Um símbolo do ontem e do hoje – Léa Ziggiatti

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Retrato de Léa Ziggiatti.

No mês de Carlos Gomes, entrevistamos Léa Ziggiatti, artista, advogada, dramaturga e diretora artística do Conservatório Carlos Gomes, em Campinas. Sua fala começa com a história desse importante compositor brasileiro, passando pela educação infantil até terminar com a importância das crianças para a construção de um futuro melhor. Nas entrelinhas, ainda lemos as limitações que lhe foram impostas, mas também a superação das mesmas.

Preservar, preservar nossos artistas, preservar nossas artes, preservar nossa história! Esse é um discurso tão bonito e, ao mesmo tempo, muito pouco colocado em prática. Por exemplo, esse é o Mês de Carlos Gomes e sei que a data está quase passando despercebida para muitos, mesmo ele sendo um dos mais importantes compositores brasileiros. A nossa sorte é que ainda nos restam dois dias de setembro e aqui estamos com a presença de Léa Ziggiatti, proprietária e diretora artística e pedagógica do Conservatório Carlos Gomes, em Campinas. Aos 80 anos, ela, jornalista e advogada, continua como um símbolo d’avant garde e um cajado das artes, acompanhada de sua escola fundada em 1927 e dos milhares de artistas que formou.

A primeira pergunta é direta, mas necessária. Afinal, quem foi Carlos Gomes?

Ele foi um grande compositor brasileiro que teve o primeiro contato com a música na bandinha de seu pai, aqui na cidade de Campinas. Só que ele, um apaixonado por ópera, descobriu-se um talento muito grande. Queria ir para a Itália, onde acontecia a música daquela época, pelo menos para a Europa mais ligada ao movimento lírico. Lá compôs sua primeira ópera, o Guarani, e foi um assombro. Você, imagine num continente todo tradicional repleto de castelos e reis, ser apresentada uma história voltada para a colônia, numa selva, em que o indígena era o grande herói. Foi um arraso, numa exacerbação do romantismo de Carlos Gomes. Ele ganhou o público e depois realizou mais nove óperas muito boas também.

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Estátua de Carlos Gomes, em Campinas, e sua Ópera O Guarani.

Como nasceu o Conservatório? A escola é mesmo uma grande homenagem ao músico?

A história é bem interessante. Minha vó teve sete filhos homens e colocou cada um na sua profissão. Para o médico, ela arranjou um hospital. Para os comerciantes, ela arrumava um comércio que elas gostassem, como foi o caso de meu pai. Já o meu tio Miguel tinha ido para o seminário e seria padre. Lá, ele percebeu que não tinha vocação e, quando voltou, minha avó não sabia o que fazer. Até que veio um jornalista de São Paulo, Benedito Barbosa Pupo, procurando um mecenas para investir numa escola de música, que honrasse o legado de Carlo Gomes em Campinas. O Pupo escreveu um artigo enorme no jornal para que as pessoas se sensibilizassem por essa história. Aí, ele convenceu minha avó, Catarina Ziggiatti, e uma senhora musicista, Catarina Inglese Soares, a fundarem o Conservatório. Então, meu tio ao lado dessa sócia foram os primeiros diretores da escola.

“Ser apresentada uma história voltada para a colônia, numa selva, em que o indígena era o grande herói”

E você? Como entrou nessa história?

O conservatório era do meu tio, então sempre esteve na minha vida. Com quatro anos comecei a fazer aulas de piano. Ainda lembro da minha professora Erudice e de meus pés pendurados no ar. (Risos) Conforme crescia, continuava lá, mas ainda não totalmente envolvida. Descobri que gostava de escrever, da música, da dança, do teatro, de tudo. Era muito eclética e não sabia muito bem qual era o meu destino. Eu sei que eu ficava sonhando em um dia pegar a escola e fazer dela um centro de arte.

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A primeira imagem é de Léa assistindo um exercício em sala de aula. Ao lado, ela de branco junto ao marido, Bira, de terno acompanhados do professor Amadeu Tilli e da mãe dele.

Quando você assumiu a direção do Conservatório?

Eu era bem nova quando assumi. Tinha acabado de me formar em direito na PUC, em Campinas, e cheguei a advogar só um ano. Fiz algumas defesas, mas não conseguia me envolver. Eu chorava junto aos clientes. Não dava, não dava. Eu também não podia ver gente devendo e sendo cobrada. Então, larguei a advocacia e tive a felicidade do meu tio querer vender a escola para mim. No fim, o curso me ajudou a gerir o Conservatório, principalmente, nos momentos em que eu precisava lutar com a parte de impostos e no lado mais prático da coisa, que são horríveis para quem gosta de arte e música.

“Eu sei que eu ficava sonhando em um dia pegar a escola e fazer dela um centro de arte”

Fez algum curso para se aprofundar ainda mais na área artística quando começou?

Fiz sim. Justamente nessa época, eu conheci uma moça, esposa de um grande músico, que trabalhava com musicalização infantil. O casal era Lídi Minoni e Francisco Minoni. Ela dava curso para professores no Conservatório jardim América, em São Paulo. Aí eu me inscrevi para estudar e fiquei fascinada com o que aprendi. Tanto que depois criei a inicialização musical no Conservatório. Aquilo era totalmente diferente para época. Inspirada no movimento da criança e foi revolucionário dentro da cultura da cidade.

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Aula de artes plásticas para crianças e uma apresentação dos Meninos Cantores.

Quais foram as mudanças da direção do seu tio para a sua?

A escola já tinha um número razoável de alunos. Meu tio era extremamente sério e identificado com a música erudita. Trouxe muitos cantores líricos da Itália e acolhia esses professores magníficos, mas ele só pensava na música. Quando eu entrei já pensava naquilo como um polo artístico. Claro que também apoiei muito o lado musical e contribuía inclusive para a fiscalização artística. Nesse tempo, o Governo mandava um fiscal assistir a todos os exames e, só aprovados, os alunos conseguiam os certificados. Dei muita força para isso, mesmo perdendo alguns alunos, porque a música não era considerada uma profissão. Estava mais para uma diversão para mocinhas que estavam esperando casar. Não pensava assim e, talvez, aprender a tocar tenha sido a coisa mais difícil que estudei na vida. É uma ciência, é uma arte. Um universo muito amplo e ainda é preciso acompanhar as modificações.

“Estava mais para uma diversão

para mocinhas que estavam esperando casar”

Como as outras artes foram entrando no Conservatório?

Foi de maneira gradual e comecei pelas artes plásticas. Conheci o Egas Francisco que é um artista plástico maravilhoso. Também nessa época eu era jornalista, sei lá como eu fiz, mas acabei me metendo no jornal. Nesse tempo, só tinha de faculdade a Cásper Líbero, em São Paulo, e acabava que o diploma não era obrigatório. Como era noiva, não conseguiria estudar em outra cidade, mas, nessa época, as mulheres não estudavam fora. Essa vontade não poderia nem passar pela minha cabeça por mais imaginação que eu tivesse. Então, fui fazer uma reportagem com e ele e conheci o seu projeto com meninos de rua, engraxates de sapatos. Aí, eu o convidei para ajudar no Conservatório num curso para professores. Então, juntamos a inicialização musical com as artes plásticas. Depois, encaixei a dança e o teatro nessa escolinha, que se tornou a inicialização artística. A mesma que temos até hoje. Assim, um dia, essas crianças percebem que tem um bom ouvido e escolhem seguir carreira na música. Aquele que tem um bom físico, vai para dança. E quem tinha tudo, continuava a querer fazer tudo (Risos).

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Atual sede do Conservatório, no Jardim Santa Cândida, em Campinas.

Por que começar essas mudanças pelas crianças?

Comecei pelas crianças, porque penso que nada se constrói sem a base, a raiz. Não adianta fazer muros e telhados sem a base. Faltava a criança e eu queria uma escola que as introduzisse nas artes de uma maneira adequada. Desse jeito, eu tinha crianças que entravam com 5 anos e só saiam com 21 ou 22 anos. Com essa idade, iam para a faculdade, já sabendo suas preferências. Para chegar nessa descoberta, fizemos salão de artes plásticas com adolescentes, concursos de pianos e violinos, os festivais de dança, uma orquestra infantil e todo mundo foi se envolvendo mais naquilo que gostava. Minha filha, a Lara, é um grande exemplo disso e continua até hoje sua carreira na música. O projeto mesmo pegou muito fôlego e foi com essas crianças que eu mantive o Conservatório. Quando assumi, eram 7 conservatórios em campinas e, hoje, só restou o nosso, que continua englobando tudo. Afinal, as artes agrupadas têm muito mais chance de persistirem.

“Todo mundo foi se envolvendo

mais naquilo que gostava”

Considerando toda sua trajetória, como você enxerga as crianças?

De uma maneira simples. Elas são as pessoas que mais temos que tomar mais cuidado. São o nosso futuro e, se não cuidarmos dela, ele será negro. As crianças refletem a esperança que todos nós precisamos. Quando nos debruçamos sobre elas, temos a colheita, mas para isso tem que cuidar todo dia para não deixar murchar e nem morrer♦

6 comentários sobre “Um símbolo do ontem e do hoje – Léa Ziggiatti

  1. Dia. Lea, que figura brilhante e apaixonante! Tive um prazer enorme em ler sua entrevista, que Deus lhe dê muitos anos a mais para nos honrar e nos auxiliar com a sua sapiência em artes e história da arte! Beijos 1000

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