Por que escrevo?

contra esse poema agora ñ posso +          no portal

a notícia já saiu do ar          o menino delicado

da Vila Kennedy já não está + lá          morreu d x

Há tempos já refletia sobre o porquê escrevia, mas foi numa entrevista por e-mail com o poeta e professor de literatura Horácio Costa, autor do verso acima, do poema “Nênia para o menino Alex André Moraes Soeiro, que passei a me questionar ainda mais sobre a relevância da poesia nos tempos de hoje. Mais ainda do que só a poesia, mas do texto em si, da palavra escrita, seja literária ou não, e do próprio ato da escrita na realidade brasileira.

Para começar, um a cada quatro brasileiros pode ser considerado analfabeto funcional. UM A CADA QUATRO, ou seja, pelo menos 25% dos brasileiros está num grupo que oscila entre os completamente iletrados e os capazes apenas de compreender textos simples e operações matemáticas igualmente simples. E somente 8% dos brasileiros, entre 15 e 64 anos, são capazes de se expressar e de compreender plenamente os elementos da nossa língua. Isso segundo os dados da última edição do estudo “Analfabetismo no Mundo do Trabalho”, divulgado em 2016, pela Instituto Paulo Montenegro e pela ONG Ação Educativa.

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Imagem da Pinacoteca de São Paulo.

Mesmo com a dificuldade de compreensão e de expressão formal, o brasileiro é um povo conectado, 66% da população vive conectado à internet. Tal porcentagem equivale a 139.1 milhões de pessoas que gastam, em média, nove horas por dia online, seja por meio de redes sociais, em portais de notícia ou assistindo vídeos, atividade essa a favorita dos conectados, segundo estudo de 2017 promovido pela agência We Are Social e pela plataforma Hootsuite.  Isso significa, que qualquer texto jornalístico ou não, precisa primeiro ultrapassar a barreira da educação e depois a do interesse para atingir seu objetivo, ser lido. Um desafio e tanto dentro do mundo da web que é também o das distrações e das efemeridades.

Em meio a esse fundo de tela cheio de abas abertas, pergunto qual a importância da poesia de Horácio, no que ele me responde: “Não me venha com essa merda populista, porra. Alguma importância terá a minha poesia porque vc está me entrevistando, certo?”. Corretíssimo, mas ainda sim uma questão válida. “O analfabetismo é terrível, mas não justifica, em si, o putativo silêncio”.  Sim, mas afinal por que se escreve, se ninguém ou quase ninguém lê?

STATUS: ANESTESIADXS

Posso dizer porque muitas vezes não escrevo. Hoje, pensei tanto antes de começar esse texto que quase desisti, por ter a certeza de que não há mais o que dizer e ninguém para escutar. É um lugar-comum, mas tudo já foi dito e, quando não o foi, já estamos muito saturados. Eu mesmo ando anestesiado, de tudo. O poema de Horácio, aquele que abre esse post, é normal, tido como mais uma triste história, mas só. Mesmo contando a terrível história de um menino com trejeitos femininos, assassinado pelo próprio pai, manchete em todos os sites, causa de alguns minutos de cólera e, por fim, esquecido na espera pela próxima tragédia.

O poeta, autor de “A Hora e a vez de Candy Darling, mesmo retrata esse descaso, essa falta de humanidade em nossa conversa online. “O mais impressionante, no caso do evento em questão, é que o li no site de O Estado de São Paulo, em uma madrugada insone e voltei para a cama. Não consegui conciliar o sono, o poema saiu, e depois quis conferir a notícia de novo. Já não estava lá. O poema tem um tempo diferente, certo?”

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Imagem da Pinacoteca de São Paulo.

Sei que esse é um exemplo brutal de como o volume da informação, de textos, consome a sensibilidade humana e da tilt em atos concretos. O máximo a ser feito é compartilhar a notícia com uma legenda de apoio ou não. Mas penso também em quantas séries não assisto só porque quero ocupar minha mente já saturada, fugir de reflexões. Na maioria das vezes, a tela me conforma, enquanto a leitura desforma e expande, mas exige meu esforço e minha concentração. E escrever então, exige tempo, espaço e entrega, sem garantias de retorno.

É como jornalista britânico George Orwell diz em “Por que escrevo?”, traduzido por Eduardo Castro, “escrever um livro é uma luta horrível e exaustante como um longo ataque de uma doença dolorosa”. No mesmo ensaio, Orwell define quais são os quatro motivos que levam alguém à escrita e a superar essas dificuldades inicias:

  1. Puro Egoísmo. Basicamente, ser recordado após a morte ou parecer inteligente;
  2. Entusiasmo Estético. Prazer no impacto de um som num outro, no ritmo de uma boa história, desejo de compartilhar uma história que não deve ser perdida;
  3. Impulso histórico. Desejo de ver as coisas tal como são, descobrir fatos e preservá-los para a posteridade;
  4. Propósito Político. Querer puxar o mundo para uma direção, alterar as ideais das outras pessoas.

E, sim, dificilmente, alguém escreve movido por apenas um deles, mas por sua mistura em diferentes gradações.

MAIS ALGUMAS COLOCAÇÕES

Talvez, o sacrifício valha a pena, só quem escreve o pode saber, e esse post não passe de uma longa justificativa e reflexão sobre mim mesmo.  Para nada servem nossos milhares de caracteres? É claro que não se pode e nem se deve cair na banalização de que o texto está morto. Não, não está, mas sem dúvidas ele vive encastelado. Distante de todos e até de mim. Fujo de textos complexos e extensos, fujo da minha assinatura da Piauí, fujo de títulos de séculos passados. Mas nem por isso, estão mortos.

Todos ainda guardam em si uma magia, algo difícil de ser entendido nesses tempos apressados. O problema é quando se foge dessa discussão e como bem recorda o nosso poeta Horácio: “Não se deve ter medo de pensar”. E não é porque um outro Horácio, o do Hamlet e do Shakespeare, dizia que “há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia”, que não devemos discutir sobre aquilo que nos entorna.

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Imagem do Parque da Luz.

Antônio Cândido, sociólogo e também professor, em seu “O Direito à Literatura”, reafirma o poder dela e que “… tem sido um instrumento poderoso de instrução e educação…  A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas”. Ela nos coloca frente a situações difíceis, sem respostas e é por isso que fugimos ou eu pelo menos, às vezes, fujo.

A literatura, o texto escrito e qualquer outra obra pode ser “o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do poder, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do amor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos à natureza, à sociedade e ao semelhante”.

Em suma, é aquilo que nos torna mais humanos. Sem mais por enquanto.

*Imagens da Pinacoteca de São Paulo e do Parque da Luz.

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