DE ANDALUCÍA PARA A VIDA

Resumo: A história de vida de duas imigrantes espanholas, com quase 80 anos cada, na cidade de São Paulo. Suas histórias estão repletas de coincidências, da escolha dos maridos até a casa em que moraram. Hoje, ainda são companheiras, tendo superado juntas a miséria da ditadura franca, na Espanha, e o plano Collor, no Brasil.

Duas mulheres, uma mesma história. Trinidad Hidalgo Lopéz e Dolores Caro Caballero, ambas de 79 anos, são duas espanholas de sotaque e gênio forte, criadas no mesmo município de Fuentes de Andalucía, capital da província autônoma da Sevilha, casadas com os irmãos Ruiz García e, desde 1963, moradoras do bairro Vila Carrão, em São Paulo. Hoje, moram em casas separadas, mas os sobrados, colados um no outro, são ligados pelos fundos.

Vivendo de aluguéis e cada qual proprietária de um apartamento em São Vicente, as duas viúvas se revezam na cozinha em São Paulo, onde cada dia é uma a responsável por cozinhar. E fazem questão de cuidar de tudo e manter a independência, só não conseguem mais cuidar da faxina. Dolores, de dois filhos e três netos, mora sozinha e Trinidad, de dois filhos e cinco netos, mora só com uma neta.

Praticamente sozinhas, gostam mesmo é de gargalhar e conversar, numa espécie de jogral, onde uma começa a história e a outra termina. Trinidad começa contando que, naquele dia, havia caído no banheiro. No que Dolores, acrescenta que ela escorregara. Trinidad então retoma: “Chamei, chamei e ninguém vinha. Ainda bem que estavam, em casa, a neta dela e seu noivo para me levantarem”. Com malícia e alguns risos, Dolores comenta que “espanhol é ruim”, no que a outra completa: “É duro na queda!”.

Família Ruiz-imigrantes-espanha (6)

As esposas de procuração – Do lado direito, está Trinidad e, do outro, Dolores.

Com o sotaque muito presente na fala, Dolores brinca que “quando abro a boca, ninguém entende”, fala Trinidad. Assim, Dolores se recorda de um episódio cômico. Na fila de espera do médico, Trinidad conversava com uma mulher e, em determinado momento, o filho dessa mulher, disse: “Mamãe, essa senhora fala tudo errado”. Levando tudo  um pouco mais a sério, Trinidad se defende: “É como eu falo, a gente tem uma história, mas nem sempre dá para entender”. A própria neta de Trinidad, Thaissa, não a entendia quando era pequena e fazia  “nhé, nhé, nhé”, tentando imitar a avó.

TUDO FRANCO

Em 1936, o partido Republicano, ligado à Frente Popular e a grupos comunistas e anarquistas, ganhou as eleições ao Governo Espanhol, desencadeando o medo e o pânico dos setores conservadores da sociedade espanhola. O grupo derrotado na disputa eleitoral, representado pela Frente Nacionalista e liderada pelo general Francisco Franco, via ali uma ameaça de revolução comunista. Dois grupos, duas ideias antagônicas para uma mesma Espanha, desencadearam a Guerra Civil Espanhola.

Do lado dos nacionalistas, estavam os monarquistas, os latifundiários, o exército e a igreja católica. Já do lado dos republicanos concentravam-se os trabalhadores urbanos, os camponeses e os grupos políticos de esquerda. Derrotados pelas eleições, mas vencedores pelas armas e apoiados por Mussolini, os nacionalistas, o general Franco e seus milhares de militares colocaram fim à guerra e instauraram a ditadura franquista em 1939. Mesmo ano em que Trinidad Hidalgo Lopéz e Dolores Caro Caballero nasciam na cidade de Fuentes de Andalucía, distantes do epicentro de todo o conflito, mas capazes de sentirem seus reflexos.

“Na época da guerra, os espanhóis vieram muito para cá, como um irmão do meu marido”, lembra Trinidad de José Antônio Ruiz. “Porque o Franco era muito ruim, era como o Temer”, completa Dolores, “ele mandou matar o irmão por causa de política”. Ainda relembra Trinidad: “A nossa terra é uma terra abençoada. Quando chegava a hora de dar frutas, as frutas davam.  É uma terra boa de viver, mas Franco deixou numa miséria só”. Ainda mais para eles que eram todos pequenos agricultores, a família de Trinidad plantava azeitonas e a da sua amiga de vida, algodão.

Família Ruiz-imigrantes-espanha (4)

Os pequenas de Fuentes de Andalucía.

Mesmo com dificuldades, os primeiros anos foram tranquilos. As limitações não a impediram de aprender muito bem a bordar e costurar com suas mães. Quando sobrava tempo, iam para roça ajudar a família. Sempre que voltavam, suas mães já tinham preparado toda a refeição, mesmo que simples, como tortillas de batatas, migas com pães amanhecidos e sardinhas, lentilhas, feijão branco e batatas fritas.

Mas elas não queriam ser apenas donas de casa. Entre a cozinha e a caixa de costuras, Dolores ansiava por frequentar a escola e poder aprender. “Meu pai era um homem muito inteligente, mas ele não queria que eu fosse à escola. Então, fugia e ia com meu irmão. Naquela época, mulher não precisava ser instruída, mulher tinha que saber cozinhar, costurar”. Distantes desses sonhos emancipatórios, logo cedo começaram a namorar com dois irmãos do vilarejo, Manuel Ruiz García e José Antonio Ruiz García.

Os moços já eram conhecidos pelas duas garotas desde que nasceram. Dolores conta que “minha mãe e o pai do meu marido brincavam na rua juntos, o meu tio e o tio do meu marido moravam em frente um do outro”. Assim, ambas engataram em seus respectivos namoros por volta dos 14 anos. Mas a falta de emprego e de melhores condições de vida, distanciaram temporariamente os casais. Os namorados embarcarem para o Brasil, em busca de trabalho, de uma estabilidade para a futura família e ao encontro do irmão.

QUASE AQUI

Ainda na Espanha, distante dos futuros maridos, Trinidad e Dolores se casaram, cada qual com seu respectivo namorado, representado por dois tios deles,  via procuração. Os casamentos aconteceram, então, no mesmo dia e na mesma hora, em conjunto. E, assim, em 1963, com 23 anos, embarcaram rumo ao Brasil. Dolores fala que “o navio mais parecia um hotel. Tinha o nome de santo, São Roque ou São Sebastião”, mas já não tem mais certeza. Enquanto isso, Trinidad lembra da viagem de 12 dias, “quando chegamos, em Santos, já estavam, no porto, nossos maridos nos esperando e, de lá, nos levaram para São Paulo”, mais especificamente para o bairro Vila Carrão, de onde nunca mais se mudaram.

Família Ruiz-imigrantes-espanha (2)

Casa da família Ruiz García, na Vila Carrão.

O bairro hoje está muito mais bonito, segundo elas. Naquela época, não tinha asfalto e um córrego, que passava pela rua, era tapado por uma tábua. Dolores ainda acrescenta que “cada vez que chovia, não podíamos sair na rua. Tudo enchia d’água”. Mas, se em relação ao bairro a família enfrentava algumas dificuldades, na parte da alimentação não. Trinidad conta que “na Espanha, uma banana era caríssima! Quando nós chegamos e vimos aquelas peças de banana, íamos comer. Lá, era uma para cada um!”.

Nisso Dolores também concorda: “Aqui, as bananas eram tão baratas e tudo era tão barato! Até hoje eu sempre falo: ‘tenho orgulho do Brasil’! Sou espanhola, mas vim para o Brasil, quem quer trabalhar tem futuro”. E foi exatamente isso que aconteceu com elas, morando todos juntos por 18 anos. Dolores e o marido, logo, que se estabeleceram, encontraram um emprego. Primeiro, por dois meses, numa casa de família no bairro Chácara Flora, depois, por oito anos, na casa da família Safra, a mesma do banco, na Alameda Joaquim Eugênio Lima, próxima ao prédio da Gazeta. Ela como cozinheira e ele como copeiro. Lá, aprendeu a cozinhar tanto comida árabe quanto a brasileira e, principalmente, uma deliciosa feijoada.

Enquanto isso Trinidad foi trabalhar na fábrica de bolsas ecológicas, as Bolsas Triana, do seu marido, na Vila Carrão. A fábrica foi construída com a ajuda do irmão do marido que já estava aqui e a produção, nos primeiros anos, era vendida no varejo. Até que um comerciante do Ibirapuera, proprietário da loja Casa Viva, passou a comprar tudo o que produziam e, inclusive, com uma nova etiqueta. Quem terminou por se juntar na empreitada com a amiga, foi Dolores.   

“Nessa época em que as coisas iam bem, nós dávamos café para a rua inteira de tarde. Nós não éramos ricas, mas pão tinha, graças a Deus”, conta Trinidad com uma melancólica alegria. O irmão dos maridos, José Ruiz veio morar primeiro, era solteiro e tinha mais condição. Conta Dolores que “o primeiro telefone da rua foi o da nossa casa. O telefone era o telefone de recados do bairro inteiro. A primeira televisão colorida foi na nossa casa, então a rua inteira ia ver. À tarde, a molecada da rua estava lá vendo a televisão, parecia um orfanato”.

Família Ruiz-imigrantes-espanha (3)

Clique dos maridos Ruiz García – Do lado direito, está Manuel e, do outro, Antonio.

Ah! Essas tardes eram muito divertidas para Dolores, “aproveitávamos e servíamos um grande café. Eles comiam pão com manteiga e iam passando café com leite para todo mundo. Tinha bolacha, ainda se lembra?”. No que Trinidad responde se lembrar, sim, “tinha um que dizia que tudo era muito gostoso e que na casa dele não tinha nada daquilo”. Entre a criançada que ajudavam a criar, tinha os gêmeos e mais um filho da Dona Teresa, uma baiana do bairro que era empregada doméstica.

“Desses meninos, a gente lavava a roupa da mãe, das crianças e dava de comer. Eles não queriam ir embora, né? Tadinhos”, recorda Dolores. Sem nem terminar a frase, Trinidad já completa que “lavávamos a roupinha para a hora que sua mamãe chegava. Deixávamos a roupinha toda lavada e passadinha”. A vida da Teresa sempre foi muito difícil. As duas falam que “ela era preta e dizia que a bisavó foi mãe solteira, a avó mãe solteira, a mãe também mãe solteira, então tinha que casar virgem. E não é que casou?! Falava que nós éramos a mãe branca que nunca teve”.

Além de todo esse carinho, ela cozinhava muito bem. Era Teresa cozinhar uma sopa que já mandava para a casa das espanholas. O prato favorito feito pela baiana era a sopa de frango com um ovo em cima e muitos condimentos. Como conta Dolores, ninguém sabia deixar igual, é por isso que “sempre falo vivemos bem e trabalhamos bastante nessa terra. Graças a Deus!”.

NOVOS TEMPOS

Durante muito tempo, foram essas duas espanholas a maior alegria do bairro e muitos ainda lembram de como eram boas. Segundo Trinidad, “tem gente que acha que os espanhóis são chatos e ruins e tem gente que é, mas não somos assim”. Fizeram tantas amizades que ninguém queria que as duas se mudassem para uma outra rua da região, onde ergueram os dois sobrados em que moram hoje.

Família Ruiz-imigrantes-espanha (1)

Família Ruiz García, em São Vicente.

O dinheiro, para a construção das casas e de uma outra para aluguel, veio na época em que fecharam e venderam a fábrica Triana. Diz Dolores que “a fábrica acabou, quando entrou o Collor. Com o trabalho, não pagávamos nem o aluguel. Ganhar, não ganhávamos nada, então fechamos”. Nesse tempo nunca nem pensaram em voltar a morar na Espanha e isso porque retornam, praticamente, um ano sim e outro, não.

Dono de uma propriedade no país, o filho mais novo de Dolores, Joaquim Ruiz Caro, sempre fala  para a mãe: “Se pudesse levar tudo o que tenho para lá, ia. Mas vou pra lá pra passar necessidade?”. Mesmo após crises e recuperações, incluindo a do governo franco e a financeira de 2008, manter o padrão de vida da família é muito mais difícil. As duas espanholas deram conta do recado, mas na época quase não tinham o que perder. Até por isso, concluem: “A gente trabalhou, mas lutou e lutou e conseguimos alguma coisa, não é verdade?”.

É verdade, sim, pelo menos na vida das duas viúvas da Vila Carrão. O primeiro marido a partir foi o de Trinidad, em 2006, vítima de um infarto fulminante. O segundo fora o de Dolores, no ano de 2015, vítima também de um infarto. Mesmo sem os companheiros seguem acreditando, na vida, no país, enquanto aproveitam todos os feriados para viajar até São Vicente cada hora com um dos quatro filhos e oito netos.

Para ler escutando: “Flamenco Fiesta”, de Gipsy Rumba.

Anúncios

4 comentários sobre “DE ANDALUCÍA PARA A VIDA

  1. Tive a Sorte de conhecer a Sra.Trinidad,Sra.Dolores,e família.
    Eu era muito jovem,uma jovem menina,mas hj posso confessar,jamais conheci pessoas tão puras,boas,generosas,e integras em toda minha vida.Agradeço a Deus,por cada dia q passei ao lado delas!
    Renata Villar

    Curtir

  2. Hoje faço parte dessa família (sou a sogra da Dolores, esposa do Joaquim) e tive o prazer de conviver com os 2 patriarcas… pessoas fantásticas e insubstituíveis. Parabéns pela narrativa. Foi exatamente assim que ouvi das protagonistas essas histórias. Mulheres fortes que impressionam pela coragem e simplicidade.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s