Meu Destino é Pecar – Nelson Rodrigues

Além do bem e do mal, resenha do livro Meu Destino é Pecar, de Nelson Rodrigues, publicado pela Nova Fronteira. Uma história repleta de ciúmes que transborda o desejo de vingança. É o desenlace de um triângulo amoroso, formado por Lena e dois irmãos, Paulo e Maurício. Escrito sob o pseudônimo de Suzana Flag e publicado em capítulos n’O Jornal.

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Meu destino é pecar pela Nova Fronteira.

 “Ele precisava ficar feio. Ah, se ele tivesse uma doença ou sofresse um desastre!… Ele seria só meu, nenhuma mulher o quereria, nenhuma!”, assim falava Regina no mais completo desespero. Essa mulher abandonara sua família e fora viver sozinha numa cabana à espera de seu grande amor, Maurício. Ele que só aparecia nas madrugadas e ela que só era feliz quando ele ia visitá-la. Agora, a cena era outra, ela que o visitava. Ele, doente e em delírio por conta da febre, não podia sair de casa e ainda gritava pelo nome de outra, de Lena.

Perdida de amores e dominada pelo ódio, Regina retirou um alfinete de suas roupas. “Vou cegá-lo! – e gaguejou. – Vou furar com isso os olhos dele! Não quero que veja mulher nenhuma. Nunca mais!”. Eis que nos últimos instantes que antecederiam essa tragédia, Lena, a nova amada, surge de trás das cortinas do quarto, onde estivera escondida, e impede a outra de continuar. Assim, as duas começam a se debater…

Poderia ser esse um grande spoiler do livro Meu Destino é Pecar, de Nelson Rodrigues, mas não passa de um evento qualquer. Talvez, você nem se lembre dele ao fim da leitura desse texto que transborda exagero e que carrega um sentimento de tragédia iminente. A todo momento estamos aguardando e, por isso, garanto que existem cenas ainda mais excitantes. Basta conhecer a sinopse: Lena nascida em uma família pobre e com o pai prestes a ser preso, aceita se casar, mesmo não apaixonada, com Paulo, um rico fazendeiro e irmão de Maurício. Sem direito à Lua de mel ou a um único beijo, muda-se para a fazenda, onde os três passam a viver sob o mesmo teto. Além deles, paira sobre a casa a memória da primeira esposa, Guida. Era a mais linda entre as mulheres e por ela tanto Paulo (o marido) quanto Maurício eram fascinados. Só que todo esse encanto terminou de maneira trágica, Guida foi morta e desfigurada.

Enquanto se sucedem os casos e descasos desse triângulo amoroso, desafio qualquer um a encontrar o vilão dessa novela mórbida. E olha que existem jagunços armados, cães (mais parecidos com lobos) esfomeados e uma sogra vingativa. Entre todas essas caricaturas, nada é simples. Mesmo o mau tem suas fraquezas e seus sofrimentos. Em igual posição estão os mocinhos, dominados pelo ódio e pelo medo. Como Lena que a princípio foi uma vítima das suas circunstâncias (a pobreza), mas escolheu pelo casamento e nisso seria justo esse envolvimento emocional com outro?  Repleto de questionamentos morais, o livro se constrói, de maneira nem tão previsível como um bom entretenimento, mas não espere por um Dostoiévski.

Muito desse descompromisso com a criação de uma obra maior se vale da origem desse romance. Nelson Rodrigues não o assinou e publicou sob o pseudônimo de Suzana Flag. Com esse heterônimo, ele escrevia suas histórias para O Jornal em forma de folhetim. Então, era algo para ser lido no dia e, antes do fim da leitura, já se esperava pelo próximo capítulo sem grandes reflexões. Era uma escrita descompromissada que abusa de clichês, mas que soube garantir momentos de sensibilidade. Na época, o sucesso foi tanto que os capítulos foram reunidos em livro e esse terminou adaptada para a TV e para o cinema.

Fico imaginando a curiosidade dos primeiros leitores que só podiam ler um capítulo por semana. Penso que eles ficavam loucos pelo jornal, porque li as mais de 500 páginas em dois dias. Sem dúvidas foi um grande êxito e muito por conta desse apelo comercial, não se deve esperar uma transgressão dos costumes. A todo momento, mulheres exclamam frases de que não eram capazes de resistir a natureza dos desejos. No entanto, a maior dúvida de Lena, dividida entre a moral e o amor, era: se o seu destino seria pecar.

P.S.: Li a edição da Editora Nova Fronteira, que também publicou outro livro interessantíssimo do Nelson, “Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo”. É uma coletânea de aconselhamentos amorosos respondidas em um jornal e escritas sob o pseudônimo de Myrna.

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