SE ESSA RUA FOSSE MINHA #MULHERESDESP

Das 26.132 ruas, avenidas e logradouros com gênero na cidade de São Paulo,  somente 16 por cento delas carregam nomes femininos. A maioria das homenagens (84 por cento) foi feita para homens ilustres da cidade, segundo o estudo divulgado pela ProScore, em 2017. Diante desses números discrepantes, nasce o projeto #MulheresDeSP para questionar: Quem foram as mulheres que ajudaram a construir a maior metrópole da America Latina e por que foram sistematicamente apagadas? E claro, tudo isso numa linguagem simples e direta, feita para viralizar nas redes.

Iniciado no Instagram do @vivacultura_SP (82K seguidores), a hashtag sobre a trajetória de 16 personalidades femininas da historia paulistana alcançou mais de 275.000 pessoas. O projeto mira, agora, a publicação de um livro via crowdfunding, no Catarse, com essas narrativas. Vidas de mulheres, como Lina Bo Bardi, Mirhtes Bernardes, Ema Klabin, Marquesa de Santos, Dona Yayá, Dona Veridiana, Maria Auxiliadora, Anália Franco, Carolina Maria de Jesus, Pagu, Ruth Rachou, Yolanda Penteado, Brenda Lee, Pérola Byington, Dona Maria Angélica Souza Queiroz Aguiar de Barros e Bailarinas do Ballet Paraisópolis.

 

Por trás da inciativa esta Alana Carvalho, uma das fundadoras do perfil Viva Cultura, que entrega uma agenda cultural para um público não necessariamente familiarizado com o universo, mas interessado e engajado. Mais conhecida pelos pezinhos que andam por São Paulo, entre exposições e passeios, Alana não fala muito de si, só essa semana revelou ser o personagem do perfil. Fruto da modéstia, porque qualidades não faltam a pedagoga com MBA em Gestão Cultural e apaixonada por história.

Confira a seguir nossa conversa, por e-mail, sobre o projeto #MulheresDeSP, ainda em fase de captação de recursos.

De onde veio a ideia de mapear nome de mulheres em ruas de São Paulo e contar as histórias delas? Aliás, quais os nomes das perfiladas no livro? 

O projeto #MulheresDeSP surgiu quando estávamos mapeando personagens históricos que dão nomes às ruas de São Paulo para contar no Instagram da Viva Cultura e nos deparamos com uma pesquisa realizada em 2015 pela empresa proScore [posteriormente atualizada], que fez um levantamento e descobriu que 85% das ruas de São Paulo levam nomes masculinos e representam homenagens a personagens e celebridades do gênero masculino. E mais: há mais ruas com nomes de santos ou datas comemorativas do que referências a mulheres!!!

Considerando que 53% da população de São Paulo são mulheres, esse dado nos pareceu absurdo!!! Foi aí que nos lembramos da história de Mirthes Bernardes, criadora do famoso piso paulista, que nunca recebeu um centavo pelos direitos autorais de sua obra, mas que sempre comoveu muito os seguidores do Viva Cultura. Então, paramos para pensar: “muitas mulheres contribuíram para São Paulo ser o que é hoje, mas por que é que não conhecemos essas mulheres?”.

Dentre as homenageadas, temos fundadoras de bairros, ativistas, defensoras da equidade de gênero, artistas e tantas mulheres tão incríveis, que é impossível não se apaixonar pelo projeto e não fomos só nos que nos apaixonamos pelo projeto! As histórias foram grandes sucessos no Viva Cultura, alcançando mais de 275.000 pessoas. Choveram comentários agradecendo pelo compartilhamento das informações e seguidores indo conhecer os lugares e o legado das #MulheresDeSP! A prova mais concreta de que o projeto é um sucesso foi quando o sobrinho-neto da Brenda Lee (a brasileira, não a americana, tá?), nos enviou um direct agradecendo por contar a história de sua tia-avó e fazer com que mais pessoas conhecessem o trabalho dela e seu legado

 

 

 

Como foi o processo de busca por essas histórias? A quais referências recorreu?

O primeiro desafio foi buscar as mulheres que deixaram algum legado em São Paulo. O ponto de partida foram os nomes de ruas e bairros e, a partir daí, fomos relembrando outras mulheres que foram importantes para a cidade, mas cuja conexão não era tão óbvia, como Maria Auxiliadora, que teve uma ligação importante com a zona norte e teve uma exposição sua negada pelo Pietro Bardi, no MASP, por ser mulher e negra. Também priorizamos a diversidade, assim há mulheres brasileiras e estrangeiras, brancas e negras, e até uma transexual.

O segundo desafio foi encontrar material confiável sobre cada uma dessas mulheres, então buscamos material na internet, em livros sobre São Paulo, artigos e reportagens da época no Arquivo Histórico Municipal, documentários, entrevistas e por aí vai! Todas as histórias tiveram diversas fontes, pois cada uma abordava questões e pontos diferentes, mas nenhuma dava o enfoque que gostaríamos, que era o de ressaltar as transformações e o legado de cada mulher. Praticamente todos os materiais e bibliografias que encontramos, com raras exceções, apresentavam somente a parte sofrida da vida dessas mulheres e as apresentavam sem grande esmero.

Assim, o último desafio foi escrever as histórias, de forma sucinta e dando enfoque nas qualidades e características positivas de cada uma das mulheres, reconhecendo o legado que permanece até hoje na cidade e, claro, continuar fiel aos fatos verídicos. Só posso dizer que foram muitas horas de trabalho em cima de cada história!

 

 

 

Qual dessas histórias você destacaria? E por quê?

Olha, é muito difícil escolher uma só história para contar! Foi uma imersão tão profunda na vida dessas mulheres, que já me sinto quase que parente de muitas delas!

Mas, uma das histórias que mais gostei de escrever foi a da Pagu. Muita gente só a conhece como amante de Oswald de Andrade e musa do modernismo, mas isso é subestimar tanto o mulherão da p#$%@ que foi a Pagu! Ela me lembra muito a história de Camille Claudel que todos subestimam como assistente e amante de Rodin, mas que foi uma mulher genial e com um talento único! Tanto é que hoje em dia questionam diversas obras de Rodin como de autoria de Camille.

Pagu, para mim, é como uma Camille brasileira. Todo mundo só lembra dela por conta de Oswald de Andrade e esquece que ela foi escritora, poeta, diretora de teatro, tradutora, desenhista, jornalista, ativista… Ela foi a primeira mulher a ser presa por crimes políticos, dá para acreditar nisso?! O tanto que ela contribuiu para o desenvolvimento das artes em São Paulo, para a questão política e, mais, em defesa da equidade de gênero! Há uma rua em sua homenagem em São Paulo, no bairro de Guainases, o que já é alguma coisa… Mas, apesar de todo ativismo, agito e representatividade que causou na cidade, infelizmente não foi considerada importante o suficiente para ganhar uma rua em sua homenagem no centro. Pagu foi um dos maiores símbolos feministas de todos os tempos que já pisou em São Paulo! Ela merece ser lembrada e reconhecida!

Recentemente, o Viva Cultura visitou o Palacete da D. Veridiana, fechado para o público. Como foi essa experiência e o que tinha lá?

Foi uma experiência incrível! É um dos patrimônios históricos mais bem preservados da cidade e, como a história da D. Veridiana é uma das minhas favoritas, foi muito emocionante visitar o palacete! Atualmente o espaço é gerido pelo Clube Iate de Santos, que foi fundado pelo bisneto da Veridiana, ali, mesmo no casarão, então há história por todos os lados! Lógico, o lugar teve algumas atualizações e tal, mas boa parte é mantida como era na época da dona da casa, assim, é possível imaginar como era a vida ali. O que mais me impressionou foram as obras de arte! Há pinturas, afrescos, tapeçaria, esculturas e detalhes belíssimos! Você entra no banheiro e, pá! Dá de cara com uma obra de arte… É incrível! O pessoal do Clube Iate de Santos também foi muito receptivo e me ajudaram bastante com a história e confirmações de alguns fatos sobre a D. Veridiana. Saí de lá bem contente e satisfeita com o que encontrei!

 

 

 

Como você entende esses espaços mais restritivos em relação a preservação da memória?

Essa é uma questão delicada não só por lá, mas por todos os imóveis que atualmente são tombados, porém, ao mesmo tempo, são propriedades privadas. Sim, o tombamento é importante para a preservação da memória, não há dúvidas! Mas, infelizmente, a preservação e manutenção do patrimônio são muito delicadas e caras e não há incentivo do Governo, o que dificulta bastante as coisas e, aí, caímos em situações como a do Bixiga, onde há imóveis tombados, mas pouco preservados. No caso específico do Clube Iate de Santos, apesar de ser um espaço restrito, como falei, é um dos patrimônios mais bem preservados da cidade! Atualmente, o foco é na realização de grandes eventos e não há um programa fixo de visitas, o que é um pena, mas eles já participaram de Jornadas do Patrimônio e atividades do Sesc, então há o interesse em se aproximar do público. Podem me chamar de otimista, mas tenho boas esperanças!

A sua escrita é acessível ao mesmo tempo que traz conteúdo, imagino que muito disso venha por causa do hábito em se escrever para o Instagram. Qual é a importância dessa universalidade da escrita?  

A escolha do estilo de escrita foi por conta das redes sociais, mas, também e principalmente, para tornar acessível a arte, cultura e história. Muitas vezes vamos a exposições e nos deparamos com aqueles textos maçantes e difíceis de ler e, ali mesmo, você já perde o visitante, que entra na exposição se achando um zero à esquerda por sequer entender o texto introdutório! A escolha da linguagem foi estratégica para se aproximar do público, quebrar tabus como “história é chata”, “cultura é só para intelectuais” e “arte é difícil” e, muito pelo contrário, mostrar que cultura, arte e história podem ser legais e para todo mundo! Lógico, por se tratar de redes sociais, acabo usando muito mais frases de efeito, jargões e memes, mas esse estilo é a marca registrada do Viva Cultura, tanto é que as histórias do #MulheresDeSP seguem exatamente o mesmo padrão e serão publicadas assim no livro.

Quanto ao retorno do público, é o mais positivo possível! Conseguimos, de fato, quebrar alguns pré-conceitos e temos registros e relatos de pessoas que se aventuraram em exposições por conta das nossas dicas ou foram assistir a um concerto ou ópera pela primeira vez na vida na Sala São Paulo e Theatro Municipal. Quer melhor indicador do que esse? Acredito piamente na cultura como instrumento poderosíssimo para o desenvolvimento do pensamento crítico, então, em tempos de informações tão rasas e fake news, pensamento crítico é a chave para a vida! É por isso que seguimos firmes e fortes com os textões, mas sempre de forma leve e divertida.

 

 

 

Vivemos numa sociedade que não valoriza seu passado. Entrar num projeto com financiamento coletivo sobre história apresenta muitos desafios? Quais são eles? Empresas estão interessadas?

São inúmeros desafios, com certeza! Desde a escolha da publicação de um livro, que é algo que, vamos combinar, está em baixa atualmente, até a opção pelo financiamento coletivo. Mas, tendo em vista tantas catástrofes e acontecimentos recentes, a cultura, a memória e o passado estão em cheque atualmente, então há quem esteja desperto para isso. Valorizar a memória é praticamente um ato de resistência nos dias de hoje e, enquanto houver histórias para contar e se orgulhar, seremos resistência!

É um projeto muito poderoso e com forte poder midiático, então a receptividade do público e das empresas tem sido muito boa! O difícil é chegar na pessoa certa dentro da empresa e, por isso, às vezes, as coisas não acontecem na velocidade que queremos, mas tenho muita confiança no #MulheresDeSP e tenho certeza que vai dar o que falar ainda! Estamos em pleno momento de captação de recursos e em contato direto com várias empresas. Por enquanto, só posso dizer que o resultado será lindo e que vem muito mais por aí!

Faça parte do Projeto: https://www.catarse.me/mulheresdesp

 

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