Lucíola – José de Alencar

luciola-jose-de-alencar

Um caso tórrido de amor entre um homem e uma prostituta no Rio de Janeiro. Lucíola, de José de Alencar, é escrito por meio de cartas e nelas estão todas as desventuras dessa casal. Nesse contexto, você imaginaria um final feliz? Eu, não, e é bem isso o que acontece. Aos poucos Lúcia, a cortesã, renega os prazeres da carne em busca do amor verdadeiro… Aí que saudades desses sofrimentos sofridos.

Se um dia me pedissem para eleger meu Movimento Literário favorito, pensaria nisso por um bom tempo. Se me dissessem que a partir da minha resposta, só poderia ler livros desse período, eu choraria, mas muito provavelmente optaria pelo Romantismo. Admito ter uma pontinha de inveja dos grandes amores e dos grandes sofrimentos vividos por personagens que não temem ser verdadeiros bregas. Saudades de uma época tão distante da nossa modernidade líquida, onde não existe nada mais démodé que morrer por amor.

Aos moldes d’Os Sofrimentos do Jovem Werther, o romance Lucíola, de José de Alencar, é composto por uma coletânea de cartas, nas quais um homem apaixonado, Paulo, narra sua história de amor com Lúcia para uma senhora. Gosto de pensar que esse foi um acerto e tanto do escritor, afinal quem foram os leitores originais dessa obra? Mulheres, alfabetizadas e de relativo conforto socioeconômico que liam os jornais, ou seja, não existem diferenças. Aqui vale ressaltar que o livro foi primeiro publicado em um jornal, seguindo os moldes do folhetim, o que também faz da leitura algo despretensiosa (ou não, dependendo da profundidade de sua interpretação).

O livro foi e ainda é polêmico. Conta a trajetória de um homem do interior que chega ao Rio de Janeiro, a cidade da Corte, e numa festa típica e tradicional conhece uma mulher, Lúcia. Se encanta a primeira vista, mas logo descobre sua verdadeira natureza, a de uma prostituta. Assim, seus conceitos mudam radicalmente e ele escreve: “Compreendi e corei de minha simplicidade provinciana, que confundira a máscara hipócrita do vício com o modesto recato da inocência”.  Depois disso, não conseguia mais imaginar um happy end e, nessa hora, nem a mais afetada escrita de Alencar me animou. Então, recomendo  um estômago bem forte para os que se aventurarem nesse livro. Além de coragem para enfrentar a melancolia.

Dessa forma, todo envolvimento do casal é repleto de preconceitos e a narração muito machista (olha que perigo eu palpitando sobre isso, rs). Obviamente, Lúcia teria que ser uma nova mulher para manter viva essa relação. Paulo é assim sua redenção e acompanhamos sua tentativa durante as mais de 150 páginas do romance. Aos poucos, ela abdica de sua identidade e permite que a culpa e o sentimento de imundice se apropriem de toda sua vida. Inclusive sua beleza se transmuta. Nos últimos capítulos, suas roupas não tem mais cores, se veste com a simplicidade de uma freira e seu quarto mais parece uma cela.

A pergunta que fica é: o destino de Lúcia foi uma escolha moralizante do autor José de Alencar ou era a única possibilidade aceitável para a sociedade da época? Existe ainda uma terceira hipótese, a de que essa história que jamais aconteceria, pois ambos habitavam realidades completamente opostas. No fim, isso pouco importa e o que se lê é a idealização moral de uma prostituta ao lado de um homem que não consegue conviver com os julgamentos e os comentários mesquinhos de seus amigos. Seria esse um amor desejado para se viver ou não teria sido melhor cada um seguir seu caminho distantes um do outro?

 

Esse é mais um juízo de valores, agora, imposto por mim. Existem algumas histórias que não devem ser experimentadas, porque muitas forças externas agem contra elas de todas as maneiras imagináveis. Por isso, nesses casos, é preciso uma boa dose daquela breguice ou sinceridade extrema dos personagens românticos, o que acabou faltando nessa obra. Porque se formos viver histórias condenáveis pelo grande público que nos joguemos sem o medo do amanhã ou do calor das fogueiras. É verdade, que Lúcia se entregou por completa. Mesmo que a julgue, acredito que ela fez o que pensava ser certo. Já para Paulo faltou coragem e,  repito, faltou muita coragem…

Tanto é que ele assume uma mea culpa ao longo de sua narração para com sua(s) leitora(s) : “Mas a senhora lê e eu vivia;  no livro da vida não se volta, quando se quer, a página já lida, para melhor entendê-la; nem pode-se fazer a pausa necessária à reflexão. Os acontecimentos nos tomam e nos arrebatam às vezes tão rapidamente que nem deixam volver um olhar ao caminho percorrido”. 

P.S.: Li  o livro da L&PM Pocket e recomendo. Bom, barato e posso grifar a vontade sem peso na consciência.

P.S.2: Um livro para entrar na bad

2 comentários sobre “Lucíola – José de Alencar

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s