ALEXANDRE É DIFÍCIL

Alexandre Cruz não é fácil e nem é óbvio. Proprietário do título de cidadão amparense pela Câmara Legislativa (2008), o paulistano, de 42 anos, é um dos fundadores e diretores da mais antiga companhia de teatro, em atividade, de Amparo. Há 23 anos, a Cia. Lázara, antiga Arteatrando, leva drama e comédia a uma diversa parcela dos 71.000 habitantes da cidade. E como gosta de falar, é também mentor, faxineiro, bilheteiro e figurinista da Casa do Teatro, espaço-barracão que há 13 anos é palco de manifestações artísticas numa rua histórica do município.

Alexandre Cruz - Igreja do Rosário

Alexandre projetado na histórica Igreja do Largo da Rosário // Crédito: Raoni Frizzo

Pelos palcos da Companhia, já passaram cerca de 300 atores, incluindo os alunos de teatro da Casa. Alexandre também estima ter montado entre 80 e 90 espetáculos com o grupo. Tanta atividade e tantas ideias colocadas em prática renderam aproximadamente 120 prêmios em festivais. Entre tantos números, o diretor se perde num caminho sem volta e, nessa profusão de vivências, cada momento é suspenso por outro ainda mais significativo.

Essa diversidade que o habita, vem muito de sua história pessoal. Da Freguesia do Ó, bairro de São Paulo, aos cinco anos mudou-se para Amparo. Já aos nove, mudou-se novamente com a família para Taiobeiras, em Minas Gerais, em missão evangelizadora com a Congregação Cristã no Brasil. Lá, por sua vez descobriu os encantos e as magias do Sertão, o mesmo tão bem narrado  por Guimarães Rosa. A cidadezinha, para onde foi, é a última do Estado e dá divisa com Feira de Santana, na Bahia.

Tal experiência o moldara tanto que quando retornou para o interior de São Paulo, aos 13 anos, não era mais o mesmo. Já tinha descoberto o teatro e, mais tarde, buscando se aprofundar nesse universo, estudou Artes Dramáticas no Conservatório Carlos Gomes, em Campinas, para onde fazia bate e voltas diários. Prestes a se formar, teve a certeza de que ficaria em Amparo e, lá, viveria de teatro. Mais tarde, essa decisão se traduziu na seguinte frase: “Só tem felicidade, quem faz feliz uma cidade”. E são esses dizeres que recebem todos os espectadores da Casa do Teatro, pintados em letras garrafais, na entrada do espaço.

alexandre cruz - crédito Caio Basilio

Alexandre em cena surrealista // Crédito: Caio Basílio

Mas viver dessa utopia, nas próprias palavras do Alexandre, “por Dionísio, não é fácil”. E as dificuldades se sucedem. No dia das eleições para presidente, em 2018, havia um pano vermelho na entrada do teatro, nada mais que uma cortina, enquanto acontecia do lado de dentro um espetáculo musical. No entanto, aquela cortina foi logo lida como um sinal, um sinal muito claro para um grupo que passou gritando: “Comunistas, comunistas”. História que Alexandre lembra em tom anedótico.

Como bem escreveu o cronista e dramaturgo Nelson Rodrigues, uma das grandes inspirações para a Companhia, “Toda a unanimidade é burra”. Alexandre não discorda e vai ainda mais longe, instigando o pensamento crítico e outros olhares para a realidade daqueles que cruzam seu caminho, sejam eles atores ou espectadores. Até porque, como acredita, “é o teatro o rito que dá potência para o ser”.

No meio desse momento de conflitos e questionamentos pelo qual passa o Brasil, qual é a função da arte?

Eu estou com uma camiseta do Ferreira Gullar que diz: “A arte existe, porque só a vida não basta”. Eu creio muito nisso e creio também que arte é expressão, mas nem toda expressão é arte. A gente tem muita expressão hoje em dia, mas tem pouquíssima arte. Inclusive, esse natal, essa época de renascer foi muito importante, porque conversamos muito entre os atores da companhia sobre nossa trajetória.

Foi tão bom relembrar esses momentos da companhia, em que a gente ofertou ao público arte, de uma forma tão potente, que eu falei: “Preciso resgatar isso”. Uma das ideias é trazer mais Nelson Rodrigues para 2019, junto de experiências mais impactantes. O público tem que sair da sua zona de conforto. Eu quero fazer uma antropofagia de tudo isso e ofertar provocações. Instigar com essa arte que só o teatro pode oferecer.

É ao vivo, a cores, tem um ser humano na sua frente se esgoelando, chorando, rindo, incorporando um outro ser ou a si mesmo. Instigando, aí, o espelho. A função do espelho no teatro, a maior função da arte é de espelho. É de você olhar e reconhecer alguma parte de você, alguma parte que está no seu cotidiano ou que está muito escondida, muito subjetiva.  A gente precisa estar engajado nesse momento que o mundo está vivendo. O mundo inteiro está sendo governado pelos vampiros, pelo grande teatro dos vampiros. Antigamente, o teatro dos vampiros era farsesco, hoje em dia eles não fazem questão nenhuma de mostrar que é uma farsa. Eles assumem que são vampiros mesmo.

A mudança do nome da companhia, depois de mais de 20 anos, vem por quê? É para acompanhar esse novo momento?

É Lázaro, porque esse é um mito que me interessa. Quando Hamlet [personagem de Shakespeare] diz que nenhum homem voltou desse lugar que é a morte, Hamlet estava se esquecendo de Lázaro. Lázaro voltou para a cultura judaico-cristã. Me interessa muito esse ressuscitar. E acho que a companhia tem muito disso! Durante esses 23 anos, nós morremos e nascemos diversas vezes. Acho interessante o significado. E coloquei o nome no feminino, porque é em companhia, estamos na companhia um dos outros. Acredito também que só quando voltarmos para o matriarcado, alguma coisa pode de fato acontecer com a humanidade. Por isso mesmo estar no feminino é muito mais interessante.

De onde surgiu a ideia de criar a antiga Cia. Arteatrando e, hoje, Cia. Lázara?

Em 1996, eu fundei a Companhia com a minha irmã, a Alessandra Cruz, e outros amigos, como o Emerson Antônio, a Érika Cunha, a Heleonora Lucas e a Arminda Riolo. Antes nós fazíamos parte do GATA (Grupo Amparense de Teatro Amador), do Roberto Madureira. Lá só fazíamos comédias de costume, as peças do Madureira e um pouco de Ariano Suassuna – que eu adoro e que também faz parte da linguagem da Companhia –, mas estávamos cansados dessas comédias e eu insistia para que a gente tivesse outras experiências. No entanto, a ideia do Madureira de companhia era a de um teatro para as pessoas rirem. Assim, drama não fazia parte do repertório.

Isa Rossi

Uma palhaça e toda a irreverência da Companhia // Crédito: Acervo da Companhia

O Eugenio Barba dizia que o teatro é antes de mais nada revolta. E eu concordo, quando deixamos o GATA, aquele foi nosso momento de revolta cênica, de deixar para trás e ir para uma outra coisa. Daí, surgiu a vontade de fazer a nossa primeira peça. Era também comédia, mas muito mais atual. Nos anos 90, o Luís Fernando Veríssimo foi muito lido e comentado. Eram muito divertidas suas histórias, como as do Ed Morte. Resolvi escrever então um texto onde misturava tanto as histórias do Ed Morte quanto A Comédia da Vida Privada.

O que você está me dizendo aconteceu em 96, como era a cena teatral na época?

Olha, no GATA, era uma vez por ano que se fazia uma apresentação. Nós ensaiávamos meses para apresentar uma única vez, o que também já era uma coisa que eu questionava. A gente era muito questionador. Eu queria fazer espetáculo onde, no mínimo, se apresentasse um final de semana ou ficar por uma temporada em cartaz. Um dos nossos desejos era fazer com que o público tivesse mais teatro. No primeiro ano, a gente fez a Comédia da Vida Privada, depois teve Rede Bobo, uma sátira sobre programas de TV, O Assarto… Aí, começamos também a pesquisar e veio A Farsa do Mestre Pierre Pathelin, A Farsa da Boa Preguiça, … Antes disso, em 97, nós fizemos também uma peça que foi um acontecimento na cidade. O texto era Quem Matou Valentina Valentine?. A peça levou em dois dias, no Clube Floresta, mil pessoas. A gente lotou os dois dias, foi uma coisa impressionante. Com ela, fomos para o Mapa Cultural e começamos a participar de festivais.

E como nasce a Casa do Teatro?

A História da Casa do Teatro surgiu de uma necessidade, porque a companhia cresceu e junto com ela nosso acervo foi aumentando. Hoje, nós temos mais de 5.000 peças. Além disso, queríamos um espaço para ensaiar, produzir. Antes, nós passamos por alguns lugares. Pelo Conservatório Integrado, pela Fanamatex [atual prefeitura da cidade]. Nós invadimos o espaço que estava abandonado e nos alojamos lá por dois anos e meio. Só fomos expulsos quando foram reformar o lugar. Aí, fizemos o movimento dos Sem Teatro, fomos até a Câmara dos Vereadores, exigindo que a prefeitura se posicionasse e cedesse um espaço para a gente. Não foi possível. Então, ficamos durante um ano e meio na Galeria Treze, mas o espaço era muito pequeno. Depois ainda, locamos uma casa na Princesa Isabel e, de lá, viemos para a rua Barão de Campinas [atual sede da companhia]. Aqui, o proprietário é uma pessoa muito compreensiva,  porque já era para estarmos com processo de despejo e todas essas coisas, mas ele acredita muito no nosso trabalho.

 

Em números, quantos atores já passaram pela Companhia Arteatrando?

A Casa do Teatro é um espaço portal, é um ponto de transmutação, porque ela é justamente o lugar de passagem. As pessoas estão sempre de passagem. Mais de 150 atores já passaram pela Companhia. Fora isso, nós tivemos o ponto de cultura Brasil em Cena, onde a gente trabalhou com mais ou menos 100 participantes. Calculo que em torno de 300 pessoas já circularam nesse labirinto.

É muita gente que passou por esse rito de passagem que é o teatro. Ele é um rito, porque trabalha a sua presença, ele dá potência para o ser, ele vai nos desconstruindo e ao mesmo tempo que o que sobra de tudo isso, os escombros, vão se reconstruindo. Nessa difícil jornada de encontrar a liberdade e o amor, nossas verdades vão sendo transmutadas, até você descobrir de fato seu discurso. Essa construção do humano é o que há de mais interessante e é uma delícia ver a trajetória das pessoas com o teatro. Tem uma frase de um amigo meu que é fascinante: “Eu não faço teatro, o teatro que me faz”. É isso, o teatro faz a gente, ele nos potencializa em encontrar a nossa verdade, esse personagem que a gente tem que viver todos os dias.

Entre os desafios e as possibilidades da arte, quem é o público da Casa do Teatro?

Esse público é muito diferente e diverso. O Mágico de Oz que fizemos, em 2018, foi muito bem de público. Nós tivemos as sessões lotadas, com mais de 100 pessoas, durante uma temporada de um mês em cartaz. As pessoas querem o clássico, mas, de repente, elas acabam vindo assistir ao Mágico de Oz, achando que vão assistir aquela reprodução de 1939, com a Judy Garland. Só que quando elas chegam, percebem que não é Doroty, é Dorotéia. Não é Texas, é Cafundó dos Judas, uma cidade nordestina. Quando a pessoa vê que é uma recriação, que aquilo sofreu uma antropofagia – porque isso faz parte da Companhia, nós somos antropofágicos. Aí, ela fala: “Eu vim e fui surpreendida”. Acho que tem muito preconceito, mas quando chegam, gostam do que assistem.

Bastidores Casa do teatro (2)

Bastidores de uma montagem // Crédito: Acervo da Companhia

A outra montagem do ano passado foi O Perfume. Sua construção foi muito instigante, mas recebemos pouco público. O público quer mais comédia, o HAHAHA. Se nós vivemos hoje, um momento em que as maiores bilheterias do teatro são os youtubers, o que é que a gente pode esperar? Nada contra, porque o teatro tem espaço para tudo e o teatro tem essa liberdade de não ter um formato. Por isso que do público, a gente está sempre correndo atrás, tentando capturar ele.

Enfim, a luta para ter público é uma coisa assim absurda. Uma das últimas peças que fui assistir, em São Paulo, Selvageria, do Felipe Hirsch, tinha 20 pessoas na plateia. Espetáculo monumental, mas 20 pessoas na plateia. Como assim gente? Isso porque eles estão no Sesc que financia e espero que continue financiando. É isso que estamos vivendo.

Esse ano, quero muito montar Tieta do Agreste, um texto muito conhecido, que era para ser o primeiro espetáculo da companhia, mas que só depois de 23 anos vamos fazer. É uma obra absolutamente popular e necessária do Jorge Amado. A gente está vivendo um momento absolutamente careta, a gente está engessado na caretice, a gente precisa muito de textos que instiguem a liberdade de ser. E o Jorge Amado tem essa mágica de falar de sexo, de sexualidade, das questões humanas.

Macunaima - Casa Teatro - Débora Branco

Montagem de Macunaíma // Crédito: Débora Branco

Como se dá esse viver de teatro numa cidade do interior como Amparo?

Eu me sinto às vezes como um rinoceronte de Ionesco. Tem uma coisa que eu acho que é karma, acredito muito nisso. Éramos a sétima família a chegar num lugar inóspito, o bairro de São Dimas, em Amparo. Eu tinha cinco anos de idade. E a primeira experiência que tive aqui foi de uma senhora que chegou e perguntou: “As crianças almoçaram?”. “Ainda não, a gente acabou de chegar”, disse minha mãe. Alguns minutos depois, essa senhora, a Inês, veio com cinco filhos numa fila meio indiana e travessas para o almoço. Fomos recebidos dessa maneira, então eu sinto que era para acontecer alguma coisa da minha vida aqui. Eu tenho algo a pagar. E é esse o espírito de amparar. É tão bonito o nome da cidade, pena que as pessoas esquecem.

Aí, eu estudando artes cênicas no Conservatório Carlos Gomes, em Campinas, me perguntava o que ia fazer depois. Quando estava para terminar o curso, li um dos livros do Tolstói, onde ele escreve que ao fazer algo para a sua aldeia, você está fazendo para o mundo.  É mais ou menos isso. E eu falei: “Quero trabalhar na cidade”. O que me interessava era fazer coisas para as pessoas. Não num grande centro, acho que agora estou querendo ir, levar um trabalho em 2019, ficar em São Paulo. Já tivemos duas experiências com as peças A Jaula e Réquiem para Iracema, lá nos Satyros [espaço no centro da capital, em frente à praça Roosevelt]. Mas o meu desejo sempre foi o de trabalhar para a cidade.

Tem também a frase que surgiu, quando vim com a Arminda Riolo [outra fundadora da Casa do Teatro], conhecer esse barracão. Só tem felicidade quem faz feliz uma cidade. Eu levo isso muito a sério, às vezes, sério até demais, porque tem um preço. Você trabalhar numa cidade que tem um pensamento de direita muito extremo. Quer dizer, extremo dos dois lados, porque a esquerda também é um… Nós vivemos momentos de muito fanatismo. Se depois de 50 anos da ditadura militar, estamos voltando a ser uma república militar democrática, é porque não conseguimos construir nesses 30 anos a democracia. Nós estamos num momento de miséria absoluta, porque esquecemos totalmente da educação e da cultura. Se nós estamos nesse momento, é porque nós merecemos fazer novamente a lição e aprender com ela.

André Magalhães - casa do teatro

Intervenção da Companhia no centro da cidade // Crédito: Acervo da Companhia

Como é que a Casa do Teatro se mantém?

A Casa se mantém milagrosamente pela bilheteria e pelos nossos trabalhos de teatro escola, teatro empresa, de teatro… Só falta velório. O que eu acho uma pena, porque tenho esse talento. Morei no sertão, lá no Sertão do Guimarães Rosas, morei em Taiobeiras, em Minas Gerais. Então, sei o que é carpideira. A primeira manifestação de teatro que eu tive na minha vida foram as carpideiras presentes nos velórios dos parentes católicos. Aquilo era lindo. Aquele morto ou morta e aquele bando de senhoras, todas enlutadas, chorando, rezando e cantando para o defunto. Era teatro puro!

Infelizmente, eu ainda não tive oportunidade de fazer velórios. Seria ótimo! Gente, por favor, nos chame para chorar! A gente fala isso, mas é ainda um tabu a morte na nossa cultura judaico-cristã. A gente não vê a morte como uma passagem e, quando a gente se depara com ela, como eu me deparei com a partida da Paty Aranha [atriz da Casa do Teatro], a nossa relação com a morte é muito triste. Eu acho que os orientais são mais felizes com ela.

Mas é uma luta, a gente precisa urgentemente de uma reforma, porque desde quando a gente entrou, não tivemos nenhuma reforma na Casa do Teatro. As paredes parecem com as de algum país de guerra. Essa reforma é importante também para renovar o público, ter mais cara de shopping. Nós somos ainda muito underground, a gente tem que sair desse estado, porque não é fácil viver em pequenópolis.

Casa do Teatro lotada em dia de espetáculo

Dia de plateia cheia na Casa do Teatro // Crédito: Acervo da Companhia

Vocês não contam com nenhum patrocinador?

Nós nos ajudamos! O que nos aproxima é que a gente tem muita comunhão, vivemos muito exercendo o coletivo. E exercitar o coletivo é muito difícil no século XXI. Nós estamos sendo instigados a toda hora, a todo momento, a sermos cada vez mais individualistas. E o teatro vai contra isso, a gente não consegue fazer teatro sem o outro. Nós dependemos do outro. É um grande exercício ouvir o outro e usufruir dessa maravilha que é o coletivo.

Vocês já tiveram incentivo por leis fiscais? Alguma ação do Governo?

Nós tínhamos o ponto de cultura que foi um projeto do Ministério da Cultura com a prefeitura da cidade. Durante três anos, fomos subsidiados. Isso foi muito importante! Nós paramos praticamente nossa produção artística para nos dedicarmos a formação desses atores. Eu, Paty, Arminda, Handré e Mateus Angêlo, nós cinco, fizemos um pacto de sermos responsáveis por formar atores, através de três clássicos da dramaturgia brasileira: O Mambembe, do Artur Azevedo; O Rei da Vela, do Oswald de Andrade; A mostra Quebradas do Mundaréu, com textos do Plínio Marcos. Depois, fizemos outros editais também. Acabamos de participar de um outro, mas nunca mais fomos selecionados. Há muito toma-lá-dá-cá nesse meio. Só que conseguimos um kit audiovisual [uma câmera HD, microfone de lapela e um computador] e com ele podemos produzir e editar. Esse ano quero inclusive lançar um canal do Youtube.

Aproveitando a fala sobre a formação de novos atores, como você entrou no teatro?

Eu entrei no teatro aos nove anos, lá no Sertão de Minas Gerais, em Taiobeiras, cheguei na escola e a professora disse assim: “Hoje, nós não vamos ter a primeira aula, vamos ter uma peça de teatro”. Eu olhei e falei assim: “O que é teatro?”. Eu nunca tinha assistido uma peça de teatro até os nove anos de idade. Era uma peça de uma atriz e um ator que estavam se formando no magistério e resolveram fazer teatro para os alunos. Era um texto muito simples de uma patroa e um empregado doméstico. Uma coisa muito engraçada. E quando cheguei em casa, falei para minha mãe que tinha descoberto o que queria fazer teatro, quando crescesse. Minha mãe deu risada, porque isso era muito distante para meus pais. Eles são protestantes e nós fomos para Minas Gerais na Missão da Obra de Deus, nós fomos catequizar os habitantes de Taiobeiras.

Mas o Sertão mudou tudo, ter ido para lá e ter me apaixonado por Guimarães Rosa… Eu só faço teatro por conta do Sertão. Ser-Tão! É lindo isso e as manifestações culturais daquele lugar eram muito fortes. Na frente da minha casa, tinha uma barragem por onde passavam as lavadeiras. Eu via as lavadeiras todos os dias, passando para ir para barragem e, às vezes, ia até elas só para ouvir aquelas mulheres cantando. As procissões eram impressionantes. Os próprios velórios eram maravilhosos. Ver os homens de um lado, bebendo defunto, bebendo aquela pinguinha. Uma grande mistura com a tradição afrodescendente. Essas manifestações foram constantes dos nove aos 13 anos e eu fui inundado por aquilo.

Eu tinha odiado sair daqui e ir para o Sertão e, de repente, eu tinha me visto apaixonado por tudo aquilo, por aquelas pessoas, por aquele sotaque, por aquela prosódia. A cultura é o DNA de um povo. E o que você puder absorver de cultura, só vai te enriquecer. Aliás, a cultura é a única riqueza que quando é compartilhada, só aumenta. É uma pena que nossos governantes. Não só os governantes, as pessoas, porque as pessoas precisam se governar e parar de colocar tudo dentro dessa cultura judaico-cristã que é a de um pai protetor, onipresente e onipotente. A gente deve assumir a nossa responsabilidade. Mas é, realmente, uma pena que as pessoas não valorizem a cultura

Um comentário sobre “ALEXANDRE É DIFÍCIL

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s