As coisas não precisam de tanto valor

Perfil de uma típica dona de casa, classe média e paulistana. Uma mulher que viveu todas as delícias e as dores de um casamento. Ficou noiva, teve filhos, passou horas na cozinha, foi traída e é viúva. Mas quem disse que a vida não pode lhe proporcionar novas reviravoltas?

Certeza: um conceito complicado que costumo evitar. Felizmente, não são todos que pensam assim. Mulheres fortes dizem o que pensam, como Noêmia Giusfredi Musse. Ela, no auge da sua sabedoria de seus 76 anos e passadas algumas intervenções estéticas, afirma ser bonita. Com essa espontaneidade começamos nossa conversa, para qual ela, uma senhora travestida de uma sobriedade, vestia um espesso trench coach preto e um fino lenço roxo.

“Tenho uma coisa com espelhos e toda vez eu vejo um, paro para me olhar”, ela confessa em tom de brincadeira. No entanto, a beleza sempre foi um de seus principais atributos. Ainda jovem, trabalhava como recepcionista no Banco da América e lá vivia rodeada de confusões. Os clientes não tinham vergonha e recebia convites um tanto indesejados e descabidos. Para encerrar esses absurdos, ela conta que marcava os encontros na hora da saída, porque era seu marido que vinha lhe buscar e isso espantava qualquer pretendente.

O homem que realmente queria era seu marido, ela me garante. Fala com muito orgulho dele, um galanteador nato que adorava tecer elogios. Entre eles, ela se deleitava com este: “Foi uma noiva mais bonita que todas as suas filhas”. É fácil imaginar o porquê. O casamento foi um dos dias mais felizes de sua vida. Com 19 anos, ela entrou na Igreja do Belém com seu tio Mário, usando um vestido todo bordado, um véu muito longo e uma tiara similar a uma coroa. Ela fez questão de me contar esses detalhes, mas também de mostrar o próprio álbum de casamento.

Seria muito egoísmo não considerar o nascimento de seus filhos como momentos importantes em sua vida. Foram três grandes motivos de glória. A mais velha, Valquíria, fez magistério e mais tarde se formou em Letras. Luísa, a do meio, cursou Administração e percorreu a mesma trajetória do pai, como bancária. E o último, Luís, seguiu a carreira do Direito e é Doutor. Assim Noêmia divaga sobre a benção que foram seus meninos e as dificuldades de lhes entregar um título universitário.

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Além de modelo para os filhos, seu marido, Luís Musse, foi um grande pai para ela. “Ele me ensinou quase tudo e sou muito grata”. Afinal casaram-se cedo e, antes disso, ela vivia de casa em casa. Era a casa da família em Amparo, uma temporada num Colégio de Freiras, algum tempo em Serra Negra e sua mudança para São Paulo com a irmã Lídia, mas foi só com o esforço do marido que ganhou seu próprio espaço.

Em seu canto, era excelente em ser dona de casa e, sem dúvidas, seu dom era o de cozinhar. Com 8 anos, já estava numa cozinha. Conta que “Ninguém nunca me ensinou e tudo que sei aprendi foi no olhar”. Visitava os vizinhos e mais tarde ela tentava repetir as refeições que via e aos poucos descobria sozinha o ponto certo. “Minha sogra, ela era árabe, e fazia uns pratos deliciosos. Era eu virar e ela fazia algo escondido, mas, no final, meu quibe ficou muito mais famoso”. Depois desse causo repleto de risos, ela imagina como tudo poderia ter sido diferente.

Sua mãe cozinhava muito bem e essa teria prazer em ensinar seus truques. Ficavam todos num caderninho na última gaveta da cozinha. É triste pensar que ela nunca o teve. Só que na época do acidente, ela era muito nova e não deu valor. Os dois, a mãe e o pai, morreram de forma brusca. História essa que se limita a isso e não revela mais nada. Ainda fala que os fofoqueiros daquela época poderiam me dar maiores detalhes, mas já se foram.

Com um breve olhar para o vazio, ela retoma as boas histórias. “Meu marido gostava de esbanjar e sua paixão sempre foram os carros. Minha vida toda foram 4 ou 5 carros na garagem e um deles era sempre o do ano. Para ele, tudo era investimento”. Sabendo que mesmo o salário do marido tinha seus limites, preocupava-se com a fatura do mecânico e a do posto de gasolina. Para isso, ponderava na hora do supermercado.

Toda essa dedicação, não foi garantia de uma vida fácil. Seu marido, bancário, tinha uma profissão de status. Eram outros tempos, nos quais tinha, inclusive, secretária particular, a Cecilinha. Para sua filha mais velha, existia entre eles uma tórrida relação, mesmo com a moça noiva, “mas quem resistiria ao patrão, né”. A história ganha mais contornos, quando a própria Noêmia se gaba do fim da funcionária, “uma balofa amargurada”.

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Essa história lhe causava tristeza, embora prefira não assumir. Quem diz é sua filha, Luísa, que ainda pequena, via mais coisas, como sua mãe chorando ao pegar os lenços sujos do paletó de seu pai. E a cena, pelo que se lembra, era frequente. Além disso, tinha os famosos churrascos do banco, nada familiares, mas os álbuns de foto eram todos guardados no lar.

 Desse universo, nada soava familiar para Noêmia, muito menos esses registros. Quando o marido faleceu, nem um mês se passou, tudo tinha sido entregue às chamas, inclusive os negativos. “Ali não existiam memórias para serem preservadas”. Com isso quase tudo do falecido foi embora, ela me confessa sem arrependimentos. Sentimento esse do qual começava a se libertar.

Resolveu se juntar ao grupo da Terceira Idade, não perdendo nenhuma excursão, e arranjou um novo emprego. Aos sábados, é assistente de uma cabeleireira do bairro e em troca ganha um corte de cabelo com escova e unhas feitas. Além disso, hoje, tem um “colega”, o Camilo. “É uma relação de companheiros, mas cada um na sua casa e nem penso em morar junto com mais ninguém”. Para se manter atraente, ainda mente a idade e ele acredita que ela é 10 anos mais jovem.

Com tantos novos elos se formando, ela rompeu de vez com a cozinha. Não cozinha para mais ninguém e até a ceia de Natal se recusa em preparar. “Já usei muito aquele fogão e, hoje, tenho minhas preocupações”. Inclusive, essa semana esteve no jornal. Campeã nos jogos intermunicipais em buraco, ou como prefere chamar, carteado.

Com um sorriso, ela me mostra mais uma preciosidade, sua gaveta de medalhas. É tanto dourado que vejo que pergunto o motivo de não estarem expostas na parede. Num ato de desprendimento diz: “não preciso disso e sei que quando morrer, vão jogar todas fora. Eu fiz o mesmo com os troféus do meu marido. Vai tudo muito rápido e isso só me interessa”.

7 comentários sobre “As coisas não precisam de tanto valor

      1. Trabalhar com palavras, transformá-las em ideias capazes de levar as pessoas a sonhar, a viajar é uma arte que você já a possui, basta continuar…..

        Curtido por 1 pessoa

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