

Dominado pela inveja, Caim assassina seu irmão. As últimas 24 horas de vida de Abel são então reconstituídas pelo poeta  ultrarromântico, boêmio e libertino em grande parte por meio de diálogos, como as conversas entre Caim e Lúcifer que questionam, inclusive, os atos de Deus.

Em processo de captação de recursos via Catarse, o livro Caim: Um Mistério, de Lord Byron, será relançado pela Editora e Sebo Clepsidra, sob a direção de Cid Vale Ferreira. Ferreira é editor formado em Letras pela USP e já esteve à frente de projetos, como Sépia Zine e do site Carcasse. Desde 2016, fundou a editora, cujo nome alude ao livro de poemas do simbolista português Camilo Pessanha, com dois amigos.

Confira a seguir nossa conversa, por e-mail, com Ferreira sobre a reedição de Caim: Um Mistério, de Lord Byron.

No Brasil, a primeira edição do livro foi publicada em 1889. Ela foi a primeira e única?

Sim, a única publicação de uma tradução de Caim no Brasil, de que eu tenha conhecimento, é essa de 1889. Trata-se do livro Dramas de Byron que inclui também Manfredo e Céu e Terra [outros títulos do autor]. O prefácio dessa obra traz a data de 1870, mas foi publicada postumamente, na Bahia, pelo filho do tradutor Antônio Franco da Costa Meirelles, em 1889.

Como foi o processo de restauro dessa primeira publicação? Há também imagens históricas nessa reedição?

Localizei a obra na seção de raros de uma biblioteca e fotografei-a página por página. Faltavam, porém, algumas folhas. Consegui encontrar outra reprodução do livro com as poucas partes que faltavam em uma biblioteca fora do estado. As bibliotecárias de lá, gentilmente, as fotografaram para mim. Enviei esse material para digitação, atualização ortográfica e revisão. Depois, prossegui com a edição do texto resultante desse processo e cotejei [ato de comparar versões de um texto] essa versão editada com a primeira edição.

Incluí em nossa edição também uma nova tradução do prefácio original do Byron, de 1821, e selecionei ilustrações de duas obras da década de 1850, uma estadunidense e outra francesa, tomando cuidado para usar imagens que não divergissem em estilo.

Nesse processo, você chegou até relatos sobre como a tradução foi recebida na época pelo público letrado? Ou como a segunda geração do romantismo era vista, afinal Byron era uma de suas importantes inspirações?

Não encontrei registros da recepção da tradução na época de seu lançamento, mas a pesquisadora Onédia Célia de Carvalho Barboza a incluiu em seu levantamento Byron no Brasil: Traduções (1974), considerando-a uma “prosa agradável e quase poética”.

Por sua vez, a segunda geração romântica do Romantismo brasileiro é amplamente estudada, e sua imagem gerava reações bastante polarizadas. Por um lado, grandes poetas como Álvares de Azevedo, Fagundes Varela e Castro Alves viam em Byron um homem complexo que representava a ânsia por liberdade, a rebeldia perante toda forma de tirania, a ousadia sexual que desafiava a moral, o cultivo de paixões escaldantes e a atração pela Europa mediterrânea, pelo oriente e pelo macabro. Em suma, o poeta era tido como um modernizador das letras.

Sacrificio di Caino e Abele, Giorgio Vasari

Sacrifício de Caim e Abel por Giorgio Vasari // Crédito: Wikipédia

Havia também alguns críticos, como Macedo Soares, que consideravam um tanto perniciosa a influência do poeta sobre nossos jovens, apontando como bastante questionável a “anarquia moral” que esses entusiastas de Byron supostamente promoviam.

Atualmente, o estereótipo de poeta romântico da segunda geração é o do ultrarromântico melancólico e de saúde frágil. Mas, na verdade, havia também muita vida e irreverência entre os jovens que promoviam noitadas cheias de improviso com a poesia bestialógica ou pantagruélica.

Sobre o livro, qual é seu enredo e o que ele traz de tão polêmico?

Ao tratar de um tema bíblico, Byron sabia que estaria sujeito a reações inflamadas, mas isso não o impediu de expressar todos os seus questionamentos a respeito do Deus presente no Velho Testamento. Seu poema dramático aborda os acontecimentos nas cerca de 24 horas que antecedem o trágico confronto entre Caim e Abel, concentrando-se na relação que Caim estabelece com Lúcifer.

O anjo caído [Lúcifer], o “primeiro rebelde”, aborda o “primeiro assassino” como um guia espiritual disposto a iniciá-lo nos mistérios da vida e da morte. Nos diálogos entre os dois, o poeta elabora discursos dignos dessas duas personagens, explorando o ressentimento de um pela expulsão do Paraíso e o inconformismo do outro pela severidade da punição de sua mãe e de toda a vida mundana devido ao pecado original. Questionamentos sobre a bondade de Jeová, sobre sua coerência, sobre a possibilidade de a divindade já ter criado e destruído a vida na Terra em outras eras, e especialmente sobre a eficiência da futura vinda de Cristo fizeram o poema ser censurado, boicotado e atacado violentamente em seu tempo.

Em vez de analisarem se as falas condiziam com a natureza das personagens, os críticos da época viam o poema dramático como um palanque no qual Byron teria exposto sua visão particular de mundo, por mais que o poeta tentasse relembrá-los da diferença entre atribuir uma fala a um personagem e escrever aquelas falas como se fossem suas afirmações pessoais. Os momentos mais ímpios e blasfemos da obra, portanto, foram repetidas vezes usados contra o autor, como se Byron quisesse levar o público a aderir às causas luciferianas, sem que o contexto fosse levado em conta.

E por que reeditar esse poema épico de Byron? Qual a relevância da obra na atualidade?

Caim é uma das obras mais extremas de um dos maiores poetas de todos os tempos, com reflexões filosóficas e religiosas que revelam muito do espírito de sua época. Sua ausência nas livrarias de qualquer país seria lastimável, o que fica ainda pior em nosso país se levarmos em conta a importância de Byron como referência temática e estética na história da nossa poesia.

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Adão e Eva depois da expulsão do Paraíso por David Teniers, o Jovem // Crédito Wikipédia

A obra lida com a mitologia do livro de Gênesis, que faz parte do conjunto de escrituras que ainda são consideradas sagradas pela maioria de nossa população, e, portanto, continua pertinente como crítica, como reflexão e como objeto de fruição e estudo.

Qual era o espírito de época em Byron escreveu sua obra e viveu?

Byron viveu um momento de grandes transformações, no qual a Europa se dividia entre a esperança e a frustração com o avanço napoleônico e com a promessa de progresso da Revolução Industrial.

Em um dos seus únicos discursos na Câmara dos Lordes, o poeta defendeu com veemência os trabalhadores que sabotavam o maquinário das fábricas [movimento ludista] contra a exploração de sua mão de obra, mas ao mesmo tempo exaltava o “homem século” que guiava o país que conquistou a Democracia sem imaginar que estava apoiando a criação de um Império sanguinário que pretendia expandir as fronteiras da França a qualquer custo.

No terreno privado, a constatação de que suas experiências sexuais poderiam condená-lo à morte na Inglaterra (razão pela qual ele se autoexilou), somado à dificuldade de ser aceito em outros países (na fronteira francesa, chamaram-no de “Vossa Satânica Majestade” ao recusar sua admissão no país, por exemplo), fez com que esse barão londrino dedicasse seus últimos anos à luta contra toda forma de tirania da forma mais direta possível: contratando um exército mercenário em prol da libertação da Grécia do domínio turco.

Foi nessa campanha que Byron morreu, após convulsionar em seu acampamento e ser tratado com sangrias num momento de profunda debilidade. Toda essa angústia transparece de forma vívida em suas obras e nos dá uma ideia dos perigos de baixarmos a guarda para o moralismo, o autoritarismo e a exploração irrestrita do trabalhador.

Hoje também vivemos tempos de desilusão? Qual a sua leitura para esses tempos?

Certamente! As tecnologias que poderiam universalizar a informação hoje transbordam de mentiras e falsas notícias, as discussões que poderiam estimular empatia pelas minorias são constantemente rechaçadas com cargas cada vez mais odiosas de preconceito, as condições de trabalho só se deterioram, enquanto multidões aplaudem a destruição de seu próprio país. Para piorar, enquanto isso acontece, educação, ciência e cultura são vistas como algo perigoso que deve ser boicotado em prol de um obscurantismo servil. Tristes tempos!

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