DESEJO ORIENTAL – Diogo Kaupatez

Em Devassos do Paraíso, reeditado em 2018, o jornalista e escritor João Silvério Trevisan traça a história da homossexualidade no país, da chegada dos portugueses no século XVI até os dias atuais. Ampliando os estudos disponíveis sobre sexualidade em português, está em vias de publicação um importante documento sobre a historia da homossexualidade japonesa. Editado pela C33, o livro O Belo Caminho, do professor  Gary P. Leupp, é traduzido por Diogo Kaupatez.

Em processo de captação de recursos via Catarse, o livro O Belo Caminho traça a história e os costumes da homossexualidade no Japão. A publicação explora o período Edo (1603-1868), anterior a abertura do país para o ocidente, quando o tema ocupava lugar não-marginal na cultura japonesa. Era praticado abertamente por cidadãos comuns, samurais e monges budistas, por isso o estudo se trata de um importante resgate da memória, até porque temas como esse foram e ainda são sistematicamente apagados.

A Grande Onda de Kanagawa por Katsushika Hokusai (1760–1849) wikipedia

A Grande Onda de Kanagawa por Katsushika Hokusai (1760–1849) // Creative Commons

Com obras publicadas pelas editoras da universidade de Princeton e da Califórnia, Gary P. Leupp e especialista em relações trabalhistas, de classe e de gênero do período Edo (1603-1868). Já o tradutor da versão em português, Diogo Kaupatez é mestre em letras pela USP com dissertação sobre a vida e a obra de Katsushika Hokusai, o autor da Grande Onda. Com um extensa lista de traduções para português e uma longa passagem pela Cosac Naify, Diogo estuda a linguá há mais 23 anos.

Confira a seguir nossa conversa, por e-mail, sobre a tradução d’O Belo Caminho.

O livro começa pelo período Edo (1603-1868) no Japão? Nesse momento, como a cultura japonesa via a homossexualidade?

Na realidade, o livro começa antes. Ele conta como surgiu o conceito de homossexualidade, importado da China por monges japoneses em intercâmbio, como ele se disseminou entre a classe samurai e acabou adotado e festejado pelos cidadãos comuns. A obra se detém no período Edo, dada abundância de documentos e registros históricos da época.

Uma das teorias mais incríveis do livro é a de que, caso adotadas pelas elites, determinadas práticas sexuais não se tornam tabu. A homossexualidade era praticada pela elite religiosa e militar, então não poderia ser negativa. Fazer sexo com homens era uma opção, da mesma forma que fazer sexo com pessoas loiras ou negras, gordas ou magras, mais novas ou mais velhas.

Curioso pensar que, no Ocidente, em resposta à condenação generalizada da homossexualidade, desenvolveram-se teorias vinculando a homossexualidade aos genes. Juízos de valor extremos exigem justificativas extremas.

Pintura japonesa de um holandês praticando astronomia em Dejima - wikipedia

Pintura japonesa de um holandês praticando astronomia em Dejima // Creative Commons

Aliás, esse é um estudo feito por um americano, japoneses já mergulharam na sua própria história?

No caso da homossexualidade, quando o Japão abriu seus portos e retomou o intercâmbio com os demais países do mundo, chocou as nações ocidentais. A homossexualidade era praticada abertamente por samurais, monges budistas e cidadãos comuns, celebrada na arte, na literatura e no teatro. O Japão possuía quarteirões, licenciados pelo Governo, cheios de casas de chá que abrigavam as mais diversas formas de prostituição. Era uma nação onde reinava, nas palavras de Gary Leupp, um clima de “alegre bissexualidade”. Os ocidentais cristãos ficaram pasmos e consideraram o que viram reflexo de uma população depravada e imoral. Envergonhados, os japoneses trataram de esconder tudo o que dizia respeito à homossexualidade, sendo necessária a redescoberta desse Japão décadas depois. E muitos desses estudiosos eram ocidentais.

Quem foram os homossexuais importantes na história do Japão? E quais foram as conquistas desses homens e mulheres? Podemos falar em conquistas?

Existem registros de fundadores de grandes seitas budistas mantendo relações sexuais com monges veteranos e noviços. Quase todos os xóguns detinham, além de esposas e um harém de mulheres, rapazes por quem se apaixonavam e distribuíam cargos públicos e lotes de terra.

Não há o sentimento de conquista, no sentido de conquistas para a classe homossexual — afinal, não havia preconceito. O curioso é que grandes figuras celebradas nos dias atuais mantiveram relações homossexuais, apaixonaram-se por indivíduos do mesmo sexo e isso se manteve convenientemente oculto por décadas. Nichiren, mestre da Soka Gakkai, uma das maiores seitas budistas dentro e fora do Japão, manteve relações homossexuais quando no monastério —e alcançou o mesmo grau de iluminação do Buda. Miyamoto Musashi, o maior samurai japonês, era apaixonado por seu discípulo. Bashô, o grande nome do haicai, apreciava rapazes e declarou ser um discípulo o grande amor da sua vida. Curioso notar que, nos três exemplos, a homossexualidade foi deixada de lado.

Tokugawa Ieyasu como xogum wikipedia

Tokugawa Ieyasu como xógum // Creative Commons

Como eram que essas seitas budistas viam a homossexualidade?

O Belo Caminho explica melhor, mas basicamente o noviço ingressava ainda pré-adolescente nos monastérios, fosse para se ordenar ou apenas para receber educação formal nos textos sagrados. Imediatamente, era-lhe designado um “irmão mais velho”, um veterano que assumiria as funções de tutor do rapaz. Criava-se um laço entre ambos, em que o monge veterano assumia função sexual ativa e o acólito, passiva. Anos depois, quando o rapaz de ordenasse monge e lhe fosse confiado um discípulo, a situação se inverteria. Ou, caso não seguisse carreira religiosa, o jovem poderia se casar e constituir família sem impeditivos. Assim, pode-se dizer que o sujeito não era homossexual, e sim que ele estava homossexual.

A arte sempre é um farol para os desejos e os anseios da humanidade. Nesse contexto, quem foram os artistas que retrataram essas vivências no pais?

Foram poetas, pintores, atores do teatro cabúqui, nomes desconhecidos do leitor brasileiro. Tratava-se de uma arte popular, voltada ao público consumidor das cidades, uma arte efêmera que lidava com prazeres mundanos. A homossexualidade era corriqueira, portanto era sempre tratada de forma alegre.

Musashi vs. Bokuden wikipedia

Musashi vs. Bokuden // Creative Commons

É possível traçar um paralelo com o hoje do Japão? Como você entende as questões do país com a sexualidade hoje?

O que conheço da sexualidade japonesa contemporânea vem de relatos de gente que vivenciou os bairros gays de Tóquio, porém não cheguei a me debruçar sobre o assunto. Para não correr o risco de dizer bobagens, prefiro não opinar.

Os estudos de Gary P. Leupp são consenso no Japão?

Não sei dizer, porém ele foi todo elaborado em cima de documentos do período. Não creio que haja grandes objeções, pois elas iriam de encontro a fatos históricos.

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