DAS HIPERCONEXÕES AO BRÁS

Resumo: A história de vida de uma menina coreana que chegou ao Brasil sem entender nada do português e que, por isso mesmo, foi motivo de piada na escola, mas sempre encontrou apoio na família, na comunidade e na religião. Hoje, vivendo há 14 anos no país, formou-se em jornalismo e atua na área da comunicação.  

“Quando entro em casa, é uma família coreana, que fala coreano e come comida coreana”, brinca Aria P., de 22 anos, moradora da pequena Coréia do Sul da Vila Guilherme, em São Paulo. Nascida em Seul, a mulher de óculos arredondados e de riso fácil, mudou-se para o bairro do Brás com oito anos, acompanhada dos pais, e conversa sobre sua história recente sem ressentimentos daquilo que passou até se adaptar ao território brasileiro.

O apartamento é um lembrete da sua cultura com a televisão sempre ligada em uma novela ou no jornal TVN, ambos daquele lado do mundo. Há também na sala uma mesa com tecido que mistura as tradicionais cores vermelha, azul e amarela, um armário esverdeado, o cantinho de maquiagem de sua mãe Sun Ok Lee e uma das três geladeiras da família. Essa foi a que não coube na cozinha, por conta do pequeno espaço, mas guarda o kimchi, uma das bases da culinária coreana, que é uma pasta feita de vegetais em salmoura, farinha de arroz, açúcar e vários temperos. Além dos cogumelos que só encontra em mercados especiais, aqueles do bairro da Liberdade.

 

 

O que também não a deixa esquecer as origens são as constantes e incessantes conversas, tanto com amigos quanto com familiares, digitadas pelo smartphone de maneira rápida com emojis fofos e palavras em hangeul, o alfabeto de 18 consoantes e 21 vogais. Ah! Sim, com os amigos daqui, Aria os respeita e até escreve em português, mas não entende o porquê das pessoas ficarem perplexas diante do seu complexo teclado: “É fácil de aprender” e ri mais um pouco.

AS PRIMEIRAS LIÇÕES

Sem entender e falar uma palavra em português, a pequena In Young P. entrou numa sala de aula da escola católica Santa Terezinha, cheia de brasileiros e de preconceitos. Diferente das outras crianças coreanas que iam para escolas coreanas, ela estava sozinha, naquela que foi “uma experiência horrível”. No primeiro dia, a professora escreveu seu nome na lousa e a fez copiá-lo durante toda a aula, sem nem entender o que significava. Foi um outro menino, de descendência coreana, mas que só falava português, a quem coube explicá-la o que era aquilo, por meio de gestos.

Sem compreender muito as coisas, In era uma criança isolada e a vítima de bullying. Uma das meninas a achava meio engraçada e, por isso, brincava de enfiar o lápis em sua bochecha. “Como eu não sabia falar nada e nem sabia brigar, ficavam dando risada”, enquanto os outros também riam dela.

Mesmo nunca tendo ficado de recuperação, as únicas coisas que ela de fato entendia ali, era das atividades de inglês e matemática, lições que já tinha aprendido há muito tempo na escola de Seul. Para aprender de fato o português, precisou frequentar aulas particulares com outro professor. E isso ela aprendeu bem, em sua fala não há nenhum sotaque. Assim como aos poucos se adaptou e ganhou também seu nome ocidental, Aria P., de uma canção tradicional coreana Arirang.

 

Durante todo esse tempo, a fé que aprendera com a mãe e avó materna Gwang Ja Yoon foi um ponto de apoio e de encontro muito importante na sua história. Como evangélica, Aria ministra religiosamente aulas para as crianças aos domingos e lidera louvores na mesma igreja do bairro do Pari, a Igreja Presbiteriana Sinam, que a abrigou junto com sua família, numa época em que não conheciam mais ninguém por aqui. “Minha vida no Brasil está nessa igreja, quando chegamos fomos direto para ela e o pessoal ainda lembra de quando eu não conseguia nem falar um ‘a’ português”.

Em 2004, quando a família P. aterrissou no país pelo aeroporto de Guarulhos, nenhum deles tinha documento, não tinham passaporte brasileiro e não podiam mais sair do Brasil. “A gente pegou o visto para três meses falando que íamos viajar, só que ficamos”. Um tempo depois, seu pai tinha comprado um carro, mas ainda sem documento, e numa parada policial tudo precisou ser delicadamente negociado.

Mas para outros assuntos nem sempre havia negociação possível. É o caso da sua avó que estava bem doente, com câncer. “Quando ela estava naquela fase e conversávamos com ela por Skype, acompanhando de longe o efeito da quimioterapia…  Não tinha o que fazer”, lamenta Aria sobre a situação legal deles na época. Não conseguiram ir para o velório e “minha mãe ainda guarda essa mágoa”. Mesmo no meio de tanta tristeza, há uma boa lembrança. Uma vez, perto do natal, sua mãe ligou o computador e a fez tocar piano para a avó, fora a primeira vez que ela ouvira a neta tocando.


BATIDAS DO MUNDO

Mesmo tendo deixado para trás os estudos com o instrumento, era essa mais um ensinamento da Coréia, onde começara as lições aos cinco anos. “As pessoas de lá são muito competitivas e não vivem direito, foi até por isso que meu pai escolheu vir para cá”. Inclusive, as mães discutiam entre elas a quantidade de cursos que os filhos faziam. E essa competição se estendia para todas as esferas da vida, inclusive para a música.

 

“Eu gostava muito de K-pop, mas, agora, está tudo muito rápido! Passa uma semana, aparece um grupo novo e fico me perguntando quem são”, brinca Aria, ainda fã das bandas Big Bang e Block-B. O gênero musical é conhecido também como a música pop coreana e utiliza muitos elementos audiovisuais, uma mistura de sons ocidentais com elementos de performance asiática que ganha cada vez mais o mundo, a partir dos anos 90 e hoje nas playlists de jovens pelo mundo todo.

Em completo descompasso com essa cena pop inconstante, de novas big-bands, criadas todos os dias, e de sucessos de ontem esquecidos, a família P. acabou crescendo mesmo foi por um gênero musical mais tradicional, criado no final dos anos 50 do outro lado do mundo, na zona sul carioca. A Bossa Nova que trouxe Hee Kyung Na, cantora e esposa de seu irmão In Sung P., para o Brasil pela primeira vez aos vinte anos.

Era esse um sonho antigo que trazia consigo, quando encontrou a primeira partitura em uma busca pela internet. “Ela simplesmente veio para o Rio de Janeiro bater de porta em porta de todos os artistas [do gênero] que ela conhecia por nome, um desses caras foi o Roberto Menescal, que é um dos fundadores do movimento ao lado de Tom Jobim e Vinicius de Moraes.

Nessa época em que Hee Kyung veio, seu irmão já trabalhava no Centro Cultural Brasileiro da Coreia do Sul e estavam envolvidos em projetos por causa da música. “Mas foi no ano de Olimpíadas do Brasil, 2016, que meu irmão foi pra paulista comer KFC sozinho e ela estava lá – conta, dando risada – Aí, começaram a bater papo, um sentimento foi surgindo e se casaram em menos de um ano”. E assim Aria voltou para a Coréia, foi assistir o casamento, em 2017.

 

Mesmo não sendo essa a primeira vez que ela voltava para seu país de origem, uma impressão permanecia. “Quando eu era pequena, tudo era tão grande e estava tudo muito pequeno lá. Eu me sentia num sonho, mas em nenhum momento quis ficar para sempre”. Muitas coisas permaneciam como sempre foram, uma estátua de um dos muitos reis daquela nação, como a do rei Sejong, ou um castelo de mil anos atrás, mas há também pelas ruas prédios ultramodernos, iguais ao Lotte World Tower.

Tanto contraste é fruto do seu fenômeno de crescimento vivido nos últimos 50 anos, do pós-guerra. De um país pobre, a uma nação que vive o milagre econômico, graças aos altos investimentos do Governo em tecnologia e educação. Um império de mais de quatro mil anos de história com seus naturais altos e baixos, descobriu como se alinhar ao presente e, hoje, abriga em seu solo marcas como Samsung, Kia, Hyundai e LG, referências no mercado internacional.

NOVOS COMEÇOS

Os coreanos sempre buscaram se reinventar quando era preciso. O avô paterno de Aria, Jan Soo P., vendia bichinhos de pelúcia em barcos pelo mundo, durante a guerra das Coreias, em que a população vivia em meio à muita pobreza. Era essa história que o pai dela, Young H., lhe contava e Aria se lembra de ver os ursinhos, as tartarugas e os gorilas que seu avô fazia. Certa vez, seu pai lhe contou que Jan Soo viera uma vez para o Brasil e tinha dito ao filho que esse era o melhor país do mundo para se viver.

 

Sem muito se recordar da fala do pai, Young H. que estudara espanhol na Coréia, veio para o Brasil com os filhos. A primeira tentativa foi em 1998, quando importava e vendia roupas em São Paulo, mas não deu certo. Em 2004, voltou para ficar. Num primeiro momento, importava peças de alumínio para lojas, como estantes, e, agora, busca exportar açaí e cupuaçu para seu país natal. “De novo, não sei se isso está dando tão certo, no sentido de que é muita burocracia no país, com aquele monte de papel, e isso deixa ele meio estressado”.

Mesmo assim, ele conta, nessa empreitada, com a filha, estudante de comunicação, que elabora e traduz os textos sobre os produtos exportados. E também com a ajuda da esposa, que cuida de todos, da casa e da cozinha. Tudo sempre funcionou bem até que sua mãe começou a ficar muito doente. A depressão mudara radicalmente a vida de sua mãe que desenvolveu também fibromialgia, artrite e anemia. Nessa época era sua mãe que precisava ser cuidada e Aria que nunca aprendeu a cozinhar, teve que se virar com a ajuda do pai. Eles sempre a viram cozinhar, mas nunca estiveram de fato envolvidos entre as panelas e geladeiras da casa.

“Tentamos fazer várias receitas, alguns pratos saíram bem, bem esquisitos, mas acabamos aprendendo. Hoje, quando cozinho, faço só comida brasileira até porque não vejo sentido em fazer algo que minha mãe cozinha bem melhor do que eu”, brinca Aria, sorrindo mais uma vez. E recordando da boa saúde da mãe e das listas de pratos que gosta de cozinhar, é claro que com bastante pimenta, mas todos bem com uma cara daqui, ratatouille, strogonoff, parmegiana e lasanha, mesmo que sejam de algum outro lugar do planeta.

Sugestão para escutar: a música “Shall We Dance”, de Block-B ♦

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