Das oliveiras ao Vera Cruz

Com muita bacalhoada e despensa farta, a vida se faz tranquila para Maria do Rosário Caetano, uma portuguesa mirrada, vaidosa e magra, de 81 anos, dois filhos e três netos. Maria, que não pode ver um jardim, gosta mesmo é de cuidar da casa. Da casa do seu filho mais velho, em Santo Amaro, num condomínio fechado. Mas para tudo há limites e, aqui, é dormir até às nove horas, hora em que a empregada chega.

As pessoas implicam com ela e insistem que isto não é coisa para uma senhora de idade, mesmo assim, Maria vai ao Empório Rosa, na casa cerealista religiosamente. “Pego meu carrinho de mão, lá vou eu e volto no ônibus com ele cheio. Nem a artrose a impede de comprar tudo fresquinho. Granola, castanha do Pará, castanha de caju, grão de bico, feijão branco queijo brie, queijo branco e, às vezes, azeitonas.

UMA LAVRADORA

Oito graus e já era noite, quase não se enxergava mais, em uma longínqua terra cercada por oliveiras e lavradores, na cidade de Santarém. Ali, na região do Alentejo, em Portugal, homens subiam nas árvores e, com varinhas, derrubavam as azeitonas. Embaixo, mulheres apanhavam aquilo que era preto, verde escuro, mas que ficava branco na geada. Maria era uma dessas mulheres, vestida de saia e blusa de lã, com uma meia grossa até o joelho e um gorro, apanhando azeitonas e ganhando a vida como mulher desde os 12 anos.

Vincent Willem van Gogh 079

Plantação de oliveiras pelo pintor Vincent van Gogh // Crédito: Wikipédia

“Era um frio de doer até os ossos” e, quando os dedos já estavam duros, esses camponeses faziam uma fogueira e iam com as mãos em direção ao fogo. Estavam exaustos, exaustos da jornada que começava às quatro horas da manhã e do pão com carne, o almoço trazido de casa. E, se não fosse inverno, Maria e seus irmãos estavam também no campo, mas, dessa vez, com um largo chapéu de palha. Devia ser verão, época de ceifar os cereais, trigo e centeio, além de arrancar as ervas daninhas. Mas, isso já acontecia numa região muito mais próxima do sobrado da família, na pequena aldeia de São Pedro do Esteval, em Castelo Branco, na Beira Baixa.

A família ainda tinha que cuidar da própria propriedade. “Lá, cada um tinha seus pedaços de terra espelhados, não era tudo perto, como uma fazenda grande, mas também não tinha ninguém que não tivesse os seus meios para sobreviver”. E eles colhiam de tudo: batata, cebola, feijão, cereais, só não tinham arroz. Acabavam por vender o excedente do azeite que produziam para consumo próprio e, com dinheiro, compravam mercearias, roupa e adubo para aquelas terras, onde o solo era muito fraco.

A casa também era cercada por animais. Cabras, ovelhas, burros, cavalos, galinhas e, às vezes, coelhos. O pai de Maria costumava comprar bezerros para serem amansados e vendidos quando crescessem. Até o pão era feito por eles, desde a moagem do trigo, usando os moinhos do vilarejo, até o ato de assar a massa pronta, feita em grandes fornos comunitários. “Tudo era muito simples, a vida era prática”. A comida era uma sopa de caldo verde, batatas cozidas, carne de porco, de vez em quando, um coelho ou uma galinha e a carne de cabrito era reservada para festas, como festa do Bodo, festa religiosa à Nossa Senhora da Consolação, e aqueles dois dias deliciosos de baile com sanfoneiros.

Vincent van Gogh (1853-1890) - o moinho velho (1888)

Pintura de moinho por Vincent van Gogh (1888) // Crédito: Wikipédia

Ah! O bacalhau também era reservado à raras ocasiões. São Pedro do Esteval fica no interior, longe do mar, e o peixe, lá, chegava caro. “Mas quando a gente comprava, regava com muito azeite e comia com batata cozida, feito na água e sal”. Era tudo simples e até o bacalhau era diferente, bem mais prático do que aquele que Maria aprendeu a fazer anos mais tarde no Brasil.

O NOVO MUNDO

Desde pequena trabalhando, “minha mãe não teve tempo de me ensinar a cozinhar” e o que aprendeu foi na base de observação e, mais tarde, de alguns cursos. Aqui, Maria aprendeu a fazer aquele que hoje é seu tradicional prato, sozinha. Primeiro, cozinha o bacalhau e, na mesma água, coloca as fatias de batatas para aproveitar o caldo. O peixe é refogado com bastante cebola, pimentão, alho, temperos, pimenta e tomate. Depois, faz as camadas já na travessa: uma camada de molho no fundo da assadeira, uma de batata, outra de bacalhau e assim vai até preencher a assadeira. Por fim, leva ao forno. Não, por fim, reúne a família toda em volta da mesa de domingo.

Antes disso, Maria, que já foi Maria do Rosário Cardoso, antes de se casar, precisou chegar ao Brasil. Era 1958, época da ditadura Salazarista, quando a moça de 21 anos, desembarcava no país junto ao pai e ao irmão mais novo na última viagem do transatlântico Vera Cruz, famosa embarcação que um dia recebeu o presidente Getúlio Vargas e a esposa Darci Vargas numa recepção luxuosa em comemoração ao seu primeiro desembarque nas águas brasileira. Já a viagem dos Cardosos fora bem menos suntuosa.

Vincent van Gogh - Colheita em La Crau, com Montmajour em segundo plano

Colheita de Vincent van Gogh // Crédito: Wikipédia

Assim que chegaram, a família comprou um empório na rua José Maria Lisboa, entre a Pamplona e a Nove de Julho, no bairro dos Jardins. Lá, Maria trabalhava no balcão e pode reencontrar seu irmão mais velho que chegara sete anos antes, então com 14 anos. Além da família, o comércio português contava com mais dois empregados. Um dia, ninguém pode ir à feira na Alameda Lorena e, lá, foi ela buscar verduras que seriam revendidas no mercadinho. Foi o primeiro encontro com seu marido, João, também português, mas da Beira Alta. Aquele homem a faria Maria do Rosário Caetano.

João trabalhava na feira e, quando a viu, perguntou: ‘Patrícia, vem sempre aqui?’. Maria sem saber se era casado, solteiro, nada sobre ele, respondeu que viera só hoje e foi-se embora. Sua família era muito rígida nos costumes e já rejeitara até um pretendente para ela. Foi só no Brasil que comprou sua primeira calça, aos 22 anos, e mesmo assim seus irmãos não a deixaram sair com eles “daquele jeito”. Era uma moça romântica e apaixonada por fado, o tradicional estilo musical português, mas nunca a deixaram aprender a cantar e nem a dançar. Mesmo com todos esses inconvenientes, o jovem português insistira.

A lavadeira que cuidava das roupas do João, morava na mesma vila de casinhas portuguesas que Maria. Na primeira oportunidade, ele sempre tentava conversar, mas ela nunca correspondia. Até que um dia, Maria estava na varanda, desengataram a conversar e resolveram sair – claro que na companhia dos irmãos dela E, a partir daí, não teve mais volta, “começamos a conversar, namoramos e casamos. Tudo em um ano e meio”.

VIDA FEITA

João era dono de um restaurante na Haddock Lobo com a Oscar Freire e sempre que o cozinheiro faltava, era ele que se resolvia na cozinha. No meio dessa confusão de panelas, Maria não sabia cozinhar e sentia que precisava contar isso para ele. “Morria de vergonha até o dia em que conversamos e ele prometeu me ensinar, mas mesmo assim, eu precisava me garantir e acabei comprando o livro da Dona Benta antes de nos casarmos”. Maria relembra com saudades do marido falecido, do homem que ficava feliz com o simples – bastava um prato de sopa à noite, um ensopado de carne ou de frango com batata.

Vincent van Gogh (1853-1890) - The Olive Trees (1889)

Plantação de oliveiras por Vincent van Gogh (1889) // Crédito: Wikipédia

Quando o primeiro filho veio, ela nunca mais trabalhou fora de casa. Com mais tempo, pensou que seria uma boa hora para aprimorar seus dotes culinários. Fez vários cursos, um da Eletrobrás, em Pinheiros, outro de pães e doces na Paulista e mais dois no Itaim. Deve ter mais alguns dos quais já não se lembra. Hoje, vendo tantos programas de televisão pensa que poderia aprender uma comida mais refinada. “Se eu fosse mais nova, ia aprender direito, que eu gosto, mas agora, com essa idade, já não compensa”. De uma outra época, em que era mais disposta, também aprendeu a fazer crochê, tricô, costurar e até a bordar. Os bordados eram lindos e quem lhe ensinou foram três mulheres da Ilha da Madeira, outras patrícias.

Sobre a antiga pátria, Maria já a visitou algumas vezes, mas prefere Lisboa e as outras capitais europeias. Seu vilarejo permanece o mesmo, mas, agora, só os velhos, muito velhos, permanecem. Igual a ela, muitos jovens partiram e continuam a partir. De lá, ela trouxe uma corrente de ouro, bem grossa, que presenteou sua neta, e um paladar ligeiramente enjoado à azeitonas. “Eu trabalhei tanto naquelas terras que não quero mais saber” e dá uma bela de uma gargalhada, que se repete quando frisa o “não quero nem saber”.

Sugestão para escutar: o fado “Uma casa portuguesa”, de Amália Rodrigues.

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