AQUILO QUE DEIXAMOS ACONTECER

RESUMO Há algum tempo, eu me perguntava como foi a adolescência e o começo da vida adulta de homens gays que hoje já passaram dos 60. O que eles viveram? Quais lugares eles frequentaram? Com quem eles se envolveram? E mais um monte de perguntas. É claro que não consegui responder todas, mas minha conversa com José Augusto rendeu algumas reflexões.

Formado em turismo, terapeuta, fotógrafo e proprietário de um restaurante no Vale do Paraíba, José Augusto, de 64 anos, de modo algum, permitiu-se parar, respirar e pensar sobre o porvir. “Eu nunca consegui me imaginar no futuro e isso nunca me preocupou, as coisas só foram acontecendo”. E muitas reviravoltas já aconteceram. Antes de tudo o que é hoje, no primeiro emprego, Augusto trabalhou com recursos humanos, depois, foi vendedor, mais tarde, atuou como bailarino profissional no grupo do J.C. Violla e, um dia, foi dono de uma loja de móveis e decoração nos Jardins, em São Paulo.

Foram tantos papéis que Augusto poderia ser também um ator, mas o mais próximo que chega da interpretação é quando se emociona diante da sétima arte. Em sua vida, o cinema sempre foi uma paixão, das grandes. E, enquanto, conversávamos, ele me contava que se desse tempo
[por causa da entrevista] ainda pegaria a sessão das 16:30 e iria assistir “A Garota Dinamarquesa”, que concorria ao Oscar naquele ano.

É assim que ele gosta de aproveitar seu tempo livre, já que, de quinta a domingo, Augusto regressa para o Vale, lugar onde nasceu, para trabalhar no restaurante da família. Estabelecimento esse que começou sua história, lá atrás, com seus bisavôs, quando ainda era uma padaria, e, hoje, está na quarta geração, indo para uma quinta com seu sobrinho, que é chefe de cozinha. Mas esta não é a única história que as quatro paredes do negócio guardam.

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Augusto num momento de descontração, provavelmente, rindo de alguma boa história.

HÁ MUITO TEMPO

O menino Augusto, com seus 12 anos, viu algo que o assustou, ao mesmo tempo, que o instigou. Estava na padaria da sua família, quando no banheiro, olhou para as pias, as cabines e, ali, nos mictórios, viu dois homens se beijarem, sem constrangimentos. Era um jovem soldado, estudante da aeronáutica, de vestes militares, com outro homem, mais velho. Esse segundo era bonito e charmoso. Era a primeira vez que ele via um beijo, os toques e as carícias entre dois iguais. Isso em meados de 1966, o mesmo ano em que o Luís Carlos Prestes foi condenado a 14 anos de prisão, o marechal do exército Artur da Costa e Silva foi eleito presidente e o Pelé se casou com Rosemeri dos Reis Cholbi.

Depois de uma cena de fôlego como essa, era de se pensar que a cidadezinha do Vale do Paraíba fosse libertária, contestadora, mas não. Aquele lugar não ia na contramão da cultura da época, da atmosfera de censura, que seria ainda mais letal dois anos depois com o AI-5. Aquilo era escondido, aquilo se passou num banheiro masculino, aquilo nunca foi público. Augusto também se recorda de dois amigos de seus pais e “o que eu ouvia falar dos dois, era que os dois eram viados”. Embora fossem dois, não eram um casal. Um fazia bolos de casamento sob encomenda e era afeminado, enquanto o outro, fardas para alunos que ingressavam na aeronáutica e festas para esses mesmos soldados em começo de carreira. Um absurdo!

Longe dessas histórias, Augusto gostava de brincar de bonecas com a irmã e tinha pavor à futebol. Mais do que isso, ele tinha terror só em ouvir o nome Corinthians, time de coração do seu pai. Do seu pai, que escutava todos os jogos do timão num rádio, radinho de pilha, e tinha aquele som que ecoava pela casa toda. “Não, nunca suportei isso, eu ficava muito isolado, desenhando, pintando, escrevendo, lendo”, recorda com certo alívio. E como manda o clichê, nunca foi bom em matemática, física, química, biologia. O que compensava em português, inglês, literatura, estudos sociais, história e geografia. Todas as preferidas das garotas.

 

OUTROS CAMINHOS

Ah! Desde pequeno, Augusto também era um amante dos ritmos tropicais e a música e a dança o encantavam, todas paixões herdadas de sua mãe, Elza. Inclusive, foi ela quem o ensinou a dançar tango, bolero e samba. Talento esse que, mais tarde, ele aperfeiçoaria profissionalmente ao lado de J.C. Violla. Mas antes disso, ele compartilharia outros três grandes amores com a mãe, que falecera precocemente aos 50 anos, a cidade de São Paulo, o cinema e o teatro.

Como sempre moraram distantes dos grandes centros, São Paulo era a Meca dos dois.  O sagrado da cidade estava na possibilidade de novas vivências e histórias, como uma peregrinação necessária. Ou ainda poderia ser a Babilônia, movida pelo caos de possibilidades e pela enorme confluência de novos pensamentos e culturas, completamente diferente do dia a dia solitário de Augusto e da mesmice rotineira da mãe. Em casa, Elza era uma mulher infeliz. “Aquele casamento, quatro filhos, o marido que trabalhava o dia todo. Aquela vidinha que para ele estava bom, mas não para minha mãe que sempre foi uma mulher que quis muito da vida”. Aí, entrava São Paulo e o filho que a acompanhava em tudo.

O teatro foi também ela quem lhe apresentou. E confessa que, às vezes, ela o levava escondido mesmo, porque a idade ainda não permitia, assistir ao musical “Hair”, por exemplo. Peça sobre os hippies americanos, que trazia no elenco nomes como Ney Latorraca, Sonia Braga e Antônio Fagundes, em 1969, no bairro do Bixiga. Era a mesma sensação libertadora que tinha, quando mais tarde foi assistir os Dzi Croquetes. No palco, eram sempre novos sonhos que poderiam ser sonhados.

E mais uma enxurrada de fantasias e devaneios vinham das telas do cinema, parada obrigatória nas expedições com a mãe para “o lugar onde as coisas aconteciam”. Ali, havia também o desejo e a tentação, já que Augusto conta que, quando criança, era fascinado por filmes épicos, da época greco-romana, do tipo “David e Golias” e “Gladiador”. “Talvez, eu me interessasse pelo aspecto de virilidade daqueles homens, daqueles lutadores, meio com as pernas de fora, dorsos nus, braços fortes”.

 

CUPIDO DO AMOR

A mãe sempre foi uma mulher avant garde, alguém apaixonada pelas artes e, como não poderia ser diferente, seus amigos também eram. Se não todos, alguns, sim, como o dramaturgo, jornalista e produtor cultural, José Saffioti Filho. Ele que se mudara para a pequena cidade, por dois anos, enquanto desenvolvia alguns projetos para um centro cultural. Nesse meio tempo, até Augusto se tornou seu amigo e, por ele, desenvolveu uma pequena paixão platônica, daquelas não levam a lugar nenhum e acabam em nada.

Mas, aos finais de semana, Saffioti costumava receber alguns amigos de São Paulo. E entre eles um cara, em especial, Carlos. Nessa época, Augusto tinha 17 anos e, Carlos, 28. Foi um encontro rápido, uma grande afinidade e a primeira paixão consumada, porque, aqui, não se pode e nem se deve contar os outros dois casos que ele teve com garotas, que foram muito mais uma forma de se provar como homem, do que amor verdadeiro. Mas essa história foi tão gostosa, quanto traumática.

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Augusto aproveitando a noite com amigos.

Quando Augusto foi prestar vestibular de turismo, em São Paulo, ele contava os dias para ser aprovado e mudar-se para a cidade. O final de semana da prova também prometia surpresas tão boas quanto, seria um tempo a sós com Carlos. Assim que terminou a avaliação, foi para o apartamento do amante, na Bela Cintra. Mas naquela tarde, invés de viverem os prazeres do amor, ele viveu o desencanto do abandono.

Carlos terminara com o seu garoto. “Ele disse que gostava de mim, que eu era um cara muito legal, mas que nossa diferença de idade era muito grande. Eu estava começando a minha vida, enquanto ele já era um cara mais velho, mais experiente e que não via futuro na gente. Então, era melhor que fossemos só amigos. Aí, eu só consegui falar: ‘Tá bom’ e vir embora”.

Sem outros planos, Augusto conta que pegou o primeiro ônibus de volta para sua cidade, arrasado. Logo que chegou, foi procurar consolo com o Safiotti, mas encontrou apenas mais desilusão. O dramaturgo não economizou nas palavras: “Isso é para você aprender, os gays são assim mesmo. E vou falar a verdade, tudo isso que o Carlos te falou é papagaiada, na verdade, apareceu um outro cara e ele tá junto dele. Isso é para você ficar sabendo que é assim mesmo”. Ele que já estava acabado, ficou ainda pior com o segundo baque.

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Só mais um retrato, …

MUDANÇA

Com ou sem Carlos, Augusto se mudaria para São Paulo, a mesma cidade em que Ele morava, e foi o que aconteceu. Se existia alguma parte positiva nessa história, era que sem as redes sociais e os smartphones, dificilmente, sabia-se o que alguém estava fazendo, após deixar nossa vida. Faltavam ainda 31 anos para Marck Zuckemberg desenvolver o Facebook e muito mais tempo para surgir o Instagram e o Whatsapp. Mas, em 1973, ainda se podia ser surpreendido pelo acaso e foi, exatamente, isso que aconteceu. O acaso se deu num cinema que trazia, em cartaz, filme “Toda nudez será castigada”, dirigido por Arnaldo Jabor. Naquele último dia do filme nas salas de cinema, antes da censura. Lá, Carlos e Augusto se reencontraram e também reataram, num novo começo, no qual viveram juntos por mais nove anos.

São Paulo foi um marco e não só por causa da história de amor. “Sempre quis essa cidade, era uma chance de sair do mundo familiar, ter uma vida mais livre, por conta própria, viver sem o julgo de uma sociedade mais repressiva, como era uma cidade do interior”. Assim, Augusto já nem voltava mais para a casa dos pais. Enquanto seu irmão, que tinha chegado alguns meses depois, voltava todo final de semana.  Ele lembra que, nessa época, rompeu mesmo com sua família e nem com o irmão quis morar.

Augusto e Carlos foram morar juntos. Na verdade, em quatro, porque o seu namorado, por sua vez, já morava com um amigo, que também morava com o próprio companheiro. Era, praticamente, uma cirando, mas a casa era grande e espaçosa. Ficava em Pinheiros, numa travessa da Cardeal Arcoverde. Depois, os dois, sozinhos, foram morar no Sumaré, nos fundos de uma casa da tia de Carlos, por três anos. Em seguida, alugaram um sobrado no Bixiga, na rua Ruy Barbosa, do ator Jonas Bloch. O casal ficou, ali, naquela casa com dois abacateiros por uns quatro anos.

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As amizades feitas em São Paulo.

VIDA GAY

Na época, tanto Carlos quanto Augusto trabalhavam. Com o detalhe de que Augusto ainda fazia faculdade e, por isso, mudou de período, indo para a turma do noturno. O que tinham mesmo de tempo livre eram os finais de semana e nesses gostavam de viajar. Foram muito para o Rio e passaram alguns carnavais lá. Inclusive, desfilaram na Portela, na Beija-Flor e na Império Serrano.

Sem nunca gostar muito de baladas, Augusto foi, em algumas (muitas noites), acompanhado de seu namorado. Os dois frequentaram muito à Medieval, uma boate na Augusta, quase na esquina com a Paulista. Essa era, se não a primeira, uma das primeiras casas gays de São Paulo. Do lado de fora, um porteiro esperava quem chegasse para abrir a porta, “mas você tinha que entrar meio escondido, meio que rápido. Não era uma coisa muito tranquila, era o começo dos anos 70”. E, por dentro, o espaço era muito fechado e escuro, com um aspecto de catacumba. Havia também uma sala bem grande com um palco, onde se apresentavam travestis.  

Uma das festas mais famosas, na Medieval, se chamava “A Noite da Broadway” e, nesses dias, o constrangimento minguava e era puro luxo. Fechava-se o primeiro trecho da Augusta. Artistas, gente famosa, vinham para a festa e chegavam de Rolls-Royce. Augusto lembra, às gargalhadas, uma vez, quando a atriz Wilza Carla chegou em cima de um elefante. Ainda rindo, “tinha essa gente louquíssima que frequentava o espaço e isso era uma delícia”.

Depois, surgiram muitas outras casas noturnas, várias que abriram e fecharam. Uma, na Faria Lima, chamava-se Colorido. Outra, na travessa da Consolação, na qual que o Patrício Bisso fazia shows. “Você nem sabe quem é ele, né?! Ele é um ator argentino que morou muitos anos em São Paulo. Era também maquiador e fazia performances travestido. Além de cantar, dançar, …”. E, dessa fase, ainda se recorda do HomoSapiens, onde é, hoje, o ABC bailão.

“Era um tempo bom. Uma vida de casalzinho, gostoso, com nossos programas. Tínhamos cachorro, plantas, uma vida bem convencional”. Ali, ele, praticamente, iniciava a sua vida (e também a vida gay) num relacionamento estável. E, depois de Carlos, Augusto nunca mais teve um relacionamento tão íntimo e tão longo. “Eu tive algumas tentativas, quis, mas nunca mais engatou de uma maneira que tivesse tempo para construir algo junto, como construímos”. Vivemos, vivemos bem até porque “o mundo que frequentávamos não tinha preconceito”. Mas isso não significa que tudo acabou ali, Augusto ainda roteirizou e roteiriza muitas histórias, mesmo sem fazer previsões sobre o futuro 

 

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