Um mergulho no desespero – Rafael Gallo

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Músico por formação e escritor por vocação, Rafael Gallo revela detalhes do processo de escrita de seu romance “Rebentar”, pelo qual ganhou o  título de Melhor Livro do Ano, na categoria autor estreante com menos de 40 anos, pelo Prêmio São Paulo de Literatura. O aclamado livro conta a história de uma mãe com um filho desaparecido e foi esse seu primeiro romance, mas seu segundo livro. Já o inaugural foi “Réveillon e outros dias”, uma coletânea de contos, também premiado, só que pelo prêmio Sesc de Literatura de 2011/2012 e foi também finalista do Prêmio Jabuti 2013.

Para quem não se ateve ao detalhe da categoria na qual foi premiado, posso repetir que ele é jovem, ainda muito jovem com seus 35 anos e uma fala leve. Por mais que possa parecer inofensivo, ele não teme mergulhos profundos na psique humana, como o desespero de mães, cujos filhos desapareceram. É esse o enredo de seu livro “Rebentar”. Ângela, a protagonista, perdeu seu filho, Felipe, aos 5 anos e, durante 30 anos, guardou esperanças de ele voltar aos seus braços. Sempre atrás de qualquer pista sobre o seu destino e disposta a verificar qualquer possibilidade de um reencontro. Até que ela, como as águas que batem num rochedo, resolve rebentar com as memórias de seu passado e seguir em frente. E, garanto, que acompanhar essa trajetória de desapego é denso, pesado, mas libertador.

“Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente, eu sei que vou te amar”

Não poderia começar com uma das perguntas mias inquietantes sobre esse trabalho, como foi o processo de pesquisa para o livro Rebentar?

Foi bastante intenso e eu confesso que nem sou um cara de tanta pesquisa assim. Eu não gosto muito, mas para o Rebentar, precisei. Ia escrever sobre uma mãe que tem um filho desaparecido e esse é um universo que eu desconheço. Eu nunca passei por isso e ele tem muitas nuances que a gente não percebe. Sabe mais ou menos o que acontece, mas quando pensa nos detalhes da vida da pessoa não dá para imaginar exatamente. Primeiro, veio a parte biográfica tanto de experiências reais de quem perdeu seus filhos e escreverem a respeito, quanto textos acadêmicos de pessoas que trabalham com isso, principalmente na área de psicologia. E uma outra parte até mais importante, mais rica, que foi de conversar com as mães de filhos desaparecidos e pessoas que trabalham diretamente com essas histórias de amparo a essas famílias.

E o que você descobriu nessas entrevistas?

São pequenos detalhes que você descobre, quando se conversa com uma mãe, uma pessoa que vive aquilo. Elas contam suas histórias e você pensa “Caramba, tinha pensado nisso também, mas isso pode ter uma carga emocional maior”. Lembro de uma mãe que me contou sobre o reconhecimento digital, que é uma simulação fotográfica de como a pessoa estaria hoje. Eu pensava que deveria ser estranho, a mãe perder o filho e ver ele muito mais velho. Essa mãe me mostrou a foto da filha desaparecida aos 12 anos e uma outra foto, de 25 anos depois, feita por meio de uma simulação. Eu vi. Em uma, era uma menina pré-adolescente, de batom, mas com aquele olhão e a carinha de criança. A outra era uma mulher, mulher mesmo. Com ombros largos e uma cara larga, fechada e nervosa. Era agressiva até. Foi chocante só de ver e eu olhei para ela e perguntei como tinha sido ver aquilo. Ela me disse que foi uma depressão que só era comparável ao que sentiu quando a filha desapareceu. Ali ela tinha perdido a filha de novo. Racionalmente, você sabe que ela envelheceu, mas, emocionalmente, você espera como se ela tivesse esticado, mas tivesse ainda uma cara muito parecida. E não, você vê uma fisionomia completamente diferente e se toca que aquilo que você estava procurando não existe mais.  Então, voltei para o livro e aumentei bastante a carga desse momento.

rebentar-reveillon-contos

O romance Rebentar. Ao lado, o livro de contos: Réveillon e outros dias.

E, ao falar com essas mães, você chegou à alguma parecida com a personagem do livro?

Não, mas isso foi curioso. Uma das mães que eu entrevistei, conversou muito comigo e abriu parte da sua vida para mim. Aí eu que não contava que minha história era de uma mãe que parava de buscar, entrei nesse assunto. Eu imaginava que isso chocaria uma mãe, até porque essa busca é muito sagrada. Só que acabei perguntando se ela já tinha ouvido falar de alguma mãe, que depois de muitos anos, decidiu encerrar as buscas pelo filho. Ela comentou, sem se lembrar de muitos detalhes, de uma mãe que depois de 20, 30 anos, foi seguir a própria vida. Eu fiquei me coçando atrás dessa, mas não fui, cara. Caramba, era uma personagem igual a minha. No meu livro, a Ângela, a mãe, queria se desligar desse mundo, fechar esse ciclo. Então, imaginei que essa mulher decidiu a mesma coisa. Bom, se ela escolheu não buscar mais o filho, eu acho que ela não quer que a ONG passe o telefone dela para um escritor. Eu respeitei a decisão e acredito que a ficção tem muito disso. A ficção te coloca em contato com uma vida totalmente diferente da sua, mas para você poder compreender aquilo. E foi engraçado, porque aí não foi o leitor, mas foi o escritor que teve de entender. Escrever essa história me fez entender essa mulher que eu não sei quem é, que eu nunca vou saber e nem vou atrás.

“A fachada da casa,

em que a personagem mora,

que é sempre reformada

para não se parecer antiga”

E nesse movimento de tentar entender as mães, em algum momento você pensou em escrever em primeira pessoa?

Não, sinceramente, eu não lembro. Para mim, eu gostava mais do tom do meu narrador em terceira pessoa que eu pensava ter mais a ver com a história. Eu achei que tinha mais liberdade para dar o tom que eu queria, mais carregado, mais denso. Normalmente, na primeira pessoa você tem que fazer uma negociação com a personagem e quase sempre o escritor sai perdendo. Porque você tem que dar prioridade ao jeito dela falar e ao pensamento dela. Também pensei que já estava trabalhando com uma protagonista, de um gênero diferente do meu, na meia-idade, uma idade também diferente da minha, com filho desaparecido e eu nem tinha filho. É uma pessoa muito diferente. Tudo bem que o narrador é em terceira pessoa, mas ele é muito próximo e quase que fala no ouvido dela. Eu sinto que funciono melhor assim.

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Momentos da nossa entrevista.

Retomando a sua obra, seu primeiro livro foi uma coletânea de contos e depois você migrou para o romance. Quais são as principais diferenças em se trabalhar com esses dois gêneros?

Esses gêneros são bem diferentes e acaba que o gesto da sua escrita, como você pensa a história, tem que ser muito diferente. Eu não acho que seja um exatamente mais difícil do que o outro ou que um é uma prova maior da capacidade de escrita. O fato é que ao pensar uma história para um conto, em geral, ela tem que ser resolvida num espaço mais curto de eventos, personagens, cenários. O romance é o contrário, você expande mais, se alonga e as coisas demoram mais. É o que a história que pede. Em Rebentar, quando pensei na história de uma mulher que tinha um filho desaparecido há 30 anos e que ficou presa a esse luto, percebi que não cabeira num conto e precisaria ser uma narrativa longa. Dar esse tempo as coisas, a esse desmontar lento de cada detalhe do seu universo e do filho ausente. No começo, fiquei bem assustado.

“Ali ela tinha

perdido a filha de novo”

Por que esse susto inicial?

É aquilo que eu falo, como se estivesse acostumado a desenhar numa folha de papel e você sabe o tamanho do nariz do hominho para o desenho ocupar a folha inteira. De repente, é um painel gigantesco numa parede de metros de dimensão. E você já não sabe mais o tamanho exato do nariz para o hominho ocupar o espaço que você quer. No começo, foi difícil, mas, depois quando percebi o quanto eu podia me prolongar em certos elementos do texto, comecei a gostar. Eu podia falar sobre a fachada da casa, em que a personagem mora, que é sempre reformada para não se parecer antiga e a família também continuou morando no mesmo lugar. Os retratos sempre com as fotos de Felipe, com até 5 anos, como se fosse uma espécie de santuário. O quarto que é mantido intacto. No conto, eu teria que escolher um desses elementos e esse seria o símbolo dessa espera, que fica meio emperrada. Mas no romance, não, eu podia explorar um pouco de cada, ficar um pouco aqui e depois ir para lá. Só que foi uma transição um pouco difícil, de encontrar o tamanho do gesto e a ação de cada coisa. Começar um arco e saber onde posso terminar. No fim, estava adorando, cara.

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Durante o Prêmio São Paulo de Literatura 2016.

 Aprofundando um pouco mais na sua vida, quando surgiu seu interesse por Literatura?

Desde moleque fui ligado em atividades criativas. Era ruim de bola e também não era uma criança linda, mas aí eu comecei a desenhar e criar redações na escola. Todo mundo achava o maior barato. A minha redação era aquela que a professora lia no meio da classe e quando não lia, o pessoal pedia para ela ler. Comecei a me dar bem nisso, sabe?! Quando era pequeno adorava criar histórias em quadrinho, inventar personagens e enchia cadernos com os desenhos. Gostava de ler também, mas não era um leitor ávido.  Não era aquele garoto que lia James Joyce com 7 anos. Então, o caminho da Literatura veio mais pela criatividade. Na adolescência, fui para a música e, só mais perto dos trinta, comecei a ler muito e gostar de Literatura. Aí gostava de ser criativo e de me meter a besta para fazer o que gostava, até que chegou à hora de escrever minhas histórias. Comecei e o meu primeiro livro foi também meu primeiro trabalho. Escrevi os contos, do livro “Réveillon e Outros dias”, e mandei para tudo que era editora. Felizmente, consegui publicar e, inclusive, ganhei o prêmio SESC. Foi assim e o resto é história [Risos].

“A ficção te coloca em contato

com uma vida totalmente diferente da sua,

mas para você poder compreender aquilo”

Sendo a escrita uma atividade profissional recente na sua vida, como você se coloca na situação viver ou não dela?

Eu não vivo da escrita. E, sinceramente, não tenho a menor perspectiva de viver da escrita e, não, por um comodismo. O pessoal tem uma ideia muito diferente do que é a vida de escritor. As pessoas pensam que se vende centenas de milhares de exemplares, mas, a realidade, é bem longe disso. Não é porque você publicou por uma grande editora que você para tudo na sua vida e vai viver da escrita. Não é mesmo. É uma minoria muito pequena os escritores que de fato vivem da Literatura e mesmo quem vive da literatura não vive só de escrever, a não ser Paulo Coelho e autores de best-sellers. O cara faz um monte de evento, dá oficina, escreve resenha, faz tradução. Sei lá, faz mil coisas. A ideia que eu defendo é que esses caras devem falar: “Pô, queria eu ter tempo para escrever”. Eu penso que com um emprego fixo, estou na minha casa escrevendo sem pressa. Grande parte dos escritores tinham outros empregos e escreveram bons livros, podendo curtir, mesmo que não fosse publicado por uma grande editora ou que recebesse os louros da fama. É mais viver a escrita, do que viver de escrita. Se aquele momento que você acabou de escrever te dá um tesão, posso falar isso né?! Legal, está feito. Só não imagino que uma fila enorme na Bienal vai te dar esse tesão. Não sei. Enfim, para quem escreve o jogo está entre você e a escrita.

E para terminar algumas perguntas rápidas. Um livro? Isso é tão injusto com todos os outros… Aquela água toda, de João Anzanello Carrascoza. Uma música? Eu sei que vou te amar, do Tom Jobim e do Vinicius de Moraes. Um filme? Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman

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