Fabián e Caos – Pedro Juan Gutiérrez

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Livro Fabián e o Caos, de Pedro Juan Gutiérrez, sela Alfaguara, pela Companhia das Letras.

Se aberto ao acaso, as primeiras 50 páginas do livro “Fabián e o Caos”, de Pedro Juan Gutiérrez, revelam o cotidiano de uma família classe média. É uma história poderia se passar em qualquer lugar. Quis a sorte, no entanto, que Lúcia e Felipe, dois espanhóis, imigrassem para uma Cuba pré-revolucionária, cheios de esperanças. De uma vida melhor, de um lugar mais próspero, de oportunidades para ganharem dinheiro. Já até circulava pelo imaginário do casal as histórias de um tio que enriquecera no novo país.

Assim que chegaram, em Pueblo Nuevo, Felipe foi trabalhar na loja de móveis do tio, que mais tarde seria sua. Enquanto Lúcia vivia uma pacata rotina de dona de casa, sem grandes sobressaltos maiores que a expectativa pelo próximo capítulo de sua radionovela favorita. Mas, certo dia, ela resolveu que tocaria, voluntariamente, piano para crianças em uma escola do bairro. E, dessa forma, os dois viveram por muitos anos. Quando Fabián, um dos protagonistas do livro, nascera ambos já tinham mais de 40 anos e a revolução ainda não chegara. Só, em janeiro de 1959, os rebeldes do Movimento 26 de Julho, liderados por Fidel Castro, marchavam rumo a Havana. Desconectados da realidade, Lúcia e Felipe discutiam com desdém sobre as notícias que escutavam no rádio.

“Tudo isso é uma comédia. Não acredite em nadado que os políticos dizem. Os cubanos são muito atrapalhados. Tenho certeza: isso é  uma comédia. Daqui a alguns dias tudo  volta a ser como era. Você vai ver. Não acho que seja comédia.  Eles são muito impetuosos. E parece que são soldados, não? Estão armados. Não, nada disso. Você não tem mais que ouvir rádio. As mulheres devem ficar longe de tudo isso. Concentre-se no seu filho, na casa, no seu piano e na creche. Essa é sua vida. Eu lhe dou tudo de mão beijada, você tem sorte. Muita sorte”.

Mas já adianto que a questão política está em segundo plano e o que escrevi sobre os acontecimentos já é mais do que o livro narra. Ali, o foco de Gutiérrez são as consequências desse período na vida dos seus protagonistas, Fabián e Pedro Juan. Parabéns! É isso mesmo que você está pensando, se acompanhou direitinho o meu texto. A obra é um relato biográfico de uma das figuras que cruzou a vida do autor ou como ele mesmo pontua: “um amigo querido”.

Pedro Juan Gutiérrez explora há tempos suas memórias e as experiências que teve com o regime castrista, incluindo elementos ficcionais. O autor cubano também escreveu Trilogia suja de Havana, O rei de Havana, Animal tropical e, hoje, se dedica à poesia e à pintura. Aqui, outro detalhe importante, o escritor continua morando em Havana, agora, em uma cobertura. Mas, antes disso, ele foi vendedor de sorvete e de jornal, instrutor de caiaque, boia-fria, soldado.

Nos tempos de sua juventude, a época em que se passa a história, Pedro Juan era um inconformado. “Meus inimigos eram a família, o governo, a religião. Nessa ordem. Mas na vida real era impossível me livrar da família e muito difícil, quase impossível, escapar das medidas de ordem e de controle do governo que se autodenominava ditadura do proletariado. Mas me livrar da religião era mais fácil. Em última instância, esses três poderes tinham propostas repressivas que fodiam minha vida”.

Esse espírito rebelde e essa incapacidade de aceitar as regras poderiam ser, facilmente, aceitos em qualquer outro lugar como um momento, parte da juventude. Mas, ali, Pedro Juan era um típico vagabundo, um desvio ideológico para a revolução. Seu desejo pelo sexo fugaz e sua vontade de ser livre não era compatíveis à campanha de decência que o governo cubano instaurara, em 1960.

Outro que não se encaixava nas novas diretrizes do regime era o filho do casal Lúcia e Felipe, mas não pela voracidade e brutalidade de Pedro Juan. Fabián era seu oposto. Magro, frágil, míope, baixo, tocava piano e, pior de tudo, homossexual. As perseguições políticas e morais impostas a eles, os fizeram amigos, grandes amigos. E essa inusitada relação é descrita ao longo do livro, numa mensagem triste, no entanto verdadeira, de que, nem sempre, podemos conquistar tudo o que queremos.

Comentário Final: Um Bukowski dos trópicos para ninguém botar defeito. Além do design de Daniel Trench, que faz do livro aquele típico exemplar, que depois de lido, é exposto, rs.  Excelente edição da Companhia das Letras pelo selo Alfaguara.

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