Now or Never #03

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Vancouver transpira uma atmosfera costeira. De Downtown, o centro comercial, é possível enxergar o mar por todos os lados e ao fundo, bem ao fundo, aqueles enormes guindastes vermelhos, erguendo contêineres e enchendo navios. Os prédios, em maioria espelhados, refletem ou o azul do céu, ou o azul do oceano. E como toda região litorânea,  ela é repleta de pássaros. Desde as tradicionais pombas dos centros urbanos até as grandes aves brancas que mergulham nas águas salgadas, passando pelos indesejados corvos.

Esses animais negros e insolentes estão por todos os lados. Escrevendo esse texto mesmo posso escutar um deles grasnando em minha janela. Sempre nos vigiando ou eu, simplesmente, exagerando. O interessante mesmo é a calmaria que essa cidade transparece em seus limites. As construções são sóbrias e se alternam entre o neoclássico e o contemporâneo. As pessoas pelo centro estão sempre bem vestidas e até as lojas não abusam dos anúncios chamativos.

Com a exceção do Pacific Centre, ainda na região central. Suas vitrines estão adesivadas em vermelho. Se destaca, em branco, um grande S-A-L-E e, no seu interior, a seguinte frase: “Now or Never” (tradução livre: “agora ou nunca”).  Curioso como sou, entrei e descobri uma espécie de loja de departamentos, o Nordstrom, com inúmeras grifes internacionais. Dolce Gabanna, Channel, Alexander McQueen, Gucci, Fendi … Como se não bastasse essa dose diária de luxo para a contemplação (note que não digo consumo rsrs), muitas peças estavam com descontos que oscilavam entre 40% e 80%. Era um paraíso de veraneio!

 

 

Como até o Sol se põe ao fim do dia, era hora de voltar para casa. Estava decido por um looonga caminhada, considerando que meu percurso de skytrain leva cerca de 30 minutos e eu faria isso a pé. Guiado pelo meu Google Maps, eu me aproximava de uma área meio hipster. O comércio continuava presente, mas existia um quê de decadência. O primeiro homeless já aparecia, falando sobre a salvação.

Continuei. As figuras bizarras também continuaram a se multiplicar. Um senhor com o rosto machucado batia insistentemente sua cabeça na parede. Uma senhora de meia arrastão pink e de cabeça raspada verde-limão gritava com raiva algo que não conseguia entender. Deficientes sem cadeira de rodas ou muletas se movimentavam como podiam. Eles se arrastavam com suas roupas maltrapilhas. O ar estava contaminado pelo cheiro de urina e álcool. Ali, os tesouros eram as lixeiras: muito disputadas, entre corvos e homens.

Por um instante, me senti em Os pássaros, de Hitchcock. Estava presenciando o fim do mundo e nem eram quatro horas da tarde. A rua era claustrofóbica e a cada passo só piorava. Ainda não entendo porque insistia naquela direção. Era um now or never para mim. Algo também me lembrava a cracolândia de São Paulo (experiência de quem já se perdeu por lá também). No meio desse caos, um loiro enorme, que havia exagerado nos anabolizantes, caminhava tranquilamente com seus dois pit-bulls presos por enforcadeiras.

Como se ele fosse um comandante, o segui até o fim daquelas águas/ruas soturnas. Acompanhava cada um de seus passos e só observava seus cães rosnando para as infelizes figuras. Inclusive, para um jovem ruivo de braços vermelhos e espetados. Esse garoto dizia a uma BMW, encostada naquela sarjeta, “Over, over” e chacoalhava as mãos.

 

 

Tudo acabou na China, ou melhor, em Chinatown, onde ninguém falava inglês. Se isso fosse uma ficção, escreveria que uma senhora de quase cem anos, em uma loja de especiarias, abrira um portal no tempo e no espaço para eu voltar tranquilamente para meu destino. No entanto, essa figura nunca existiu. Entrei em diversos comércios locais. “Hi! I’m lost. Can you help me?”. Ninguém me entendia e todas faziam uma cara de será que ele está falando chinês.

Até que uma dessas feições de incompreensão, me apontou uma menina, com seus 12 anos, atrás de um balcão. Contei toda minha história num inglês sofrível, mas, por Poseidon, fui compreendido. São raros os falantes de inglês nessa região de imigrantes. A criança de voz suave e de olhinhos bem puxados me alertou sobre os riscos do lugar e me explicou a melhor maneira de voltar para casa. Iria pegar aquele skytrain que tanto rejeitei.

A partir de, então, o canto do  Google Maps se tornou mais perigoso que a voz de qualquer sereia, afinal foi que ele me levou ao precipício e, por sorte, escapei.

P.S.: Essa rua tenebrosa é a Hastings Street #TomeCuidado ♦ 

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