ROQUEIRO EM RISCO DE EXTINÇÃO

Paulão de Carvalho é o tipo de cara que desperta paixões, de amor ou de ódio. A frente da banda Velhas Virgens há mais de 30 anos, seu nome é conhecido, mas nem sempre pelas boas referências. Se por um lado, ele se apresentou no festival Lollapalooza e encontrou repercussão num público mais jovem, por outro, já teve uma música rejeitada pela Rita Lee, porque nas palavras da própria: “Essa não dá, eu sou uma senhora”, além de algumas acusações de machismo.

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Foto: Facebook Velhas Virgens, de Rogério Bezerra.

Muita coisa já aconteceu na vida de Paulão, justo com ele que dispara que se “Antes era a ditadura militar responsável por barrar determinadas músicas e composições, hoje, quem faz é censura social”.  E, em função dessa fama bem construída de banda maldita, “Já aconteceu da gente tocar em um concurso de beleza, em Minas, e os pais exigiram que colocassem uma barreira de segurança dentro do vestiário para que as meninas ficassem de um lado e nós de outro. Os pais tinham medo que acontecesse alguma coisa”. Outra vez, uma juíza proibiu que o nome do grupo fosse divulgado na rádio. O anúncio era “Hoje tem show da banda das Velhas piiiiiiiiiiiii”, porque falar virgens, ali, era um desrespeito.

De um lado, são acusados de obscenos, do outro lado, de machistas e, no meio, ficam os legítimos fãs das Velhas Virgens. Fãs de músicas como “Abre Sua Pernas”, de 1997, aquela da letra rejeitada pela Rita Lee. A canção fala sobre o jogo entre uma garota de programa e seu cliente sobre irem ou não para à cama.  Com direito ao seguinte diálogo, depois de muito negociação, “Benzinho, você sabe. Eu te amo tanto” e a seca resposta “Sabia desde o começo, só faltava acertar quanto”.

A pegada subversiva (ou machista) é a mesma de outras músicas que também inspiraram o grupo, como Raul Seixas em “Rock das Aranhas”, Camisa de Vênus em “Silvia” e Ultraje a Rigor em “Filho da Puta”. E, em sua defesa, Paulão admite que “As mulheres são mais inteligentes e divertidas do que se imagina. E mais do que tudo, eu diria que a maioria das mulheres têm algum homem na vida delas, cuja as coisas que a gente descreve nas letras tenha a ver com a realidade”. Por isso, ele defende suas criações e considera até uma atitude muito mais honesta falar como as coisas de fato são. Até porque uma “banda de rock não faz mais mal a ninguém. Viramos todos criancinhas perto do funk”.

SEGUNDAS

INTENÇÕES

Em nossa entrevista, Paulão se divertia recontando suas histórias até que seu telefone toca. Pediu licença e começa a falar sobre o nem tão novo empreendimento deles, cervejas artesanais. É costume da banda negociar as vendas da bebida, quando fazem shows. Aí, ele assume seu lado responsável, de homem de negócios. E, enquanto ele conversava, reparei mais na sala em que estávamos. Embora, leve uma vida nas estradas e em turnês, Paulo tem também uma vida, digamos, tradicional, repleta de obrigações, sobriedades e horários fixos. É formado em Rádio e TV pela FAAP e é diretor de redação do programa Domingo Legal, no SBT, onde nos encontramos.

Para quem é reconhecido pela má fama, o único elemento que me fazia pensar que aquele homem na minha frente era um cantor de rock, além das roupas pretas num dia de Sol, era um quadro de madeira com imagens e frases atrás de sua mesa.  Escritos como “As mulheres são como traduções: as boas não são fiéis e as fiéis não são boas” ou “Os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente e pela mesma razão”. Além de fotos de shows dele tocando, uma fotografia em que usava uma cabine de banheiro ou ainda uma em que fazia gestos obscenos. E, no meio disso tudo, três fotos de uma mesma criança.

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Foto: Facebook Velhas Virgens, de Cauê Andruskevicius.

Maria Júlia, de 7 anos. “Já sei o que vai falar, que eu tô pagando todos os meus pecados tendo uma filha mulher, mas o maior sonho da minha vida sempre foi ser pai de uma menina”. E quando chegamos a esse assunto, seus olhos brilhavam e se tornava, de fato, um pai coruja.  Paulo confessa que nunca conseguiu entender sua mãe, não entende sua mulher e, provavelmente, não entenderá sua filha, mas que era um apaixonado pela universo das mulheres, mesmo tendo levado quase dez anos para levar sua mulher até o altar. Delas é uma das únicas coisas que ele nunca desistiu e nem pretende.

“Eu só quero estar aqui daqui a 15 anos ao lado da minha filha e, se um dia ela precisar de um ombro para chorar, como eu já precisei, ela vai ter seu pai”. Com o clima que se desenrolava, uma pergunta precisava ser feita. “Qual conselho eu daria para a minha filha, se um dia ela encontrasse uma banda que nem as Velhas Virgens? É provável que você se divirta muito, mas use, por favor, camisinha. E cuidado para não se apaixonar pelo vocalista, porque geralmente atrás de todo clown, de um palhaço, sempre existe um sujeito com o coração magoado e solitário, precisando de carinho”.

SONHO DE

ROCKSTAR

“Ahh.. Dos anos oitenta para trás todo moleque, no mundo inteiro, queria montar uma banda de rock. Hoje em dia, eu já não tenho mais certeza, mas eu cresci ouvindo rock and roll e querendo ser rockstar”. Paulo, o mais novo de quatro irmãos, escutava, desde cedo, em casa Creedence, Beatles e Rolling Stones. E quando teve a chance foi aprender a tocar um instrumento com um amigo de infância, o Rick.

Movidos pelos desejos e pirações da juventude, eles queriam montar uma banda, mas não faziam a menor de ideia de como começar e nem como tocar. A princípio, Paulo, com 19 anos, ia aprender a tocar guitarra-base e o amigo guitarra-solo, em 84. Mas todos os planos mudaram, quando pegaram o dinheiro economizado para as aulas, e foram assistir o primeiro Rock in Rio, em 85.  

Essa foi uma experiência catártica para os garotos. Em 83, já tinham ido ao show do Kiss e, agora, era Queen, Iron Maiden, a noite do Heavy Metal, Rod Stewart, Yes, Paralamas do Sucesso, Alceu Valença, … “Isso tudo mexeu com a nossa cabeça de um jeito e, quando voltamos, estávamos ainda mais a fim de montar a banda. O Rick foi ser baterista e eu, baixista”.

Ainda na escola de música, eles conhecerem o Cavalo, que também entrou para a banda, e foi o primeiro guitarrista. “A gente tava aprendendo a tocar e não sabia fazer muita coisa da vida”. Como era muito difícil, faltava até a habilidade de tocar e cantar ao mesmo tempo, então, Paulo convidou também seu irmão para ser o vocalista.

E foi assim, de forma descompromissada e sem muitas pretensões, que a Velhas Virgens foi fundada em 1986. “Eu lembro que um dos primeiros ensaios que fizemos, passamos umas 4 horas tocando So Loonely, do The Police, que era única música  que a gente sabia tocar em conjunto”.

Era uma época em que eles se permitiam muito, como se algum dia eles deixaram de se permitir. Paulo levanta a manga da camiseta e mostra sua tatuagem. É o símbolo do grupo e explica que “na verdade, a cerveja começou antes de tudo. O logo da nossa banda, que tem mais de 30 anos, são duas cervejas transando. O que exprime dois desejos que a gente tem, um é sexo e o outro é a cerveja, beber, a boemia, a noitada..”Já o nome, veio de um filme do Mazzaropi, de 79, A Banda das Velhas Virgens. “Lembro de ter visto um cartaz e pensar: ‘Putz, isso não é nome de um filme, é nome de uma banda’”.

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O icônico logo da banda Velhas Virgens.

O filme, que é uma grande comédia, começa com uma pequena multidão de senhoras, vestidas de branco, véu e grinalda, como noivas, que tocam pela cidade, na respeitada Banda das Velhas Virgens. O padre, relembrando os tempos áureos, nota que o número de musicistas não parava de diminuir. Então, o maestro aconselha sobre o único jeito da banda voltar a crescer, “Só se o senhor fizer uma campanha de purificação, porque a pureza tá dura, doutor! Tem, tem muita gente boa, mas boa que nem o vigário quer não tem, porque ele quer gente boa demais. Cê quer que eu fale rasgado, o português, claro mesmo? Se o senhor não mudar o regime, vai acabar a banda mesmo, onde é que eu vou buscar tanta veia virgem?”.

A cena é tão irreverente quanto a banda do underground brasileiro e, por causa desse espírito transgressor, Paulo quase se afastou de vez da banda. Depois dos 50, o vocalista conta que se perguntava se conquistara tudo o que eu queria. O problema foi começar a achar que não e, assim, caiu em depressão. Ele pensava:“Eu tô me iludindo que tenho uma banda, essa banda já acabou. Tive medo de transformar o discurso das Velhas Virgens em uma coisa muito deprimida e parecer um velhote querendo ser eternamente jovem, dando conselho para a molecada”.

Isso não! Nunca! Jamais! Foi preciso, então, a ajuda da família, da banda, dos fãs. Assim, essas incertezas e inseguranças ficaram no passado e, hoje, Paulo pondera que “Se eu não consegui fazer tudo o que eu queria, pelo menos isso, aqui, é muito legal. Eu posso simplesmente curtir, ser eu mesmo, subir no palco, tocar minhas músicas”. Mas ainda falta realizar um velho sonho, megalomaníaco até, de quando ele entrava pela primeira vez no Rock in Rio, onde “Eu olhei para aquilo tudo e disse que algum dia tocaria naquela porra toda” 

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